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O eterno tormento

por Orlando Margarido — publicado 30/11/2012 11h07, última modificação 30/11/2012 11h07
Em nova biografia, Van Gogh não recebe o fim certo dos suicidas
comedor de batatas

O pintor desejava pintar o camponês, como ensinara seu mestre Millet, mas sem a falsa beleza ou o senso idealizado

Na curta e penosa existência, Van Gogh faria de longas caminhadas um subterfúgio de sobrevivência. Os percursos poderiam ser de cunho religioso, vocação herdada do pai pastor e da mãe severa e devota, ou mais notável ao mundo, artístico, que o conduzia aos campos de inspiração de suas pinturas coloridas e de grossas pinceladas. Certa feita, ainda adolescente, abandonou o colégio interno a que foi obrigado pela família e, em vez do trem, preferiu caminhar sete horas até em casa como autopunição por entender, em seu ato, um fracasso. Foi também um passeio, dessa vez breve, que selou o fim de seus tormentos em 29 de julho de 1890, aos 37 anos, momento em que teria puxado o gatilho de um revólver nos arredores da pequena Auvers, na França.

O condicional se faz necessário desde o ano passado, quando, lançada nos Estados Unidos, a nova e volumosa biografia Van Gogh – A Vida (Companhia das Letras, 1.095 págs., R$ 79,50) propôs uma revisão do suicídio que contribuiu para mitificar a imagem atormentada do pintor holandês. Interpretação tão delicada que surge como apêndice a um bem fornido estudo dos autores Steven Naifeh e Gregory White Smith entre a complicada e dolorosa formação pessoal de Vincent Van Gogh e o resultado desta na rápida trajetória de artista numa única década. Teria abreviado sua carreira, poucos dias depois de pintar obras-primas como Campo de Trigo com Corvos, não um gesto de desespero como outros antes, mas o possível incidente com uma arma de má conservação de posse de adolescentes com quem o artista convivia. Entre os pontos de controvérsia da tese está a possibilidade de o pintor ter, sim, contribuído para o infortúnio, com um arranjo proposital da brincadeira.
Razões para tanto o torturavam, como se pode medir no extenso relato até o apêndice Nota sobre o ferimento fatal de Vincent. Na análise de tormentos há sempre uma relação que não se mostra evidente a justificar as atitudes de Van Gogh, que ao mundo pareciam incongruentes, mas para ele tinham sentido de fuga e resguardo. A contradição será para o artista uma noção comum a ser temperada de acordo com as pressões externas. Querer ser aceito como um filho normal no âmbito familiar de mais cinco irmãos rivalizava com todo o empenho de se afastar desde cedo. A grande afinidade do primogênito com o irmão mais novo Theo, futuro entusiasta e apoiador de sua arte que lhe devolveu o amor até o fim, sucumbia muitas vezes ao ciúme e à discórdia por este representar a perfeita realização do homem de sucesso para o clã. Por fim, o talento de uma pintura negada e ridicularizada por um cenário ainda inapto a compreendê-la, e fracassada no plano comercial, coroava o rosário de aflições de um espírito só depois da morte revistas e reparadas.
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