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O copista da revolução

por Elias Thomé Saliba — publicado 10/08/2012 12h17, última modificação 10/08/2012 12h17
O historiador Stephen Greenblatt mostra como a descoberta de um poema da Antiguidade deu asas ao Renascimento
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A Primavera, de Botticelli, baseada na obra de Lucrécio

Conta-se que Maomé ouvia a palavra de Deus e a transmitia a seus escribas. Um dia, enquanto ditava ao escriba Abdullah, hesitou, interrompendo a frase ao meio. Instintivamente, o escriba sugeriu-lhe o final da frase e Maomé, distraído, aceitou a emenda como sendo a palavra divina. Este fato escandalizou Abdullah, que abandonou o profeta e perdeu a crença. Desta anedota, o escritor Italo Calvino observa que ao copista faltou a fé não em Deus, mas na escrita e em si mesmo, como operador da escrita. A anedota pode não ser verdadeira, mas revela as condições nas quais foi escrita e transcrita a maioria dos textos antes do aparecimento da prensa de Gutenberg.
A história também ilustra a trajetória de Poggio Bracciolini, um homem baixo, afável, ardiloso, grande piadista e contador de casos que viveu na Florença do final do século XV, mas não se parecia muito com os homens de sua época, ainda tão marcada por traços medievais. Não era padre, nem teólogo, nem jurista, nem inquisidor. Estudou muito, adquiriu raros conhecimentos de latim e grego e, mais importante, tornou-se um competente escriba com excepcional caligrafia. Ainda jovem, conseguiu o cargo de scriptor, um redator profissional do Vaticano. Mas, quando estava para ser promovido a secretário apostólico do papa, perdeu o cargo porque o pontífice, Baldassare Cossa, um notório corrupto, foi destituído, condenado e preso. Frustrado com sua crise profissional, Poggio voltou-se cheio de ânimo à sua atividade de caçador de livros, os quais, naquela época, não passavam de rolos (volumen, do latim) de pergaminhos mofados, carcomidos de traças e praticamente indecifráveis. Foi assim que em 1417 descobriu, na biblioteca de um mosteiro, Da Natureza das Coisas, do poeta-filósofo romano Lucrécio, um livro de poemas até então dado como perdido, e logo providenciou sua cópia.
Essa é a tortuosa e fascinante história que serve de inspiração ao historiador de Harvard e especialista em Shakespeare Stephen Greenblatt em A Virada, o Nascimento do Mundo Moderno (Companhia das Letras, 282 págs., 39 reais), um estudo sensível e engajado que ilumina um aspecto obscuro da história cultural, o da descoberta e recepção dos clássicos da Antiguidade pelos humanistas do Renascimento. Como toda virada cultural na história, esta foi silenciosa, lenta, equívoca e muito longe de ser associada a uma imagem dramática de guerra, revolução ou descoberta de um novo continente.
*Leia matéria completa na Edição 710 de CartaCapital, já nas bancas

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