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O arquiteto em ruínas

por Elias Thomé Saliba — publicado 03/02/2012 00h00, última modificação 06/06/2015 18h15
O biógrafo de Adolf Hitler inquire o ex-ministro Albert Speer sobre seu grau de intimidade com o Führer
Speer

O arquiteto Albert Speer sendo julgado em Nuremberg.

Albert speer foi arquiteto-chefe, ministro do Armamento no Terceiro Reich, confidente de Adolf Hitler e um dos poucos líderes nazistas a escapar da condenação à morte em Nuremberg. Em 1966, depois de 20 anos na prisão, resolveu publicar suas memórias. Para ajudá-lo na tarefa de editar os desordenados manuscritos, o editor Wolf Siedler convidou o historiador Joachim Fest (1926-2006). Entre 1967 e 1972, sempre acompanhado de Siedler, esteve diversas vezes com Speer. Conversas com Albert Speer (Nova Fronteira, 218 págs., R$ 49,90) é o relato detalhado desses encontros que serviram de base documental para Fest escrever tanto a sua conhecida biografia de Hitler quanto o seu No Bunker de Hitler, que depois virou filme. Apesar de consistir numa espécie de making of de outros livros, Conversas causou enorme polêmica. Seu autor foi acusado de confiar demasiadamente nos depoimentos do arquiteto nazista, obrigando-se a responder a isso de forma extensa, com outra pesquisa que resultou em Speer: O veredito final, uma alentada biografia publicada em 1999. De qualquer forma, é um livro cheio de revelações, com excelente material para calibrar os julgamentos morais do passado.

Ainda que situado em posições políticas opostas e vocacionado ao jornalismo, Joachim Fest pertenceu a uma competente geração de historiadores alemães, formada por Wolfgang Monnsen, Hans--Ulrich Wheler e Jürgen Kocka, entre outros, pioneira no uso de métodos das ciências sociais na pesquisa histórica. A diferença é que Fest foi muito mais profundamente marcado na juventude pelos traumas da ascensão do nazismo. Mesmo com o pai manietado profissionalmente, posto na miséria por causa de sua firme resistência à sedução nazista no início dos anos 1930, Fest, com 18 anos incompletos, viu-se engajado de maneira compulsória na Wehrmacht, tornando-se, meses depois, prisioneiro dos exércitos aliados.

Somente depois da guerra, quando já havia testemunhado grande parte daquele cenário moralmente corroído, estudou História, Direito, Sociologia, Literatura e Arte. Formação variadíssima, afinada com as várias linguagens, o que o conduziu a dirigir programas de rádio e televisão, editar a seção cultural do Frankfurter Allgemeine e orientar diretamente a produção de filmes, como No Bunker de Hitler. Como outros historiadores de sua geração, era um cultor nato da erudição. Mas, pelo menos no seu caso, tratava-se de erudição exagerada. Basta olhar as notas de rodapés dos seus livros. Cada afirmação, mesmo a mais trivial, é apoiada por um colosso de fontes de referência, como se quisesse afastar antecipadamente quaisquer suspeitas de manipulação, invenção ou ingenuidade. Até para sustentar a frase prosaica de Hermann Goering segundo a qual “o café feito por Eva Braun era o mais execrável de todo o Terceiro Reich”, ele chegava a citar narrativas de quatro testemunhas.

 

*Leia matéria completa na Edição 683 de CartaCapital, já nas bancas.

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