Você está aqui: Página Inicial / Destaques CartaCapital / Não façam o que fiz

Destaques CartaCapital

Newsletter

Não façam o que fiz

por Gabriel Bonis publicado 13/07/2012 12h12, última modificação 13/07/2012 12h12
No último discurso, Demóstenes Torres pede desculpa pelo papel de xerife da moralidade no Senado

Demóstenes Torres chegou cedo ao Senado na quarta-feira 11. Às 9h52 de um dia cinzento em Brasília, o ainda senador entrou no Plenário acompanhado de seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Caminhava imponente em um terno preto e acenava aos jornalistas e fotógrafos, enquanto se dirigia a um assento na segunda fileira. De lá, algumas horas depois, se levantaria para discursar pela última vez como senador. Sob o olhar de 80 senadores e centenas de jornalistas, inesperadamente o guardião da ética se desculpa por ter sido um paladino da moral. “Não tentem aproveitar um minuto de fama, pois aprendi amargamente”, recomendou, pouco antes de sua cassação ser concretizada com 56 votos a favor, 19 contra e 5 abstenções. A quebra de decoro parlamentar por mentir sobre suas relações com o contraventor Carlinhos Cachoeira tornou o relator da Lei da Ficha Limpa inelegível até 2027 e o fez o segundo senador cassado na história do País. O primeiro havia sido Luiz Estevão, em 2000.

A postura de Demóstenes não escondia seu abatimento. O nervosismo transparecia em pequenos gestos, cabeça baixa e a garganta seca: foram frequentes os apelos à água. Chegou a receber o que parecia um comprimido de Cláudia Lyra, secretária-geral da mesa diretora. Guardou-o no bolso. A atenção também era vaga. Quando não conversava com Kakay, olhava o celular. Demonstrava esforço apenas para receber os emblemáticos cumprimentos dos colegas. Por ironia, os primeiros a saudá-lo foram Renan Calheiros (PMDB-AL) e Jader Barbalho (PMDB-PA). Aquele escapou da cassação em 2007, por ter as contas pagas por um lobista em representação apresentada por Demóstenes. Esse voltou ao Senado em 2011 depois de ser barrado pela Ficha Limpa por ter renunciado em 2001 para evitar a cassação. Trocam algumas palavras, mas Demóstenes sorri como dever de ofício. O sorriso quase desaparece quando recebe um breve aperto de mão do presidente do DEM, José Agripino Maia, que pediu sua expulsão do partido, forçando-o a se desligar da legenda. Ele passaria o restante da sessão olhando para os lados, talvez na busca vã de algum apoio.

O Senado encheu-se aos poucos e registrou apenas a ausência de Clovis Decury (DEM-MA), licenciado. Na parte superior da tribuna, os cerca de cem convidados por senhas não apareceram. Nas mesas, acumulavam-se as peças do processo que levou o senador àquela situação. Após a prisão de Cachoeira, acusado de comandar um esquema ilegal de jogos em Goiás, na Operação Monte Carlo da Polícia Federal, a relação com o bicheiro veio à tona. A princípio, Demóstenes recebeu uma geladeira e um fogão importado do contraventor como presente de casamento. Mas logo áudios da PF mostraram uma relação mais promíscua, incluindo o pedido do senador por 3 mil reais a Cachoeira para pagar despesas de um táxi-aéreo. Demóstenes ainda recebeu um aparelho de rádio “antigrampo” para conversas exclusivas com o bicheiro, foi acusado de usar o cargo para realizar lobby em favor do jogo de azar, negociar projetos para a Delta Construções – empresa da qual seria sócio oculto – e apontado como destinatário de 30% do dinheiro arrecadado pelo contraventor com o jogo ilegal, conforme noticiou CartaCapital. Em meio a tantos indícios de ação criminosa, o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu investigação contra o senador e o PSOL emplacou o processo, por quebra de decoro no Conselho de Ética, que resultaria em sua cassação.

*Leia matéria completa na Edição 706 de CartaCapital, já nas bancas