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Juliette Gréco, a insubmissa

por Leneide Duarte-Plon — publicado 10/02/2012 13h34, última modificação 06/06/2015 18h14
Aos 85 anos, a musa dos existencialistas lança livro de memórias e diz que ainda se sente apaixonada por Miles Davis
Juliette

Muito a contragosto, a atriz e cantora que simboliza a mulher independente se viu transformada em patrimônio cultural dos franceses. Foto: AFP

Na paris do pós-guerra, a atriz e cantora Juliette Gréco tornou-se um ícone. Ela havia vivido a ocupação alemã, a privação de alimentos, um interrogatório na Gestapo e a prisão, aos 16 anos. Sua mãe e Charlotte, a irmã mais velha, haviam sido deportadas para um campo de concentração alemão por integrarem a Resistência. De lá voltaram esqueléticas, em 1945. Juliette tinha 18 anos. Com o fim da guerra e o retorno dos sobreviventes, era hora de se divertir, mas também de refletir sobre o significado da existência. Saint-Germain-des-Prés, com seus cafés, boates e clubes de jazz, foi o berço de uma juventude de origem burguesa que buscava inspiração nos existencialistas, reunidos em torno dos filósofos -Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, mais velhos, experientes e cultos. Sartre era o maître à penser de Saint-Germain, o grande intelectual francês que recusaria o Prêmio Nobel de Literatura, em 1964, para, entre outras coisas, “não ser transformado em uma instituição”. Ele e Simone haviam abandonado o Dôme para fugir do convívio com o ocupante alemão, que elegera o tradicional café de Montparnasse como ponto de encontro. E se refugiaram no Café de Flore e no Deux Magots.

Mais tarde, Juliette virou uma diva e se viu transformada em “patrimônio cultural francês”, muito a contragosto, já que ninguém parece menos um monumento do que ela, símbolo da mulher livre. Aos 85 anos, a “musa dos existencialistas”, expressão criada pela imprensa francesa, continua insubmissa, libertária, curiosa e corajosa. Nem a radioatividade de Fukushima a impediu de fazer seus shows programados para o Japão. Os japoneses agradeceram emocionados a prova de consideração, como mostrou o documentário Juliette Gréco, l’insoumise, que o canal Arte mostrou no domingo 5. Ela é uma das artistas estrangeiras mais amadas no país, que diz apreciar pela cultura e sutileza das relações sociais.

Paris vive neste mês um grande encontro com a cantora tornada mito graças a Saint-Germain, Sartre, Boris Vian, Jean Cocteau, Miles Davis e todos os intelectuais e artistas que a adotaram quando, no fim da guerra, não tinha ainda 20 anos e começava a carreira de atriz. Sua trajetória como bailarina da Opéra de Paris havia sido interrompida pelo conflito na Europa e ela conseguira um pequeno papel na peça surrealista Victor ou les Enfants au Pouvoir. Logo depois, Jean Cocteau a contrataria para uma peça sua. A jovem atriz conseguiu pequenos papéis e morou no Hôtel La Louisiane, que Sartre e Simone haviam habitado durante a guerra e onde a filósofa escreveu a bíblia do feminismo, O Segundo Sexo. Juliette Gréco tornou-se habituée dos clubes de jazz de Saint-Germain, frequentados por jazzmen americanos como Charlie Parker, Max Roach, Duke Ellington e Miles, ainda tão desconhecido quanto ela. Com o trompetista iniciou uma paixão tórrida, que, segundo ela, dura até hoje. “Continuo a amá-lo. Ele estará sempre presente em mim.”

Um dia, em 1949, na volta de um restaurante com um grupo, Sartre perguntou: "Gréco, você quer cantar?" Ela, que nunca pensara nisso antes, diz-lhe que não gosta do repertório das rádios. O filósofo então lhe promete uma música e dá o empurrão necessário: a canção La Rue des Blancs Manteaux, escrita para sua peça Huis Clos. Na reinauguração do club Le Boeuf sur le Toit, ela estreia como cantora. Começa a carreira que iria suplantar a de atriz. Na década de 1950, ela conheceu o produtor Darryl Zanuck, com quem passou a viver entre Hollywood e Paris e que produziu filmes nos quais ela foi a estrela, dirigidos por John Huston, Orson Welles e Henry King. A diva francesa não suportou a possessividade do americano e os dois se separaram. Na década de 1960, Juliette, que já fora casada com o ator Philippe Lemaire, de quem teve uma filha, uniu-se ao também ator Michel Piccoli.

 

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