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Cinema

Entre a família e a nação

por Orlando Margarido — publicado 20/12/2012 11h33, última modificação 20/12/2012 11h33
Como seu protagonista em No, o chileno Pablo Larraín usa da memória pessoal para desvendar um país
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Recado geracional. Larraín esforça-se para unir duas pontas da história

Para pablo larraín, o contexto político e ideológico confuso que tomou conta do Chile em 1988 se traduz exemplarmente por sua família. Naquele momento, o país se preparava para o plebiscito que definiria a permanência ou não de Augusto Pinochet no poder. Os pais de Larraín, então com 12 anos, votaram a favor da continuidade do governo, atitude sobre a qual ele saberia o significado anos mais tarde. O futuro cineasta chileno ainda veria seu pai, o advogado e professor Hernán Larraín, se tornar senador nas primeiras eleições do novo governo democrático em 1993. Contra os militares, ele se candidatou pela União Democrata Independente, partido de direita. Havia muito a entender, dentro e fora de casa, e o cinema foi o caminho dessa compreensão.

A julgar pelos prêmios atribuídos, Larraín concluiu exemplarmente a lição de casa. No, seu quarto longa-metragem previsto para estrear na sexta-feira 28, começou a trajetória de reconhecimento com a principal distinção da Quinzena dos Realizadores, iniciativa paralela do Festival de Cannes, em maio, e prosseguiu com o Prêmio do Público de melhor ficção estrangeira da 36ª Mostra de São Paulo e o troféu principal do Festival de Havana, encerrado sexta 14. A empatia tem a ver com a história sobre o período do referendo em que ambos os lados da política vigente se municiaram com uma nascente publicidade para defender seus pontos de vista na tevê. Aquela mesma propaganda política que os brasileiros conhecem tão bem, levada ao ar no horário nobre com maior tempo aos grandes partidos, mas no caso chileno por um único grupo no poder. Os adeptos do “sim” ocupavam horas da programação, enquanto os rivais do “não” ficavam relegados às madrugadas. “É decisão de cada um entender ou não o que se passou no período e há muitos da minha idade que preferem se distanciar”, diz a CartaCapital numa roda de entrevistas em Cannes. “O que não se pode é achar que tudo o que foi feito e dito ali tem um sentido de verdade eterna, sem reflexos no presente.”
Coprodução brasileira, o filme é baseado numa peça inédita de Antonio Skarmeta e se fixa no publicitário René Saavedra (Gael García Bernal). Integrante de uma geração enviada à Inglaterra pelo regime para estudar, ele volta ao Chile e se identifica com a aparente minoria que deseja o fim da ditadura Pinochet e desenvolve a campanha da mudança. Disputará a acirrada eleição com seu próprio chefe, envolvido com a cúpula militar (Alfredo Castro).
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