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Dividir e desgovernar

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 01/06/2012 11h53, última modificação 01/06/2012 11h53
As forças conservadoras alimentadas pelos últimos dois papas parecem devorar a si mesmas
Papa

Serpentário. A rivalidade entre Sodano, defensor dos Legionários, e Bertone, amigo da Opus Dei, estaria por trás dos atos de Gabriele (ao pé do papa). Foto: Vincenzo Pinto/AFP

Seria ingênuo imaginar que a corrupção e as conspirações brotaram de repente dos corredores do Vaticano: elas têm uma longuíssima tradição. A pergunta a ser feita é: por que tanta informação a esse respeito vem à luz ao mesmo tempo agora? Não se trata, decerto, de um esforço de transparência por parte do papado. Também não se trata de um deslize no uso da internet ou do trabalho de hackers, até porque as instituições eclesiásticas são conservadoras demais para fazer uso intensivo dessa ferramenta. Os vazamentos aconteceram à moda antiga, por meio de boatos e documentos em papel, ao velho estilo dos Pentagon Papers, de 1971, e do Caso Watergate, de 1973, que foram publicados em livro pelo jornalista Gianluigi Nuzzi (leia seu artigo à página 62).

Para desvendá-los, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, nomeou uma comissão de três cardeais presidida pelo espanhol Julian Herranz, que conviveu por 22 anos com Josemaría Escrivá, o fundador da Opus Dei, escreveu um livro a seu respeito e é hoje o integrante da organização com mais alto cargo na hierarquia eclesiástica. O responsável, segundo eles, foi o mordomo do papa, Paolo Gabriele. Apanhado com documentos confidenciais e material para reproduzi-los em casa, foi preso em 24 de maio e pode ser condenado a 30 anos de prisão por “atentado à segurança” do Vaticano.

O culpado é o mordomo? É uma solução tão insatisfatória que bastou ser usada duas vezes por autores menores de ficção policial (Henry Jenkins e Mary Roberts Rinehart, nos anos 1920 e 1930) para virar piada como um dos clichês mais desgastados da história da literatura. Por mais que o Vaticano negue suspeitar de algum cardeal, não há como levar a sério a hipótese de que Gabriele – que, segundo Nuzzi, nada recebeu em troca dos vazamentos – tenha sido mais do que um garoto de recados e um bode expiatório de forças que o Vaticano não quer desafiar, pelo menos por enquanto.

*Leia matéria completa na Edição 700 de CartaCapital, já nas bancas

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