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Cangaceiros S/A

por Orlando Margarido — publicado 04/05/2012 09h46, última modificação 04/05/2012 09h46
Em publicações e no cinema, o fenômeno popular segue com seu fascínio e busca a seriedade como tema
Da esquerda para direita:1-Lampião(consertando Bornal)

Imagens imperfeitas. Nas fotos de Benjamin Abrahão feitas em 1936, Maria Bonita e um Lampião às voltas com a costura. Foto: Acervo Instituto Cultural Chico Albuquerque/Sociedade do Cangaço

Estivessem em atividade hoje, os cangaceiros talvez fossem vistos no plenário de alguma casa legislativa do País,- anéis de ouro e prata em profusão e chapéus meia-lua a ostentar nas abas símbolos como a flor-de-lis e a Cruz de Malta. Vaidosos, esses populares bandoleiros, heróis e algozes conviveram com o governo oficial mais do que se esperaria, a exemplo de Lampião, tornado capitão pelo Exército e cooptado pelo Estado Novo no combate à Coluna Prestes. O cangaço barbarizava os que a ele se opunham, latifundiários ou sertanejos, e lançava trocados à comunidade para perpetuar a fama de benevolência.

Fama essa revista por estudos sérios ou publicações que se sustentam no fascínio do fenômeno. A imagem configurou-se em um dos principais instrumentos de legitimação do mito quando aventureiros amadores, como o mascate Benjamin Abrahão, registraram em fotografia estática e em movimento os foras da lei. O imigrante de origem sírio-libanesa foi o único a deixar rastros de sua convivência com o grupo de Lampião, se não o primeiro, por certo o mais longevo e último dos cangaceiros. É esse o material que nos traz o livro Iconografia do Cangaço, lançamento da Terceiro Nome com 144 fotos, a maioria de Abrahão, além de textos de Moacir Assunção e Rubens Fernandes Filho.

A predominância de registros do imigrante se explica pela filiação do organizador Ricardo Albuquerque. Seu avô, Adhemar Bezerra Albuquerque, funcionário de banco no Ceará e documentarista que fundou a Aba Film, emprestou o equipamento para a façanha de Abrahão. O espólio da produtora passou ao que é hoje o Instituto Chico Albuquerque e inclui as cenas filmadas pelo aventureiro com uma Zeiss Ikon Kinamo, agora apresentadas em um DVD de 15 minutos que integra a edição. Tanto nas fotos quanto nas filmagens entre 1935 e 1937 há imagens posadas, raras, do bando a cavalo e de Lampião a distribuir comprimidos aos parceiros perante um cartaz publicitário da Bayer. Incomodado com a propagação dessas imagens na imprensa e nos cinemas, Getúlio Vargas mandou apreendê-las e ordenou a maior ação até aquele momento contra os cangaceiros. As “volantes” dizimaram boa parte do grupo e o próprio Lampião em 28 de julho de 1938.

*Leia matéria completa na Edição 696 de CartaCapital, já nas bancas

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