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Apenas o necessário

por Elias Thomé Saliba — publicado 26/10/2012 12h54, última modificação 26/10/2012 12h54
Nos 120 anos de nascimento de Graciliano Ramos, o reencontro com o autor da palavra justa
graciliano ramos - 05

A implacável lupa. Econômico nas palavras, Graciliano imprimiu intensidade e significado duradouro a suas obras, entre as quais, Infância e Angústia. Foto: Reprodução do livro Garranchos - Achados inéditos de Graciliano Ramos

"Bezerro-encourado" era o nome que davam àquele animal órfão que, para ser amamentado, necessitava de um disfarce: atrelava-se a ele o couro de outro novilho e a vaca mãe, sentindo o cheiro do filho, adotava o animal. Era com esse apelido que, em 1902, a mãe chamava Graciliano Ramos, o primeiro dos seus 16 filhos, quando este mal havia completado 8 anos. Graciliano sofria de uma renitente inflamação nas pálpebras que tornava dolorosa a exposição à luz, obrigando-o a permanecer por semanas com uma bandagem nos olhos. Do episódio, narrado num dos capítulos de Infância, chama a atenção apenas uma frase do escritor: “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras”. Como aquele herói de Ofuscamento (traduzido no Brasil como Auto de Fé), o romance de Elias Canetti, que descobre casualmente o poder visionário da cegueira como princípio cósmico, o rito de iniciação do escritor com as palavras ocorre num universo da parcimônia, da intensidade e da escassez.
Sem conhecer nenhuma grande retribuição material por seus livros, vivendo talvez a mais sofrida trajetória de todos os escritores brasileiros, com dramas familiares acumulados, prisão arbitrária, alcoolismo, suicídio do filho, doença terminal e morte precoce, Graciliano comentaria pouco antes de seu desenlace, em tom de quase profecia: “Quem sabe daqui a 300 anos eu não serei um clássico?” De fato, corrigindo apenas a cronologia, Graciliano tornou-se um “clássico”. Traduzido em dezenas de países, com extensas tiragens, adaptações cinematográficas e até com próprio site na internet, o autor de Vidas Secas tornou-se tema de mais de uma centena de intérpretes, aqui e no exterior, com estudos que formariam uma vasta biblioteca, em quantidade ironicamente bem maior que suas obras reunidas. Agora mesmo, a celebrarem-se 120 anos de seu nascimento, 81 textos inéditos acabam de vir à tona no volume Garranchos (Record, 378 págs., R$ 49,90).
Biógrafos, críticos e intérpretes, dos mais antigos aos mais recentes, de Antonio Cândido e Otto Maria Carpeaux a Dênis de Moraes, cuja biografia O Velho Graça ganha relançamento pela Boitempo, e Silviano Santiago, exaltaram a economia de palavras nos procedimentos do escritor, que forneceria intensidade, inteligibilidade e significado duradouro à sua obra. “Nada lhe falta, nada lhe sobra. A palavra justa exprimindo sempre uma realidade psicológica ou ambiente; a notação precisa, a dosagem sábia, a economia absoluta de efeitos, notações e recursos”, escreveu Carlos Drummond de Andrade, em 1949.
*Leia matéria completa na Edição 721 de CartaCapital, já nas bancas

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