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Cinema

Aos pés de Ana C.

por Tory Oliveira publicado 26/10/2011 08h53, última modificação 28/10/2011 13h45
Em cartaz na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo, documentário retrata o impacto da poesia de Ana Cristina César nas novas e velhas gerações

Ícone da “geração de 80”, a escritora carioca Ana Cristina César saltou do sétimo andar do apartamento dos pais, no Rio de Janeiro, no dia 29 de outubro de 1983. Seu suicídio, aos 31 anos, aconteceu cinco anos antes do nascimento da cineasta Letícia Simões. Ana Cristina César era do tempo do mimeógrafo e da Ditadura Militar. Letícia Simões é do tempo da Internet e do governo Lula. Ainda assim, a diretora de 23 anos, apaixonada por Ana Cristina César desde os 16, rompeu as barreiras geracionais e mergulhou por dois anos na obra poética da escritora. O resultado é o documentário Bruta Aventura em Versos, em cartaz desde ontem (24) na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo.

A cineasta conheceu Ana aos 16 anos, por intermédio do livro Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. O nome de Ana Cristina figurava entre muitos no livro de contos, todos eles dedicados a alguém. Na época, a diretora vivia em Salvador (BA), onde, segundo ela, “tudo era mais difícil”. Mesmo assim, ficou louca. “Nunca comprei um livro dela em Salvador, tudo o que eu conhecia era pela Internet”, lembra. Alguns anos depois, já no Rio de Janeiro, onde estudou Cinema na PUC-RJ, Letícia ficou espantada ao descobrir que muito pouca coisa sobre Ana Cristina havia sido produzida em audiovisual. “Existem muitas teses, mas em cinema quase nada”, explica.

Nascida no Rio de Janeiro em 1952, Ana Cristina César foi poeta, ensaísta e tradutora. Sua obra poética concentra-se basicamente em A Teus Pés, reunião de poemas inéditos, e de produções anteriores, publicado um ano antes de sua morte. Depois de passar anos esgotado, o livro foi relançado pela editora do Instituto Moreira Salles em 2008.

Movida pela ideia de produzir seu primeiro longa-metragem sobre a escritora, Letícia passou meses enfurnada na casa do poeta Armando Freitas Filho, curador do acervo de Ana Cristina César, e também no Instituto Moreira Salles, local que abriga o acervo da escritora hoje. Nesse meio tempo, apresentou Ana para sua futura equipe. “Ninguém conhecia a obra da Ana. Eu ia até o IMS, comprava todos os livros e pedia para a pessoa ler antes de decidir se queria trabalhar comigo. Graças a Deus, quase todo mundo topou”, lembra ela, aos risos. Como todos trabalharam praticamente de graça, o documentário foi feito quase com orçamento zero - o único gasto, de 2.200 reais, foi para comprar imagens de arquivo da rede Globo. A fim de seguir os passos da escritora, Letícia também morou por três meses na Inglaterra. “Fui até as cidades que ela morou, andei na rua em que ela morou, peguei os livros e percorria todas as indicações”, conta.

Ao longo de 75 minutos, o filme procura deslindar versos e capturar impressões daqueles que conviveram ou que, de alguma forma, tiveram suas vidas marcadas pela existência de Ana Cristina. Contemporâneos como o poeta Armando Freitas Filho e a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda aparecem ao lado de jovens do nosso tempo, como a escritora Alice Sant’Anna e a atriz Ana Kutner, que estrelou a peça Um navio no espaço ou Ana Cristina César. Todos falam, principalmente, sobre a poesia, a estética e a relevância da escritora. Não há, porém, pistas cronológicas ou detalhes da biografia de Ana Cristina. As informações sobre seu nascimento e morte estão, propositalmente, fora do foco do filme. “Quem sou eu para falar da morte dela?”, ponderou a diretora no debate realizado ao fim da sessão de estreia em São Paulo. “Não era minha intenção fazer uma cinebiografia. Eu queria fazer um filme sobre a poesia de Ana Cristina e sobre as pessoas que tiveram a vida mudada por ela”, justifica.

A poesia é, de fato, personagem principal do documentário. Aparece encarnada em palavra escrita, digitada em obsoletas máquinas de escrever ou traçada à mão pela própria Ana. Ou ainda na voz do ator Paulo José, do poeta marginal Ricardo Chacal e da escritora Alice Sant’Anna. A impressão é que, a despeito de rótulos como “poesia marginal” ou “poesia feminista” o abismo do tempo não conseguiu aplacar a força de sua obra. “A poesia da Ana fala sobre uma intimidade e uma verdade que sempre vai ser universal. Ela te rasga, ela rasga absolutamente”, suspira Letícia.