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A truculência como padrão

por Rodrigo Martins e Willian Vieira — publicado 27/01/2012 10h42, última modificação 27/01/2012 10h42
Na USP, na Cracolândia ou no Pinheirinho, a PM paulista protagoniza espetáculos de violência. Tradição que se opõe à democracia, mas não à sua origem e seu histórico de repressão
Pinheirinho

Moradoras deixam comunidade no dia da reintegração de posse do assentamento Pinheirinho. Foto: Reuters/Latinstock

"A polícia entrou atirando, como se a gente fosse cachorro. Ninguém é cachorro aqui." Com o celular em punho, uma das várias Marias a correr de um lado para o outro para salvar a pele e a vida no caos que surgiu às 5 horas do domingo 22 registrou as cenas de sua guerra particular. Inconformada, Maria mostrava, no visor do aparelho, a foto de um policial empunhando uma arma contra ela. Perdeu a casa. Restou o medo. Em frente ao campo de refugiados que surgiu em São José dos Campos (SP) após a truculenta reintegração de posse do terreno onde, há mais de oito anos, jazia a favela Pinheirinho, Maria aguardava o incerto destino. A ação foi autorizada pela Justiça e executada pela Polícia Militar. Perto de 1,5 mil famílias foram expulsas de suas casas. Nem todas cabiam na estrutura montada pela prefeitura. Poucas sabem o que farão agora. Restaram casas derrubadas, uma perna ferida à bala aqui, um braço com hematomas acolá. E a marca da ação policial espalhou-se em corpos e memórias.

Uma história que vem se repetindo com frequência nos últimos meses. A cada ordem da Justiça ou decisão governamental para interferência em uma área onde haja pessoas a demandar seus direitos, a cada possibilidade de confronto surgida da falta de diálogo seguem-se relatos e imagens de brutalidade e despreparo. Em 3 de dezembro a PM escorraçou centenas de viciados da Cracolândia paulistana, com motos, cavalos, spray de pimenta e até balas de borracha. Discutiu-se depois a ausência de articulação entre prefeitura, estado e União, a falta de um projeto de longo prazo. Em outubro, a prisão de alunos na USP devido à posse de maconha gerou outro confronto, com invasão da reitoria e protestos pela saída da PM do campus. A alegação: os policiais tolheriam liberdades individuais. Ainda que o índice de criminalidade na região não parasse de assustar os alunos, eles queriam a PM longe. Prenunciavam o futuro. Em 10 de janeiro, um PM, chamado para retirar alunos que ocupavam um centro de convivência, apontou uma arma para um estudante dentro da USP, distribuiu empurrões e deu um tapa no rosto dele, gratuitamente.

À parte os casos famosos, um universo de abusos envolve a ação da Polícia Militar em todo o Brasil. Mas em São Paulo o espaço entre uma e outra denúncia grave é curto. Quanto mais a sociedade precisa da PM, mais ela exibe as entranhas de seus problemas: uma corporação militarizada, despreparada para lidar com o público a quem lhe caberia defender, marcada por uma ideologia conservadora atrelada a tempos não democráticos e fragilizada por más condições de trabalho. E, pior, a mesma estrutura deficitária não dá conta de fiscalizar e corrigir desvios policiais. As ouvidorias são engessadas. As corregedorias, filhas do mesmo sistema. O que emerge desse cenário é uma atuação truculenta e ineficaz. “Esse modus operandi violento é característica de toda força que opera com grande margem de arbítrio na ponta (policiais de rua) e sem responsabilização pelas ações abusivas, sem controle institucional, o que abre grande margem para abusos e impunidade”, explica a cientista política Thais Battibugli, pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência e Segurança da Unesp.

*Leia matéria completa na Edição 682 de CartaCapital, já nas bancas.