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A trilha sonora do poder negro

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 13/07/2012 11h54, última modificação 13/07/2012 11h54
Sai no Brasil a mais completa biografia de James Brown, o genial, irascível e único rei do soul
Brown

Majestade. Brown em meados dos anos 1960. Foto: Cortesia de Steve Halper

Em junho de 2006, o escritor Jonathan Lethem escreveu um ensaio sobre James Brown em que alertava para a necessidade de pesquisar com profundidade a trajetória do cantor, compositor e dançarino norte-americano. “Em algum momento, alguém vai escrever uma grande biografia sobre James Brown. Será, por necessidade, mais do que uma biografia. Será a história de meio século de tragédias incorporadas ao destino dos afro-americanos no Novo Mundo; uma parábola, inclusive das contradições do indivíduo na sociedade capitalista, que pode soar portentosa.” O texto de Lethem, publicado pela revista Rolling Stone seis meses antes da morte de Brown, em 25 de dezembro daquele ano, revelou a cortina de fumaça criada por uma carreira de numerosos escândalos e um comportamento agressivo.

O jornalista R.J. Smith seguiu o conselho de Lethem em James Brown, Sua Vida, Sua Música (LeYa Brasil, 632 págs., R$ 44,99, tradução de Luis Reyes Gil), considerada a biografia mais completa do Godfather of Soul. Smith identifica nas raízes de Brown os africanos trazidos para a América como escravos, cujas danças e manifestações musicais foram censuradas. Em sua biografia, o cantor norte-americano afirmou que todos os instrumentos e a voz eram percebidos por ele como sons de bateria. Brown criou um novo espaço na indústria do entretenimento com a manipulação criativa do ritmo musical e a supressão dos floreios melódicos. Foi propulsor da ascensão da soul music, do funk e do hip-hop. Com suas inovações, apresentadas de maneira crua e emocional, fez mais do que chamar a atenção do mainstream para a música negra. Ele transformou os negros em elite musical durante o período mais conflagrado da reivindicação por direitos iguais, entre os anos 1960 e 1970.

“Ao conceber a sua banda como uma unidade rítmica interligada e fechada, ele ofereceu uma das suas maiores contribuições: uma voz para o movimento Black Power”, diz Kevin Fellezs, professor da Columbia University, a CartaCapital. “Say It Loud (I’m Black and I’m Proud), composição de 1968, é explicitamente sobre orgulho racial e reveladora de um engajamento político que incentivou a aceitação de uma estética negra”, completa Fellezs, autor de Birds of Fire: Jazz, Rock, Funk and the Creation of Fusion (Duke University Press, 2011). No comportamento fora e sobre os palcos, Brown se aproximava mais da defesa da autodeterminação e do nacionalismo negro por Malcolm X, influência intelectual do Black Power, do que da política de não violência de Martin Luther King Jr. inspirada em Mahatma Gandhi.

*Leia matéria completa na Edição 706 de CartaCapital, já nas bancas

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