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Livro

A Pauliceia do foxtrote

por Ana Ferraz publicado 13/04/2012 12h11, última modificação 13/04/2012 12h11
Historiador recupera a memória da cidade que entre as décadas de 1940 e 1950 viveu sob o signo do glamour
hotel esplanada

A vida é uma festa. Debutantes no Hotel Esplanada, em 1948

Com leveza e estudada elegância, o casal desliza pela pista. Os movimentos são longos, contínuos e suaves, quase um flutuar sobre o luxuoso salão onde a orquestra toca um foxtrote. É Cheek to Cheek, o hino à dança composto por Irving Berlin e eternizado por Fred Astaire e Ginger Rogers em O Picolino. Nas telas, Astaire sussurra no ouvido de Ginger, que se sente nas nuvens quando a enlaça pela cintura e ambos rodopiam de rosto colado. Etérea num longo em que plumas esvoaçam a cada movimento, ela se deixa conduzir pelo cavalheiro trajado a rigor. O ritmo vai num crescendo, até Ginger desafiar as leis da física. O céu, conforme promete a canção.
A quilômetros de distância de Hollywood, casais reproduzem a aura de glamour. O palco é o luxuoso salão do Hotel Esplanada, ao lado do Teatro Municipal de São Paulo, no coração da metrópole. A cidade que anos mais tarde veria colado à sua imagem o signo do trabalho e da austeridade viveu anos hedonistas. Entre 1940 e 1950, um acelerado processo de modernização alçou a capital a um modo de vida moldado pelo divertimento de bom gosto. Quem retira a poeira depositada sobre a memória desse período e revela a São Paulo dos bailes de gala em hotéis luxuosos, dos cinemas projetados para 2 mil pessoas e dos magazines de artigos europeus frequentados pelas elites é o historiador Francisco Rocha. Transformada em livro, sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo Figurações do Ritmo – Da sala de cinema ao salão de baile (Edusp, 312 págs., R$ 64) será lançada dia 12 de maio.
A viagem que Rocha empreende no tempo teve como ponto de partida um cartaz afixado num poste da Avenida São João a anunciar “um baile dos anos dourados com a fabulosa orquestra do maestro Osmar Milani”. O encontro dançante, a requerer traje social, se daria no Clube Piratininga, na Alameda Barros. Ao observar os casais paramentados, as damas com vestidos de paetês a ignorar o sol ainda presente às 18 horas e ao adentrar o território sagrado da dança onde uma orquestra se esmerava em boleros, sambas e foxtrotes, Rocha deu-se conta de que ali se abria um grande arco de pesquisa. Havia uma memória social desses espaços de lazer outrora exuberantes à espera de redescobrimento.
*Leia matéria completa na Edição 693 de CartaCapital, já nas bancas

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