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A fina arte de ser biônico

por Rodrigo Martins e Willian Vieira — publicado 16/03/2012 12h18, última modificação 16/03/2012 12h18
Trinta anos após assumir na ditadura o governo paulista das mãos de Maluf, José Maria Marin sucede a Ricardo Teixeira na CBF
Teixeira

Mudou algo? Teixeira abdicou do trono da CBF após 23 anos de reinado. Deixou o laranja Marin em seu lugar

Se percorresse sozinho os corredores da Fifa, na Suíça, apenas uma semana atrás, José Maria Marin, então vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), correria o risco de ser barrado por um segurança. Seu rosto não era exatamente conhecido pelos cartolas do futebol internacional e, tampouco, entre os milhões de torcedores brasileiros. Exceto, talvez, pelas testemunhas do embaraçoso episódio que lhe rendeu o apelido de Zé das Medalhas. Em janeiro deste ano, Marin embolsou uma das medalhas destinadas aos vencedores da Copa São Paulo de Juniores. Matheus Caldeira, o goleiro da equipe corintiana sub-20, ficou sem a sua, ao menos até a Federação Paulista de Futebol fazer a restituição e não sem negar o furto nitidamente flagrado pelas câmeras de tevê. Após a renúncia do chefão Ricardo Teixeira, Marin, seu fiel escudeiro, assumiu, na segunda 12, o comando da CBF. E, de quebra, o destino da Copa brasileira de 2014. “Vou assumir o Comitê Organizador Local (COL) ao lado de um grande ex-jogador, o Romário”, afirmou em seu primeiro pronunciamento, confundindo o deputado federal e ferrenho crítico da CBF com Ronaldo Nazário, testa ferro de Teixeira no COL. Começou bem, deixando claro seu cuidado com os detalhes.

Aos 79 anos, Marin não é nenhum novato quando se trata de esporte ou política. Filho de um lutador de boxe, o jovem preferiu o futebol. Começou no Jabaquara. Jogou ainda, entre 1950 e 1952, pelo São Paulo, sob comando de Vicente Feola, técnico que levou o Brasil à histórica conquista da Copa de 1958. Mas acabou por optar pelo Direito, formando-se pela USP. A partir daí, seu esporte predileto virou a política. Foi vereador pelo extinto Partido de Representação Popular nos anos 60 e, na década seguinte, deputado estadual pela Arena, o partido da ditadura. No fim da década- de 70, foi indicado pelo general Ernesto Geisel como vice biônico de ninguém menos que Paulo Maluf, governador nomeado pelos militares. E chegou a assumir o estado de São Paulo por dez meses, pelo então PFL, quando o titular se desincompatibilizou do cargo para disputar um assento no Parlamento. No mesmo ano, em 1982, quem diria, voltaria à esfera esportiva, mas sem abandonar a política. Adentrou o sombrio universo da cartolagem, ao assumir a presidência da Federação Paulista de Futebol. À frente da entidade, admitiu viradas de mesa no Campeonato -Paulista, -como a manobra que impediu o Corinthians de ser rebaixado em 1987.

A partir daí, viveu à sombra de cartolas mais influentes, sempre disposto a preencher um vácuo de poder deixado pelos poderosos de fato. Na CBF, esteve sob a asa de Teixeira e, na Federação Paulista, foi eterno aliado do presidente Marco Polo Del Nero. Ao que tudo indica, além de ter sido alçado mais uma vez a um cargo biônico com a saída do mandachuva, Marin tende novamente a ficar no poder por pouco tempo. E justamente para satisfazer os desígnios de Del Nero, o qual, com a chegada de Marin, afirmou que nada mudaria. “Ele é advogado e sabe que todos são iguais perante a lei, e tem relação boa com todos os presidentes da Federação.” Seria inocência crer que não é Del Nero quem, de fato, dará as cartas daqui para a frente.

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