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A ferramenta perdida

por Rosane Pavam publicado 01/11/2012 10h39, última modificação 01/11/2012 10h39
A Magnum mostra em livro e exposição como os contatos contribuíram para a evolução das imagens
Henri Cartier Bresson

Quando fazíamos contato. Cartier-Bresson, por René Burri, atento a cliques. Fotos: Reproduções do livro Magnum Contatos

Este século torna nulos fundamentos jornalísticos como, por vezes, a ética, e constantemente nega ferramentas antes tidas por inescapáveis à confecção das notícias. No segundo caso se incluem as folhas de contato, fundamentais para a edição das imagens no sé­culo XX e hoje excluídas de jornais e revistas. Desde o fim do daguerreótipo e das câmeras fotográficas nas quais os negativos eram únicos, essas folhas representaram uma garantia à edição. Criado com o advento das câmeras analógicas automáticas, o recurso oferecia a primeira visão do que havia sido capturado no filme, por meio da impressão direta de um rolo ou de uma sequência de negativos sobre o papel fotográfico. E, mais importante, a folha de contato, ou simplesmente contato, também apontava para uma avaliação criteriosa, por vezes implacável, do processo criativo de um autor.
O fotógrafo Henri-Cartier Bresson, soberbo em técnica de composição tanto quanto na capacidade de teorizar sobre as imagens, olhava seus próprios contatos e de outros como quem buscava esmerar a arte. Um dos fundadores da agência fotográfica Magnum, a ele cabia muitas vezes decidir a melhor foto dentro de uma sequência apresentada por determinado artista. Sentava-se em um pequeno banco e, lupa na mão, como demonstra a imagem captada por René Burri em Nova York, em 1960, percorria as pequenas reproduções uma a uma, virando-as sempre de cabeça para baixo. Somente aquelas que contivessem a beleza das linhas sob qualquer angulação mereceriam a permanência impressa, reveladora, ademais, do olhar promissor de quem as fez.
Estas são informações apresentadas em Magnum – Contatos (Instituto Moreira Salles, 508 págs., R$ 190), que também será motivo de exposição entre 6 de novembro e 6 de janeiro na livraria do Instituto Moreira Salles, no Conjunto Nacional, em São Paulo. O volume expõe a arte das folhas de contato em forma de epitáfio, segundo uma definição de outro ilustre artista da agência, Martin Parr. É um livro fabuloso, dividido por décadas daquele século em que os artistas da Magnum se destacaram na cobertura de eventos mundiais. Da Guerra Civil Espanhola à Segunda Guerra Mundial, da invasão de Praga ao Maio de 1968 francês ou à queda do Muro de Berlim, ao atentado às Torres Gêmeas, a história vem descrita ali por meio de suas imagens icônicas. Mais que isso, pelo esforço de obtê-las, revelado pela sequência de imagens dos contatos e pelo depoimento sucinto de seus autores.
*Leia matéria completa na Edição 722 de CartaCapital, já nas bancas