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A felicidade exemplar

por Orlando Margarido — publicado 01/06/2012 12h41, última modificação 01/06/2012 12h41
Na luta pelo consenso, Cannes premia filmes que tratam da vida cotidiana com a menor aridez possível
Michael Haneke

Diante da morte. O diretor Michael Haneke, vencedor da Palma de Ouro por Amour, no set com Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Foto: Denis Manin/Image.net

As imagens e os 140 caracteres rodaram o mundo e entraram para a história informal do Festival de Cannes. Nas cenas surge um personagem esbravejante, mãos para cima ou por vezes cobrindo o rosto, com a cabeça para baixo, como a refletir desespero ou desesperança pelo que ali se passa. A mensagem elucida, por fim, o contexto: “Habemus palmam? O presidente Moretti em plena discussão...” No universo hoje banal das redes sociais, a situação talvez não provocasse tanto alarde não fosse o próprio mandatário maior de Cannes, Gilles Jacob, a praticar o verbo “tuitar”. Pouco antes das 15h30 do último domingo de maio, o presidente de honra, de 81 anos, postava suas impressões diretamente da mesa de negociações do júri oficial capitaneado pelo cineasta italiano Nanni Moretti. No sempre resguardado momento da escolha dos laureados, foi a primeira vez que se pôde testemunhar o que se passava dentro da Villa Domergue, que um dia pertenceu ao pintor Jean-Gabriel Domergue. O fato provocou maior comoção do que o próprio anúncio, horas mais tarde, da Palma de Ouro atribuída a Michael Heneke por seu Amour.

A pequena diatribe de Jacob, que poderia ter sido não mais que isso, simboliza o sentimento geral da recém-terminada 65ª edição do mais importante certame cinematográfico. Numa programação que se prestou a um nível equalizado de concorrentes na competição principal, não houve o filme que driblou a média e se impôs, como ocorreu no ano passado com os títulos de Terence Malick e Lars Von Trier, A Árvore da Vida e Melancolia, respectivamente. Quando o diferencial surgia, vinha na forma de constrangimento ou no mínimo de fraqueza, caso do concorrente egípcio After the Battle e do austríaco Paradies – Love, ou da polêmica, no que toca ao francês Holy Motors, de Leo Carax, e o mexicano Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas. Assim, ao grupo de Nanni Moretti coube acomodar preferências diversas internas, uma dose de conservadorismo e outra de olhar à invenção, além do protocolo rígido de seguir as regras impostas pelo regulamento do festival. Conferidas as limitações, pode-se dizer que agiu com coerência e sabedoria para não cair no descrédito.

Todas essas considerações foram francamente expostas durante a coletiva dos jurados ao fim da premiação. Moretti confirmou a falta de unanimidade em relação a todos os prêmios e ao seu modo azedo diz ter constatado, na seleção, diretores com mais amor ao próprio estilo do que aos personagens. Referia-se, por certo, a Carax, que entrou de limusine no festival para sair da premiação pela porta de trás. Por outro lado, efetivou sua predileção pelo trabalho de Haneke com os dois protagonistas mitológicos na França, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, num huis clos em que ele assiste o vagaroso definhar da companheira. Queria, como alguns dos colegas jurados, homenageá-los com o reconhecimento de intérpretes, mas a decisão esbarra na proibição de conceder outros troféus significativos aos escolhidos para as distinções máximas. Isso inclui, além da direção, o Grand Prix do Júri, destinado por fim a Matteo Garrone e seu Reality, estudo contemporâneo da Itália enfeixada entre a realidade e o delírio no simbólico caso de um humilde peixeiro que se torna obsessivo por participar de um reality show.

*Leia matéria completa na Edição 700 de CartaCapital, já nas bancas

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