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235 razões para agir

por Rodrigo Martins publicado 01/02/2013 11h18, última modificação 01/02/2013 11h18
Em outros países, eventos semelhantes resultaram em punições exemplares e leis mais duras

por Rodrigo Martins, de Santa Maria (RS)*

Cinco dias após a tragédia, a fachada da boate Kiss transformou-se numa espécie de memorial às vítimas do incêndio que matou 235 jovens e deixou 127 hospitalizados – 71 deles em estado grave, mantidos com o auxílio de aparelhos. Às 9h30 da manhã da quinta-feira 31, uma pequena aglomeração formou-se diante do cordão de isolamento vigiado pelos policiais da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que ainda mantém parte da rua interditada. Naquela manhã, estava prevista uma vistoria do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, a última antes de o prédio ser lacrado. Mas os curiosos desconheciam o fato. Aproximavam-se timidamente com o olhar perdido entre os numerosos vasos de flores e faixas com mensagens de despedida. Alguns cerravam os olhos para uma oração. Minutos depois, vagavam pela calçada no sentido oposto, da mesma forma como chegaram, em silêncio.

O ritual se repete dia após dia, e já se discute na Câmara de Vereadores a possibilidade de desapropriar o imóvel para transformá-lo num memorial de fato, talvez um jardim com as fotos dos jovens que perderam a vida na madrugada do domingo 27. Foi o desejo revelado por vários amigos e parentes de vítimas, tanto nas redes sociais quanto nas incontáveis manifestações realizadas nos últimos dias. A maior delas, na segunda-feira 28, reuniu 35 mil pessoas nas ruas de Santa Maria, cidade com 260 mil habitantes na região central do estado. A marcha saiu da porta da boate em direção ao Centro Desportivo Municipal, que abrigou os corpos para o reconhecimento das famílias. Nada de discursos ou reações exaltadas. O silêncio da caminhada só era interrompido por aplausos e pelo estouro de bexigas brancas, milhares delas.

No ginásio, o jovem Cristian Schieck, de 20 anos, estudante de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), precisou ser amparado por colegas. “Não consegui me despedir de um dos meus amigos”, desabafa, tomado por um choro copioso. “Agora só me resta rezar pela saúde de quem está no hospital.” Ao seu lado, Lidiane Winck, de 24 anos, diz ter ficado de fora da festa por uma eventualidade. Acompanhava o pai, em recuperação de uma cirurgia em Porto Alegre. “Perdi quatro colegas e tenho mais duas amigas internadas em estado grave, respirando com pulmões artificiais.”

*Colaboraram Lucas Azevedo, de Santa Maria, e Marcelo Pellegrini, de São Paulo.

*Leia matéria completa na Edição 734 de CartaCapital, já nas bancas