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Cultura

Crônica do Villas

Zum zum e mel

por Alberto Villas publicado 07/11/2013 09h16, última modificação 07/11/2013 09h17
As abelhas estão na lista dos insetos em extinção e mais uma acaba de morrer. Por Alberto Villas
Abelhas

Cena do filme "Mais que Mel", sobre o risco de extinção das abelhas

Minha amiga Maria Flor vinha caminhando distraída numa praia do litoral paulista no final de semana quando, de repente, crec! Mais tarde ela postou no Facebook:

As abelhas estão em extinção. Eu consegui pisar em uma, sem querer, caminhando na praia. Resultado: uma abelha a menos no mundo e um calombo na sola do pé.

Maria Flor sabe muito bem onde pisa e, tenho certeza, seria incapaz de matar uma mosca, quanto mais uma abelha. Quando li sua postagem, muitas pessoas já tinham curtido, algumas comentado, nenhuma compartilhado. Era o que faltava para eu, aqui sentado no computador, começar a escrever a crônica pra Carta Capital.

Aqui perto da minha casa tem uma colmeia, nunca consegui localizá-la mas que tem, isso tem. Quando o tempo esquenta um pouquinho elas invadem todos os cômodos. Não é um enxame, é uma ali, outra aqui mas o suficiente para deixar as meninas da casa em pânico. Chegam a se esconder num cantinho e cobrir os rostos até que eu dê um cabo nelas. Sou como Maria Flor, incapaz de matar uma mosca, quanto mais uma abelha. Vou com todo cuidado com um pano e tento imobilizá-la. Devagarinho, sem apertar, prendo a bichinha no pano, vou até a janela e a devolvo pra natureza. Muitas vezes elas saem voando meio tontas, mas livres, sãs e salvas.

Abelhas sempre me fascinaram pelo fato de fabricarem mel. Desde criança tento entender como pode um inseto tão pequenininho parecido com um mosquito qualquer, voar de flor em flor (não a Maria), pegar  o pólen com as patinhas e fabricar mel. Me impressionava muito o fato de uma abelha morrer logo em seguida da ferroada. Se você não sabe é isso mesmo. Se ela te picar, morre em seguida. Talvez venha dai a expressão “o fim da picada”.

Minha vida de menino sempre foi povoada de insetos e não eram só abelhas. Catava minhocas na horta da minha mãe, procurava tatu bola nos cantinhos dos muros, caçava besouros pra fazer telefone. Sim. Colocávamos os besouros dentro de caixas de fósforos unidas por um barbante e fingíamos que aquilo era um telefone. O ruído dos besouros dentro da caixa de fósforo era o mesmo dos telefones pretos que ficavam nas salas das casas e custavam a dar sinal.

Nosso barato era brincar com os grilos que, diziam, davam sorte. Gostávamos de fingir que louva-deus era helicóptero e vaga-lumes discos voadores. Nosso barato era também matar aquelas moscas verdes que ficam paradas no ar, presas fáceis para um tapão e pronto, lá estava o corpo estendido no chão. Os mais audaciosos da rua investiam nas aranhas caranguejeiras que viviam nos lotes vazios e nos escorpiões que ficavam debaixo das telhas depositadas há anos também no terreno baldio perto do Colégio Sion.

Tinham também os bichos escrotos que alegravam nossa infância. Como eu gostava de amassar com o dedo aqueles mosquitinhos que a gente só via no box do banheiro! Como eu gostava de pisar numa taturana e ver aquela gosma verde que saia dela! Como eu gostava de correr atrás das baratas com uma bomba de BHC e depois vê-las agonizar com as patinhas viradas pra cima. E as lagartixas que cortávamos o rabinho só pra ver ele pulando em carreira solo, longe do corpo do bichinho? Não tínhamos medo do perigo. Sabíamos que a picada de uma aranha ou de um escorpião poderia ser fatal mas mesmo assim vivíamos cutucando os bichos com vara curta.

Bom, depois de escrever isso aqui, voltei lá no Face e comentei o post de Maria Flor. Lembrei-me da canção Acabou Chorare dos Novos Baianos e escrevi:

“Pobrezinhas, elas só fazem zum zum e mel”.

Maria Flor curtiu o meu comentário na mesma hora e a vida continuou.