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Zélio conta e é recontado

por Camila Alam — publicado 30/11/2010 09h28, última modificação 30/11/2010 09h28
Aos 50 anos de carreira, o cartunista e pintor mineiro ganha livro sobre sua trajetória e anuncia novos caminhos, agora na literatura

Aos 50 anos de carreira, o cartunista e pintor mineiro ganha livro sobre sua trajetória e anuncia novos caminhos, agora na literatura

O futuro chegou para o artista Zélio Alves Pinto. É assim que o chargista, pintor e escritor mineiro define este momento em que comemora meio século de carreira, apoiado no recém-lançado Zélio: 50 anos de uma aventura visual- (Barbosa Lima Editores), escrito pelo jornalista Enock Sacramento.

Enquanto artista plural, Zélio nunca deixou de pensar o futuro quase cotidianamente. Hoje, aos 72 anos, revê o passado compilado em livro e, assim, reencontra pessoas, obras, opiniões. “Sacramento trouxe informações a meu respeito das quais eu já nem me lembrava mais”, diz a CartaCapital em seu ateliê.

O espaço paulistano é pequeno para tamanha criação. Havia de ser três vezes maior, admite Zélio. Na desarrumação organizada, compreendida pelo artista, delimitam-se as áreas de atuação. Está ali a mesa do artista gráfico, hoje pouco usada, coberta com livros, prancheta e jornais. Ao lado, no espaço dedicado à escrita, um laptop cercado de folhas impressas. Cavaletes de madeira, com grandes telas coloridas, estão próximos à janela, onde a claridade auxilia o artista entre uma pincelada ou outra. Para fazer caber tantos livros, que se encaixam entre catálogos de arte e histórias em quadrinhos, necessitaria de uma sala auxiliar. Este espaço resume a trajetória de Zélio, armazena lembranças, dá lugar a novas ideias. É onde o artista passa boa parte do dia, sempre vestido com avental manchado de tinta, mesmo que passe um tempo longe dos pincéis.

Nascido em Caratinga, Minas Gerais, Zélio tinha na família algumas fontes de inspiração. Pintar e desenhar eram ações naturais na rotina familiar, herança vinda dos avós. Seus dois irmãos mais velhos, Ziraldo e Ziralzi, já haviam juntado seus desenhos e partido para Belo Horizonte. Não demorou muito para que chegasse ao Rio de Janeiro, onde trabalharia na edição de arte da revista O Cruzeiro. Em texto de abertura do livro comemorativo, Ziraldo faz declarações fraternais emocionadas, saborosos relatos da relação consanguínea. “Ele não passava informação, mas me deixava olhar”, lembra o irmão mais novo.

Pouco tempo depois, Zélio era correspondente da revista em Paris, onde ingressou na escola de jornalismo. Arte, nunca estudou. Formou-se ao experimentar, observar. Na França, onde morou entre 1960 e 1963, ingressou na Académie de la Grande Chaumière, onde Ciça, sua esposa e namorada na época, estudava. Zélio tinha outras inquietações. “Entrei na academia porque fiquei muito preocupado em deixá-la sozinha no meio de um monte de garanhões.”

Foi na volta ao Brasil que se casou com Ciça e se acostumou com uma nova realidade política do País. “Encontrei um País em polvorosa, pronto a explodir. Voltei um pouco antes do golpe de 1964 e quando cheguei ao Rio tive de me interar com meus amigos. As perspectivas que me passavam eram negras”, diz. Nesta época, como artista gráfico, produzia tiras e charges em que discutia o papel do artista e da sociedade, publicadas em diferentes jornais e revistas nacionais.

Na década de 1970, mergulhou pela propaganda e pela comunicação visual- de empresas. Criou o projeto gráfico e pedagógico utilizado por uma rede de escolas de inglês, método posteriormente premiado. Deu nova cara aos -outdoors brasileiros, em campanhas que o tornariam nacionalmente conhecido. Na mesma época, foi convidado a ilustrar a capa da revista suíça Graphis, bíblia da comunicação visual. “Fiquei flutuando por semanas”. Dedicado a aquarelas, mudou-se para Nova York. “Achei que o mercado estava sedento de aquarelistas.” A realidade foi outra e Zélio abandonou a prancheta, passou a utilizar a tela como suporte para suas pinturas e tocou de maneira definitiva a criação como artista plástico.

“Cheguei com gás todo, foi um período muito interessante. A cidade é enriquecedora em qualquer circunstância e, como diz a frase daquela música, se você é capaz de fazer em Nova York, em qualquer parte do mundo fará”, diz, citando a canção New York, New York, eternizada pela voz de Frank Sinatra. De fato, na cidade americana Zélio viveu experiências que não se repetiriam aqui ou em outra parte do mundo. Nos escuros metrôs, inspirou-se para a série em que explora o vazio e as sombras dos subways. Nos cafés, se prendeu a expressões -para realizar a série Faces Novaiorquinas. Em evento marcante, realizou uma performance na Zone Gallery, localizada no bairro East Village. Uma passarela de 12 metros de comprimento, feita com linho, recebeu grafismos de tinta sintética que seguiam a estética ameríndia, abordada por Zélio com frequência e presente em seu trabalho até hoje.

Durante a adolescência, tomou conhecimento das artes do Brasil antes do descobrimento pelos portugueses. Mais tarde, esses grafismos encontrados em cerâmicas, urnas e na pintura corporal indígena foram pesquisados e aplicados em tela como um reflexo da sensibilidade visual de nossos ancestrais. O artista se pergunta o que teria sido desta herança sem a ocorrência da Missão Francesa. A Passarela Ameríndica, como foi chamada a instalação nova-iorquina, recebeu todo tipo de interação com o público. Foi pisoteada, amassada e maltratada, mais tarde, também em outras cidades. Anos depois, em uma apresentação especial em São Paulo, desgastada mais uma vez, a peça, resumida a traste, foi por engano jogada no lixo por desavisados montadores. Assim estava concluída por acaso a ideia do artista. “Era isso que eu estava buscando na peça final. Toda ferrada, exatamente o retrato de nossa civilização machucada. O que nós fizemos em cima dessa sociedade foi esquecer que havia aqui esse chão.”

Também em Nova York, Zélio viveu período desolador no verão americano de 1989. Em uma noite quente e seca o artista havia saído com a esposa para ir ao cinema no bairro onde moravam, o Soho. Ao voltarem, não existia mais casa ou atelier, porque um incêndio fulminara dois terços de sua produção. “Foi horrível, aconteceu da maneira mais suave possível. As grandes catarses da minha vida, eu quase sempre não percebo, só depois que passam. Mas vivi com as consequências delas.” Coube ao amigo e fotógrafo Valdir Cruz registrar os restos do apartamento e de sua produção.

De volta ao Brasil, após o incêndio, Zélio novamente se acostumou com um outro país, diferente daquele deixado há sete anos. “É só eu sair e o Brasil apronta as maiores. Vim na época das vergonhas do Collor. Havia ainda muita tristeza, o País estava péssimo, sem rumo certo. Mas eu voltei achando tudo uma maravilha, porque lá fora as dificuldades eram de outra ordem.”

Instalado em São Paulo desde então, Zélio trabalha sobre a temática ameríndia, em grandes telas coloridas, geométricas, que ganharam força em sua produção nos últimos dez anos. Apesar do apreço pelo figurativo, foi na abstração que encontrou o desafio maior como artista, o de transmitir emoção por meio da cor, do movimento e do gesto. “Além de estético, o encantamento de Zélio pela iconografia pré-cabralina se prova também um ato ético”, escreveu o crítico Olívio Tavares Araújo em catálogo que acompanhava a mostra Ameríndios II, realizada pelo Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo, há dez anos. Expostos em seu atelier, estes quadros são sempre submetidos a retoques, mesmo quando já considerados prontos. “Enquanto estiver aqui, vou mexendo. Eu estou sempre indo e vindo, não tenho compromissos com o que eu já fiz. O bom da vida do artista é o descompromisso.”

Mais compromissado que nunca, entretanto, está com a literatura. Experimental como sempre, enveredou há um tempo pelo universo da escrita, sem medo de devanear. Diariamente, reserva seu tempo ao computador, sempre vestindo o avental manchado de tinta, e faz surgir um romance que pretende publicar ano que vem. Este novo mundo, do qual fala com ainda maior satisfação, surge também como um desafio para o artista que possui uma inquietação natural. “Pintar quase sempre é um prazer, um lazer. Escrever agora está sendo uma obsessão. É fascinante.”