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Zé Celso comemora 80 anos com Tirésias de cegueira xamânica

por Alvaro Machado — publicado 11/02/2017 22h30, última modificação 10/02/2017 18h37
Aniversariante em março, o diretor do Teatro Oficina vive o profeta mitológico em sua remontagem de Bacantes, de Eurípedes
Alvaro Machado
Ze Celso Tirérias

Na adaptação euripidiana do Teatro Oficina novamente em cartaz, Zé Celso vive o profeta grego

José Celso Martinêz Correa faz questão de divulgar, sempre que pode, a história real por trás da formidável narrativa de Bacantes (Bakxai), em torno da batalha de estratagemas entre Dionísio-Baco e o rei Penteu de Tebas.

A peça teria sido coletada em escrita por Eurípedes por volta de 405 a.C., a partir de cantos ouvidos diretamente das últimas sacerdotisas da embriaguez e da orgia sagradas, celebrantes do deus do vinho, em honra do qual os festivais-concursos atenienses criaram a representação teatral.

O culto dionisíaco celebrado por essas mênades (mulheres de transportes de consciência furiosos) começava a declinar, mas as encenações da obra euripidiana – registro da maior vitória do invencível filho de Zeus com a mortal Semele –, carregam a reputação e a responsabilidade de manter aceso o próprio “fogo sagrado” do fazer teatral.

De caráter cerimonial e ritual como nenhuma outra composição dramática, Bacantes trata, ainda, da herança espiritual legada pelo mundo antigo à era científica iniciada pelo aristotelismo, cem anos após as mortes dos grandes trágicos, Ésquilo, Sófocles e o próprio Eurípedes.

Seus temas sub-reptícios – e ao mesmo tempo essenciais – são, de fato, o equilíbrio entre os mundos material e sutil e a honra à divindade, ou, de outro ângulo, o cultivo da dimensão divinal no homem. Desse fator dependeria, segundo as antigas sabedorias, a imprescindível harmonia humana com os cinco elementos.

O quinto elemento, inapreensível aos sentidos, seria Éter-Cosmo, qualificado por Platão como fundamental, e a ausência de tal harmonia implicaria ação nociva do conjunto dos elementos sobre a civilização, com o testemunho exemplar de dezenas de grandes cidades, impérios e culturas extintas de um único golpe, antes e depois de Atlântida.

A celebração orgiástica retratada em Bacantes sofreu execração a partir do Renascimento e da era iluminista, até ser reinterpretada na filosofia de Friedrich Nietzsche, na segunda metade do século XIX. De outro lado, o “iluminado” Apolo também marca presença na peça. E para celebrar as forças apolíneas que ajudam a sustentar a alma humana, foram geradas por Zeus as musas da música, da dança, do riso, do teatro e das grandes narrativas. A par do transe dionisíaco característico das bacantes – junto aos sátiros que as acompanham com instrumentos musicais –, as musas apolíneas moldam e insuflam seus afilhados artistas.

Assim, o tema de Bacantes também é plasmado da própria atividade teatral, herança dionisíaca, e do “sacerdócio” exercido por atores e encenadores de legítima vocação. Criaturas de ânimos suscetíveis a influxos que a maioria ignora, como no transe báquico, eles experimentariam a sina de colher simultaneamente, dos reinados da Terra, a coroa de louros e o hálito da peste, paradoxo a informar, em espiral metalinguística, novo motivo teatral, a exemplo da trupe que atravessa Hamlet.

Nesse destino paradoxal, irmanam-se à linhagem dos sábios-profetas, modelarmente representados pelo mitológico cego Tirésias, um dos personagens de Bacantes. Na adaptação euripidiana do Teatro Oficina novamente em cartaz o personagem é vivido, justamente, por Zé Celso Martinez.

O Tirésias incorporado pelo diretor teria perambulado pela Hélade (Grécia Antiga) há cerca de três milênios. Esbanja, porém, caráter contemporâneo, pois conhecia, ora vejam, um dos mais velados mistérios da raça humana, muito pesquisado na atualidade, o do gênero sexual.

Como em todas as grandes descobertas, a ciência de Tirésias chegou-lhe de forma acidental: certo dia, no monte Citerão dedicado a Dionísio, o sábio atentou contra a vida da fêmea de um casal de cobras a copular. O desrespeito acarretou que fosse transformado em mulher.

Tempos depois matou uma serpente macho na mesma situação e voltou a ser homem. Passou a deter, portanto, a chave do prazer sexual de ambos os gêneros primordiais, artigo hoje cobiçadíssimo.

Por esse motivo, foi convocado por Zeus para atuar como árbitro em uma disputa sobre o tema travada com sua esposa Hera, deusa da maternidade e da fidelidade conjugal – personagem não obstante traída incansavelmente pelo consorte. A sentença final de Tirésias, a estabelecer que no encontro-embate sexual a mulher sente mais prazer que o homem, e com larga vantagem, enfureceu a disputante.

Hera
Vera Barreto Leite interpreta a deusa Hera na peça (Foto: Alvaro Machado)

Na atual e sexta versão da peça pelo Teatro Oficina desde a adaptação de 1983-86, Tirésias-Zé Celso invoca em palavras e imagens a experiência andrógina do profeta. Ao longo de três atos e por mais de 300 minutos, o diretor-ator aparece trajado ora em manto púrpura, ora em figurino New Look tropical, ou seja, blusa e saiote curto e plissado, em cores mangueirenses.

O conjunto é inspirado na Experiência n. 3 (1956), do artista plástico e performer Flávio de Carvalho, no qual Zé inclui o arremate jocoso de um tênis preto de boa marca.

A disputa entre Dionísio e Apolo, o papel da Harmonia entre os homens (presentificada na peça como a esposa de Cadmos, rei lendário e avô de Dionísio), e o episódio das serpentes acima referidos encontram-se citados na montagem do Oficina, entre dezenas de outras apropriações antropofágicas dos mitos e tragédias gregas. Vale conhecer a paródia euripidiana criada por Zé Celso no texto integral disponível

Sob apoios cruciais de Sesc São Paulo e Itaú Cultural, a montagem estreou em 21 de outubro de 2016 no Teatro Sesc Pompeia, para em seguida cumprir dois meses de casa cheia no visionário edifício projetado por Lina Bo Bardi para o Oficina, no bairro paulistano do Bixiga.

Com a atual nova temporada, o diretor começa a receber homenagens por seus 80 anos, a serem comemorados no próximo dia 30 de março em récita especial do espetáculo [serviço ao final desta página]. A voz do “xamã do teatro brasileiro” – título autoinvestido, sob razões elencadas em entrevista a CartaCapital – tem ecoado com força nos últimos anos, sobretudo entre as novas gerações e em estratos resistentes ao extermínio de pluralidades promovido pelo neoliberalismo predatório. A partir de maio, o grupo prevê circulação pelo País, por meio de editais e festivais.

Para fazer fluir a saga dionisíaca, setenta colaboradores – entre técnicos, músicos, preparadores, cenógrafos, assistentes e atuadores (o termo é preferido em lugar de “atores”) – frequentam a passarela-palco de cem metros de comprimento do Oficina e suas coxias, camarins e bastidores, abertos à visão do público em linha vertical, nos trinta metros de altura da singular construção. Em dezembro de 2015, o espaço foi apontado pelo jornal inglês The Guardian como o “mais belo prédio teatral no mundo”, à frente do shakespeariano Globe Theatre de Londres.

Na versão de Bacantes predominantemente musical de Zé Celso, suas letras e melodias se alternam com citações de canções de Zé Miguel Wisnik anteriormente compostas para o Oficina e trechos de cantatas de Heitor Villa-Lobos. Este último proporciona um dos clímax da montagem, com evolução coral do elenco para o choro Rasga Coração, das Bachianas n. 10, no qual a inspirada letra de Catulo da Paixão Cearense derrama-se sobre a fascinante melodia original de Anacleto de Medeiros (1866-1907), a alinhavar um século inteiro de brasilidade musical.

De outro lado, apesar da idade de mais de dois milênios, a originalíssima concepção narrativa de Eurípides é capaz de soar ainda como vanguarda. Dionísio aparece como titereiro/diretor cênico a mover os fios invisíveis dos demais personagens. O deus é recriado pelo ator Marcelo Drummond em registro de profundo deboche cênico.

Seu antagonista Penteu é o ator baiano Fred Steffen, com contraponto de segurança físico-vocal, literalmente estraçalhada, contudo, no ato final. Além de Sylvia Prado e Camila Mota em papeis centrais (Corifeia e Semele), também responsáveis por trabalho de bastidores fundamental para o levantamento da atual montagem, duas outras bacantes extracena ofereceram contribuição decisiva, a assistente de direção Catherine Hirsch e a iluminadora Cibele Forjaz, que extraodinariamente opera as mesas de luz ao vivo a cada sessão.

Na direção musical, pontuam ritmos e comandam a banda do teatro o baterista, trumpetista, violonista e cantor Guilherme Calzavara e o tecladista Chicão. A montagem é videografada ao vivo por Igor Marotti e Cafira Zoé, com Pedro Salim na mesa de corte. O trio de videastas mostra-se ágil o suficiente para transmitir imagens para os telões do teatro com edição simultânea à própria captação, tudo com transmissão aberta e ao vivo desde o site do Teatro Oficina. 

Bacantes – Temporada 2017

De 11 de fevereiro a 1 de abril, sábados e domingos às 18h

Sessão especial: dia 30 de março, quinta-feira, às 20h – 80 anos de Zé Celso

Preços: R$60,00 – inteira; R$30,00 – meia entrada (estudantes, artistas, professores e pessoas acima de 60 anos); R$ 20,00 (moradores do Bixiga, com comprovante de residência).

Teatro Oficina : Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo.