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Yo-Yo Ma e o impessoal

por Alexandre Freitas — publicado 16/09/2010 11h13, última modificação 16/09/2010 11h13
É nesses paradoxais encontros entre o eu e o não-eu, o único e o todo, que a arte vai construindo seus caminhos

“Por que e para quem escrever”? Francisco Bosco, em sua coluna semanal de O Globo, tenta responder a essas questões se apoiando em um ensaio do filósofo Giorgio Agamben.

À primeira pergunta, a resposta é “para nos tornarmos impessoais”. Cada sujeito é formado por duas dimensões, uma pessoal, outra impessoal. Uma, o que reconhecemos como o Eu, outra, o que “em nós, nos supera e excede”. Na antiguidade latina essa segunda instância chamava-se genius.

“Para quem escrever?”. “Para Ninguém”. A parte impessoal de cada um é o Ninguém, onde todos podem se ampliar, se desconhecer para se reconhecer maior. “Ora, todo mundo, potencialmente, pode ser o que não é.”

Bosco diz que, quando alguém está dançando, entregue à música, “com o eu esquecido de si mesmo”, esse alguém se encontra na dimensão do genius, está “genial”.

Outra pergunta que pode ocorrer ao leitor desta coluna neste momento é: “Por que o Alexandre está dizendo isso?”

Ontem, assisti a uma apresentação do violoncelista Yo-Yo Ma no Théâtre des Champs Elysées, em Paris, e essa história da impessoalidade que supera a pessoalidade fez todo sentido. O eu do violoncelista só estava presente quando ele caminhava ou agradecia aos aplausos. Sentado, com o violoncelo entre os braços, esse eu se distanciava desde a primeira nota. Permanecia a impessoalidade, o genial, que nos amplia e nos convida a ativar essa zona secreta afastada do eu. Digo que nos convida, mas, às vezes, ela nos arrasta. Acho que ontem foi o caso.

Outra tensão interna me saltou aos ouvidos. Yo-Yo Ma tocou três suítes de Bach, monumentos do repertório dito clássico. As suítes são conjuntos de peças, danças tradicionais, que alternam andamentos rápidos e lentos. Elas começam por um prelúdio, muitas vezes com ares filosofais ou proféticos. E cada dança tem um caráter bem definido, fundada em velhas tradições folclóricas européias. Neste emaranhado de peças individuais no interior de únicas suítes, nesta relação inseparável e heterogênea entre obra, interpretação e percepção, me perguntei: “como é que pode existir alguma unidade nisso tudo?”

É nesses paradoxais encontros entre o eu e o não-eu, o único e o todo, que a arte vai construindo seus caminhos, perturbando o positivismo das nossas lógicas e instaurando novas perguntas, mesmo na convencional aparência de um concerto clássico.