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Cultura

Festival de Gramado

'Walter'gate e outras referências do cinema em Gramado

por Orlando Margarido — publicado 10/08/2015 16h18
Na segunda noite da mostra, um desequilíbrio produz ruído entre latino e brasileiro
Divulgação

Em 2004, a redação do modesto semanário uruguaio Voces (Vozes) foi contatada por um ex-militar ligado ao serviço de inteligência do exército disposto a entregar farto material a respeito da ação da ditadura na morte e no desaparecimento de militantes de esquerda, locais onde os enterravam etc.

Durante meses manteve uma relação tensa, entre promessas de revelações e mistério, com os dois jornalistas incumbidos do caso, um veterano e um jovem ambicioso. Aos poucos, se revela não a documentação, mas a real personalidade e intenção do informante em extorquir dinheiro, ainda que um trocado aqui e ali, não só desses profissionais, mas de outros da imprensa que caíram em seu jogo, como também de familiares das vítimas. Era um "estafador", um escroque, como o veículo estamparia em primeira página no artigo que bancou contando toda a história. 

Uma anti-história, na verdade, de um anti-herói e de um antifuro, na linguagem jornalística. Mas tão envolvente quanto o caso é o filme baseado nele que o diretor Enrique Buchichio exibiu ontem na segunda noite competitiva do Festival de Gramado. Fez Zanahoria, cenoura em espanhol, ao modo de um thriller, em relação direta com filmes do gênero, como Todos os Homens do Presidente, mas este sim, a história de investigação de sucesso que derrubou Nixon e ficou conhecida como Watergate.

O diretor, conhecedor do material desde a publicação, inverte o que poderia ser um filme de anticlímax e investe num pique no qual a todo momento algo parece que vai sair dos eixos na condução do relacionamento entre as partes, nas dúvidas se há fatos concretos e nas pressões e ameaças veladas ou não.

O filme começa sombrio, com o contato de codinome Walter mostrado apenas em cenas noturnas, até que aos poucos se exibe seu rosto. Nesse sentido, achei a fotografia adequada, escura de início para dar conta do misterioso personagem, e depois clara em excesso, como um despiste para sua real figura.

No debate da manhã essa opção foi considerada um dos poucos equívocos do filme, na luz lavada e talvez chapada demais, o que se torna irrelevante afinal. Buchichio é ambicioso em sua empreitada pois dá conta também de uma dimensão política maior quando foca um momento de transição importante no Uruguai com a eleição para a presidência de Tabaré Vasques, homem de esquerda como se sabe.

Não esquece, contudo, dos dramas pessoais dos dois jornalistas, em especial do jovem que busca equilibrar o casamento e o filho que está chegando com o peso desse tipo de investigação. O filme não alcançaria tamanho impacto não fosse o ótimo trio de atores, Abel Tripaldi como o jornalista de carreira, Martin Rodrígues como seu parceiro, e César Troncoso, ator uruguaio de carreira frequente no Brasil, no papel da fonte.

No concorrente brasileiro da noite, o primeiro da programação, o que não faltam são fontes e referências. O diretor Luis Carlos Lacerda, o Bigode, trabalhou com meio mundo no cinema nacional, ama a arte, esta e também a literatura mais específica de Lúcio Cardoso, de quem tira o argumento inicial. Vem dessas duas vertentes a base de Introdução a Música do Sangue, que no entanto não alcança a estatura dos homenageados. 

No cinema, a história de um casal (Ney Latorraca e Bete Mendes) de cotidiano maçante em um casebre de roça desprovido de confortos como luz, se aproxima do universo interiorano de Humberto Mauro. Não só porque adota certo preceito idílico, apesar das dificuldades da mulher que passa o tempo entre a cozinha e a costura.

Mas também porque há a inclusão de uma personagem feminina na casa deflagradora de conflitos, uma jovem bela (Greta Antoine) e seu despertar sexual que atiça tanto um boiadeiro de passagem quanto o velho interpretado por Latorraca. Menos do que a história, aparentada de títulos como Um Anjo Mau, de Roberto Santos, ou A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr, o mais problemático está na forma, nas opções estéticas e narrativas de Lacerda.

Exacerba tudo, quando deveria trabalhar a contenção, seja nos diálogos que são poucos mas redundantes quando não constrangedores seja em longas tomadas buscando a contemplação ou o trágico, em especial na cena fundamental ao final. Difícil assim valorizar mesmo os bons achados, da árvore tão humbertiana representativa da maturidade da garota, das goiabas que apodrecem para o tacho de doce e simbolizam a menstruação que chega.

É afinal o tabu das relações consanguíneas em Cardoso e sua Crônica da Casa Assassinada, por exemplo. Mas também uma outra referência de valor desperdiçada.

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