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Crônica

Vou-me embora pra Cotia!

por Redação Carta Capital — publicado 08/12/2011 11h32, última modificação 08/12/2011 11h32
São Paulo é esse mar de contradições: as revistas convidam a emagrecer e ser zen, mas a cidade te empurra para a irritação e as guloseimas
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'Outro dia caminhando pela Avenida Paulista fiquei pensando com os meus botões o quão é difícil ser zen em São Paulo'

Por Alberto Villas*

 

Não sei se você já percebeu. Bem perto dos caixas dos supermercados estão algumas revistas. Lá ficam expostas todas aquelas que vendem saúde. Dizem que é saúde. As manchetes coloridas e escandalosas anunciam:

Perca 3 quilos em cinco dias!

Dieta da berinjela vai secar você!

7 quilos vão sumir em duas semanas!

Perder 5 quilos vai ser sopa!

Perdi 52 quilos com cápsulas de cárcamo!

Adeus barriguinha!

Não sei se você já percebeu. Bem em frente às revistas ficam o que chamávamos de guloseimas. São balas, bombons, chocolates, doces, chicletes de todos os tipos, formas, sabores e cores. Enquanto suas compras vão passando você fica ali naquele corredor polonês, entre a cruz e a espada. Vai levar a revista da dieta ou uma coisinha pra adoçar a boca?

São Paulo é esse mar de contradições. Bem pertinho dali outro amontoado de revistas te ensina como encontrar o eixo, o equilíbrio, como viver mais feliz, calmo, em paz consigo mesmo. Enfim, mostram por A mais B que você precisa mudar de vida, ser mais zen. Aquela coisa de acordar, abrir a janela e dizer “bom dia, dia!”

Correndo pra lá e pra cá, trombando nas pessoas, tentando desviar das poças e buracos das calçadas, voando pra pegar o sinal ainda verde pro pedestre, sentindo o iPhone vibrando no bolso enfim, outro dia caminhando pela Avenida Paulista fiquei pensando com os meus botões o quão é difícil ser zen em São Paulo. E olha que no meio dessa confusão toda um animado grupo de Hare Khrisna dançava na chuva cantando hare hare. Um oceano de contradições!

Até umas sete da manhã, tudo bem. Você acorda, vê pela janela aquele tempinho de Londres lá fora apesar do verão estar batendo à porta, prepara um chá de laranja com gergelim, coloca na mesa o pão integral, a geléia sem açúcar, o açúcar mascavo, o iogurte desnatado, a margarina boa pro coração, o mamão papaia, tudo conforme manda o figurino. E ainda põe no som Walter Franco cantando “A Louvação de Krishna por Arjuna” e Oliveira De Panelas interpretando “A Opulência do Absoluto”. Tudo de acordo com uma vida saudável e equilibrada.

Ai começa o seu dia. O jornal na porta anuncia na primeira página que o pimentão que você gosta tanto é o vilão dos agrotóxicos. O telefone toca. É alguém pedindo dinheiro para o Natal de uma instituição de caridade. Com o telefone na mão você lembra que é preciso desbloquear o novo cartão já que o velho foi clonado. Uma verdadeira maratona: Disque 1 para isso, disque 2 para aquilo, disque 3 para não sei o quê até cair numa música clássica que ao invés de acalmar só irrita. Como pode quinze minutos de Bach irritar alguém?

E a vida continua. O dia que nem bem começou vai ser longo. A televisão logo cedo anuncia os crimes de ontem à noite e o engarrafamento ao vivo que já se estende pelas marginais. Sem contar o risco de temporais e inundações, sem contar que hoje é dia de rodízio e você vai ter de ligar pedindo um táxi e ouvir que “não temos unidades disponíveis no momento, senhor!”

Como é possível ser zen em são Paulo quando você lembra que quando o rodízio passar motoristas vão te cortar pela direita, o motoqueiro vai dar um pontapé na porta do seu carro, que você vai ter de pagar 25 reais para estacionar depois de dizer um constrangido não ao equilibrista do farol?

Como é possível ser zen em São Paulo se a empregada liga dizendo que o ferro de passar roupa não está esquentando e que o sal acabou? Como é possível ser zen em São Paulo se você é obrigado a passar 20 minutos procurando uma vaga no shopping para comprar um presente para o amigo oculto sem saber se ele gosta de MPB, rock, folk, funk, sertanejo, axé, jazz ou daquele Bach do Call Center?

Enquanto isso, uma espiadinha no Facebook. Lá está o post da Mamá Silva: “Nossa!!! Completamente pilhada e fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo!!! Socorro!!! Escreve pauta-escreve off-decupa-edita-pesquisa!!! SOS total!!!”

Mas nem tudo está perdido. Bem pertinho de São Paulo existe um templo budista chamado Zu Lai. Outro dia fomos lá conhecê-lo. Um paraíso. Tenho pensado seriamente todos os dias em ir-me embora pra Cotia. Lá sou amigo do Siddharta Gautama, o tal do Buda.

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