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Vocação para divertir e refletir

por Orlando Margarido — publicado 02/12/2010 09h00, última modificação 02/12/2010 19h32
Filho de artistas, o argentino Ricardo Darín quer dignificar o ator popular
Vocação para divertir e refletir

Filho de artistas, o argentino Ricardo Darín quer dignificar o ator popular. Por Orlando Margarido

Com as gargalhadas da mãe em público, Ricardo Darín perdeu o medo do ridículo. Com a contrariedade do pai ao saber da pretensão artística do filho, a face mais reconhecida do cinema atual argentino quase perdeu a vocação para o estudo das leis. Mas parecia fadado à câmera o rosto desse herdeiro de intérpretes, não propriamente pelos traços finos, mas pelos vincos profundos, ainda talhado por certa rudeza que hoje lhe garante os papéis de um amante à antiga, viril e charmoso.

Darín ri desajeitado quando lhe pedem para comentar a fama de beleza inesperada e faz jus ao humor materno. “Tive muita sorte”, diz. “Com esse nariz e esses dentes, não seria o que sou sem esses olhos azuis.” Viria a calhar aqui um trocadilho com o filme que definitivamente o celebrizou para o mundo, ao menos aquela porção que ainda toma Hollywood como referência de excelência cinematográfica. O Segredo dos Seus Olhos arrematou o Oscar de produção estrangeira deste ano. Darín torceu a distância e deu apenas o peso necessário à celebração.

Antes que tomem a atitude por desprezo ou arrogância, o ator de 53 anos apressa-se em justificar não ser seduzido pelas homenagens. Abre exceções quando a causa lhe parece válida. Foi o caso da Mostra Cinema e Direitos Humanos, evento que em sua quinta edição na capital paulista elegeu Darín como homenageado. Não apenas porque no mais recente filme, Abutres, de Pablo Trapero, ele interpreta um advogado que perdeu a licença e sobrevive de extorquir indenizações das famílias de vítimas do trânsito. Ao revelar, durante um encontro com a imprensa em São Paulo, que a fita, já vista por 700 mil espectadores na Argentina e representante do país no Oscar, provocou uma revisão desse universo escuso e ilegal por parte do governo, Darín também projetou o objetivo de sua presença no festival.

“Trapero mostra seres anônimos em sua luta de vida, em ofícios nem sempre conhecidos. São temas que precisam ser abordados no cinema com naturalidade, pois, quanto mais naturais, mais perto estamos do público.” E completa: “Quando se fala de direitos humanos, parece que se está enviando uma mensagem aos que não compartilham das mesmas ideias. Se somos demais incisivos, o que pode acontecer é uma divisão, e o que queremos é ser compreendidos”.

Articulado e generoso no modo como expõe seu pensamento, em longas explanações, ele é reconhecido internacionalmente por seu perfil popular. Desde os 10 anos de idade, frequentou os estúdios de tevê e de rádio, além do palco, universo do Ricardo Darín pai e da mãe Renée Roxana. “Conheci com eles a cozinha do ofício, como se diz, mas também alguns ensinamentos que acredito responsáveis por uma visão mais clara das coisas. Da minha mãe, muito divertida, veio o humor que acho essencial na vida. Do meu pai, uma postura de que essa mesma vida nunca seria fácil.” Uma das razões da oposição paterna à carreira artística era a pouca estabilidade financeira da família, que não deveria ser perpetuada. Mas foi justamente a falta que lhe fez superar tabus. “Por saber o que é não ter dinheiro, não recusava trabalhos nem me preocupava com prestígio.”

A postura o levou primeiro à teledramaturgia, nas novelas assinadas pelo veterano Alberto Migré. Enquanto se sucediam as peças teatrais, o cinema o capturou de séries de tevê populares, a exemplo de Mi Cuñado, de 1993, mesmo ano do primeiro filme relevante, Perdido por Perdido, embora circunscrito ao sucesso local. Para Darín, contudo, são dois os longas-metragens determinantes de um respeito público e crítico. O primeiro, o bem-sucedido Nove Rainhas (2000), atraiu os olhares argentinos e internacionais sobre ele, incluindo aí a fama inicial no Brasil, status confirmado pela refilmagem por Hollywood, que o intérprete, aliás, deplora. O ano seguinte foi igualmente celebrado com O Filho da Noiva, segunda de uma duradoura e afinada parceria com o diretor Juan José Campanella, que teve início com O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1999) e se seguiu em Clube da Lua (2004) e O Segredo dos Seus Olhos. Naquele momento, a fita foi responsável por colar em definitivo o nome Darín à nova produção comercial argentina.

Para o grupo de produções de Campanella, Darín reserva o elogio do romantismo que tanto lhe agrada no cinema. A ponto de considerar Abutres, com estreia prevista para o dia 3, uma história de amor, antes de tudo. Cinzenta, diríamos nós, mas não ele, que prefere um ponto final assertivo. Sosa, seu personagem, é um golpista de outra maneira do que aquele em Nove Rainhas, e vê a redenção possível ao conhecer a médica de pronto-socorro interpretada por Martina Gusman, mulher de Trapero. O romance de ambos está longe do conto de fadas, com a ética duvidosa de um, os vícios pouco recomendáveis à profissão no caso dela. Darín apenas receia que a proposta do filme se desloque demais para a denúncia social. “É bastante o projeto de Trapero provocar uma discussão em nível nacional, no Congresso, mas não devemos descuidar da escala emocional, do humano.” Para quem ainda duvidar do caráter romântico, e de modo mais amplo, de gênero, na sua visão de cinema, Darín responde com o longa-metragem dirigido por ele em companhia de Martin Hodara. O Sinal é um autêntico noir levado na Buenos Aires de Eva Perón, quando esta agoniza, em que o próprio veste a capa de detetive para se deixar levar pelo mistério da mulher fatal.

Curiosa essa mescla de homem de opiniões formadas, e dignas, ligado a um casamento de duas décadas e pai presente de dois filhos, com o ator que projeta na tela um tipo durão fragilizado por certa carência. Ele não sabe por que o veem assim, mas dá pistas do seu temperamento quando revela as aspirações dos cineastas ideais. Pensa em Woody Allen, embora não esteja certo da regra deste de que metade do sucesso de um filme está na escolha do elenco. Mas recusa Pedro Almodóvar, apesar de ter bom trânsito na Espanha, onde já trabalha. “Eu discuto muito e ele é briguento. Não nos daríamos bem.”

Entre os brasileiros, sua admiração por Walter Salles encontra reciprocidade, pois há projeto de filmarem juntos, talvez contando com o ator Gael García Bernal, uma história de irmãos na Patagônia. Essa colaboração entre vizinhos não foge à apreciação. “Há uma identidade comum na forma como se contam histórias no nosso continente e penso que esse aspecto tem conquistado fama mundial.” Ele fala de uma mistura de sensibilidade e bom humor que, acredita, fez a diferença e foi decisivo para o Oscar de O Segredo dos Seus Olhos. “Quem sabe se pela ingenuidade de países jovens em termos democráticos, temos a vocação de rir de nós mesmos.” Por certo, em sua passagem pelo Brasil, ele próprio foi o melhor intérprete da constatação.