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Cultura

Edição 630

Virtude demais pode matar

por Renato Pompeu — publicado 26/01/2011 07h27, última modificação 26/01/2011 11h27
Leia as dicas de livros recém-lançados

As aventuras da virtude, de Newton Bignotto
Companhia das Letras, 384 págs., R$ 53

Tomar água é imprescindível para sobreviver. Mas a água tomada em excesso pode ser fatal. Do mesmo modo, o exercício das virtudes republicanas é imprescindível para a manutenção das instituições democráticas. Entretanto, o excesso de virtude pode ser assassino, conforme constata o filósofo político Newton Bignotto, formado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França e professor na Universidade Federal de Minas Gerais, em seu livro As Aventuras da Virtude – As ideias republicanas na França do século XVIII, lançado pela Companhia das Letras.

Sobre a execução em 1794 do líder revolucionário Robespierre, escreve Bignotto: “Terminou a vida do homem que havia feito da virtude o núcleo de sua concepção republicana e transformado sua defesa num banho de sangue. Nos dias que se seguiram (...), um sentimento de alívio foi aos poucos ganhando as ruas. Paris recuperou seus ares de festa e seus costumes mundanos. (...) Os teatros reabriram, a imprensa recuperou a sua liberdade (...)”. O autor retraça a história das virtudes republicanas, formuladas com placidez por Montesquieu, consagradas filosoficamente pelos iluministas em geral, defendidas com paixão por Rousseau, e levadas à prática com fúria assassina por Robespierre. E conclui que essas virtudes republicanas continuam um marco na luta ainda inconclusa por uma sociedade baseada na liberdade, igualdade e fraternidade.

A anedota que virou romance

"Todos os homens são mentirosos", de Alberto Manguel
Companhia das Letras, 184 págs., R$ 42

Uma proeza técnica do escritor canadense nascido na Argentina Alberto Manguel resultou num romance que, se não é uma obra-prima da literatura mundial, é de leitura proveitosa, tanto como lição sobre a vida humana como na qualidade de entretenimento. Com efeito, Todos os Homens São Mentirosos, lançado pela Companhia das Letras, em excelente tradução do castelhano, cuja única falha foi ter chamado de “sabão perfumado” o nosso conhecidíssimo “sabonete”, baseia-se numa simples anedota, num simples equívoco de alguns personagens, chave para toda a história. Mas Manguel, que é um dos personagens do livro, soube criar, a partir dessa anedota, com maestria ao mesmo tempo poética, filosófica e matemática, uma trama apaixonante.

A grande atração são as diferenças das versões de três pessoas a respeito da vida de um argentino exilado da ditadura dos anos 1970 e que vai para a Espanha, todas as versões mais ou menos mentirosas, no sentido mais lato que pode ter a mentira. Às mentiras deliberadas se misturam confusamente os equívocos não intencionais. A história, de todo modo, é escrita, não a partir de olhos argentinos ou espanhóis – as culturas argentina e  espanhola são apresentadas como provincianas –, mas a partir de olhos canadenses, sendo oportuno indagar se a cultura do Canadá não é tão universal assim.