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Carta de Portugal

Vindimas do tempo

por Eduarda Freitas — publicado 21/09/2010 16h45, última modificação 22/09/2010 12h02
Setembro. Mês de vindimas. Mês de preparar os lagares para o vinho que aí vem. O norte de Portugal despe-se de uvas
Vindimas do tempo

Setembro. Mês de vindimas. Mês de preparar os lagares para o vinho que aí vem. O norte de Portugal despe-se de uvas. Foto: Patricia Posse

Estendo-me nas pedras cinzentas do teclado do meu computador e apetece-me ser o gato ao sol que Ruy Belo amou nos seus poemas. O calor apodrece a fruta que ainda não caiu de madura e que a boca, pastosa, tem vontade de experimentar. Um gomo, uma gota de sumo que escorre pelo corpo, também ele cansado, ponto de partida para tantas viagens. É final de Setembro e o sol já devia estar mais manso, mas aqui, onde moro, o sol é rebelde, tem fibra, não se amolece com calendários, não se compadece com datas. É arisco mas não sovina. Esbanja-se pelas mulheres secas que cortam as uvas manhã cedo e deixa-lhes o suor a correr pela cara, pelo pescoço, pelas coxas. Encaixa-se nas rugas dos homens, secos também, olhos de raposa, sorrisos de meninos, vidas de vinho. E antes que a noite chegue, o sol da minha terra pinta-se em telas de rio, cores que ressuscitam até aqueles que como eu, lhes apetecia ser um gato ao sol. É tempo de vindimas. Os homens e as mulheres encaixam-se nos socalcos, misturam-se com a terra. As mãos ficam da cor do vinho que é a mesma cor que lhes desce pelas gargantas e lhes pinta as pernas, mais tarde, no lagar. As merendas embrulham-se em guardanapos brancos, atam-se em sacos de plástico e comem-se à sombra. A mais requintada das especialidades não saberia tão bem. Os pés enterram-se no pó das leiras e as unhas são garras de ternura que desbravam as folhas das videiras à procura dos filhos pródigos, uvas grávidas de taninos. Tenho saudades do meu avô e das tesouras para cortar os cachos das uvas que me faziam bolhas nas mãos de pele muito branca. Tenho saudades das pernas enfiadas no lagar, de pisar um mar inventado com ondas de mosto. Tenho saudades da lua que me sabia a uvas mouriscas, nos serões cheios de primos. E, mais tarde, de Setembro derretido nos corpos. E muito mais tarde, de Setembro mês de fins e por isso de reinícios. E o corte das uvas, os baldes cheios, o tentar arrasta-los até ao lagar, as unhas sujas de cor como se nunca mais fossem ficar limpas e até o linguarejar mais brejeiro, as palavras e os corpos que só ficavam bem entre videiras.