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Villa-Lobos em Paris

por Alexandre Freitas — publicado 27/12/2009 15h51, última modificação 20/09/2010 15h52
O senhor segue alguma escola? Eu sigo a minha escola. E ela muda todos os anos – responde Villa-Lobos em entrevista a um jornalista francês.

O senhor segue alguma escola?
Eu sigo a minha escola. E ela muda todos os anos – responde Villa-Lobos em entrevista a um jornalista francês.

Nos dois dias de colóquio sobre o maestro brasileiro na Sorbonne, em Paris, estava sempre implícito ou explícito, em cada intervenção, o gosto que Villa-Lobos tinha pela liberdade. Danièle Pistone, uma das organizadoras do encontro, fala da sua “inextinguível sede de liberdade”. Seu envolvimento político ou a “diplomacia musical” exercida não era, de forma alguma, obstáculo para o exercício livre da sua criação. Apropriou-se da obra de Bach e a transformou, como mostrou Michel Fischer nas Bachianas. Utilizava livremente técnicas européias, folclores longínquos, próximos ou imaginários.

Interessante observar como intelectuais estrangeiros percebem e entendem a obra do nosso compositor. Anaïs Flechet, nos fala das relações de Villa-Lobos com a França e o exercício de uma diplomacia musical: desde as pequenas querelas no governo em torno da concessão de uma bolsa, que era irrisória, para sua ida a França, até sua forte atuação na promoção da música brasileira no cenário francês. Não era só sua obra que ele apresentava, mas também a de compositores como Henrique Oswald ou Francisco Braga. O financiamento real dessa primeira viagem à França vem do banqueiro Arnaldo Guinle. E, para essa viagem, ele deixou claro que não estava indo para aprender. Iria divulgar sua obra e o Brasil. Foi o que fez.

Fui ao Brasil para estudar o estruturalismo e ter contato com tribos indígenas. Mas o acaso quis que tivesse contato com a música de Villa-Lobos. Fiquei chocado - diz o escritor e professor de semiótica Eero Tarasti. A música que ele ouviu foi a Dança do Índio Branco, do Ciclo Brasileiro para piano. Tasrasti se tornou autor de uma biografia, que hoje é uma importante referência do compositor brasileiro. Sua grandeza é incontestável, mas até hoje ele ainda encontra problemas de aceitação. Talvez por se situar fora de toda categoria estética europeia – palavras do biógrafo.

As categorias extra-européias, as condições de dominantes e dominados, a recepção atual e as conseqüências da obra de Villa-Lobos foram discutidas no encontro. Danièle Pistone sugere, de passagem, a criação de um léxico estético bilíngue. Os termos “nacionalismo”, “exotismo” ou “raça” têm significados muito distintos em português e francês. Como produzir uma discussão fértil se partimos de pressupostos tão distintos? A questão fica no ar.

Outros assuntos foram levantados. O gênero lírico, por exemplo. Em maio do próximo ano entra em cartaz no Théâtre du Châtelet, a ópera-musical Magdalena. Cécile Auzolle comenta as montagens, o libreto e a estética da obra e conclui: Villa-Lobos é um compositor lírico. Ele compôs também a ópera Yerma, sobre o texto de Garcia Lorca, que foi apresentada em versão reduzida na França no mês passado. É mais uma obra de Villa-Lobos raramente ouvida. Infelizmente.

A terceira das quatro óperas acabadas de Villa-Lobos citada foi A Menina das Nuvens, dessa vez pelo maestro Roberto Duarte. Ele apresentou uma maneira particular de entender passagens sinfônicas das obras do compositor carioca. “O teclado como fonte de inspiração”. Em muitos momentos é a topografia do piano que conduz transformações sonoras. O compositor se baseava mais no gesto e em uma forma específica da mão, que em estruturações harmônicas complexas, politonalismos ou qualquer coisa do gênero. Era o recurso de um malandro, eu disse. No bom sentido, retifica Duarte.

O que ficou claro nesse colóquio é que Villa-Lobos, na especificidade brasileira de sua linguagem, acaba por encontrar ressonâncias em vários cantos do planeta. Sua obra sobrevive e caminha após cinqüenta anos de sua morte. Heterogênea, mestiça, malandra (no bom sentido), inclassificável. Reflexo do compositor. Nosso reflexo.