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Carta de Portugal

Viajar em palavras

por Eduarda Freitas — publicado 30/12/2010 10h20, última modificação 06/06/2015 18h15
Eduarda Freitas, em sua terceira crônica da série sobre Cuba, conta a história de John Elvis, um cubano amante de Chico Buarque, que tem o sonho de correr o mundo

Uma estrada de terra batida, rodeada de vegetação, leva quem é movido pela curiosidade dos sítios, até praias improváveis. Pequenas, de um azul muito azul. Um lar perfeito para corais. Um lar quase perfeito para John Elvis. «Sou John por causa do John Lennon e Elvis por causa do Elvis Presley», justifica, rindo-se. Tem 29 anos, gosta de ouvir Beatles, mas prefere Chico Buarque. Apaixonado por conversas, assume um sonho do tamanho do Canadá. «É um dos países que mais gostava de conhecer. Apesar de ser muito frio…», diz. John está atrás de um balcão de madeira, num pequeno bar de praia. Um sitio que parece esquecido do mundo. O som do mar é intercalado com o suave tilintar dos espanta-espiritos de barro que bailam ao vento. Fala-se baixo, para não estragar o silêncio. John espreme uns limões muito amarelos, junta-lhes água e um pouco de açúcar, acastanhado, grosso. Não se inibe na conversa. Viajante de palavras, procura em quem chega de fora alimento para satisfazer a sua curiosidade pelo mundo. Na lista das viagens de sonho, fica a Europa: Grécia, Itália e Portugal. Mas também a sua própria casa: «Já fui a Havana, mas nunca fui a Santiago de Cuba ou aos Cayos. Nem sequer a Varadero», conta. Ainda que Varadero, fique, por exemplo, à distância de um dia de viagem. «Longe», diz Jonh. «Caro», justifica. «Os turistas dizem-me que a cidade mais bonita de todas, em Cuba, é Trinidad, mas isso são eles que o dizem… não vivem aqui todos os dias». John lança os olhos para além da conversa. Deixa-se ficar assim, por uns instantes. Sobressai o tilintar dos espanta-espiritos. A limonada sabe a cheiro do mar. A camisola que John traz vestida divide-se em duas partes: de um lado, a Selecção Brasileira de Futebol, do outro, o Inter de Milão. A unir os dois, lê-se «Ronaldo». De novo, os olhos de John voltam às palavras. «O que eu gostava mesmo era de poder viajar para onde me apetecesse. Se eu achasse que no Japão iria ser mais feliz, então gostava de poder ir para o Japão. E depois voltar. Sempre voltar…porque, claro, gosto de Cuba. É o meu país!». O bar onde trabalha pertence ao Estado. John acredita nas vantagens de um trabalho feito com prazer, honestidade. Mas não em Cuba. Do Estado, mensalmente, recebe 265 pesos nacionais e 10 convertíveis. Qualquer coisa como 15 euros. Encolhe os ombros. «Se percebo a situação de Cuba? Eu não percebo é a minha situação! Essa é que não percebo!», diz. Na vontade da sua juventude, às vezes John Elvis deixa-se guiar por um ou outro luxo. Um deles, fica à porta da discoteca mais famosa de Trinidad, «La Cueva». Para lá entrar, paga o preço de um difícil pé-de-meia. Ainda assim, garante, vale muito a pena. «Os turistas dizem-me que é a mais bonita do mundo! É uma cova natural com música lá dentro. A entrada custa três CUCs, o equivalente a 75 pesos nacionais. Choca-me um pouco…! Mas às vezes junto-me com uns amigos, reúnimos os três CUCs e vamos! O preço inclui uma bebida. Não bebemos mais do que isso…», ri-se, baixando os olhos.

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