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Crônica do Villas

Vestindo a camisa

por Alberto Villas publicado 23/01/2014 11h01
Com quase sessenta e quatro anos de idade, tomei uma decisão e escolhi um time pra torcer
Divulgação
Portuguesa

Contra o Ituano, a Portuguesa ficou no empate sem gols

Não sei com que idade uma pessoa começa a torcer para um time de futebol. Sei que sou América Mineiro desde pequenininho, ovelha negra da família que é toda ela Galo roxo.

Já fui torcedor fanático de assistir o meu América jogando contra o Bela Vista numa noite chuvosa de quarta feira, ao lado de 33 torcedores. Não sei se de tanto sofrer, fui aos poucos tirando o time de campo.

Já contei aqui o vexame que passo por não torcer pra time nenhum em São Paulo, principalmente quando entro num táxi e o motorista vai logo perguntando se sou corintiano.

Quando digo que não tenho time aqui, eles me olham com um certo desprezo, tipo “como assim, não torce pra ninguém?” Eles me enxergam como um Zé Mané qualquer, um tédio, sem criatividade, um cara mais sem graça, sem humor, sem vontade de viver, um cara que leva uma vida besta sem torcer pra time nenhum.

Já me passei por corintiano, palmeirense e são-paulino pra evitar confusão durante a corrida. Sempre concordei com os taxistas, donos da verdade dentro e fora do campo.

Copa do Mundo eu gosto, me entusiasmo, assisto  todos os jogos, até zero a zero em videoteipe. Se um dia a Grécia for jogar com o Sudão, com certeza vou estar diante da televisão pra ver o jogo.

Aquela Copa no Japão e na Coréia colocava o despertador às três horas da madrugada pra assistir jogos sem a menor importância, de dois times já desclassificados. Na boa. Costa Rica e Turquia, por exemplo.

Confesso que nas últimas copas torci calado para a seleção de Camarões. Gosto daquele uniforme todo colorido, da alegria dos jogadores, aquela festa apesar da desclassificação, sempre. Lembro-me bem de uma Copa em que a seleção de Camarões saiu sem perder um jogo sequer. Senti vontade de chorar.

Sempre tive uma queda por times menores e mais fracos. Se o Flamengo vai jogar contra o Audax, torço pelo Audax. Se o Atlético vai jogar contra o Boa, sou Boa. E se o Corinthians vai jogar contra o Penapolense, sou Penapolense, sempre.

Gosto desses times pequenos. Confesso que já tive uma grande paixão pelo Canto do Rio, pelo Olaria, pelo Bonsucesso e acompanho sempre que posso pelo UOL os resultados do Ateneu, do Araxá e do Tombense.

Sou do tipo que gosta do Ringo Star e quando me perguntavam se eu era Beatles ou Rolling Stones sempre respondia que era mais The Mamas & The Papas.

Mas esse ano não vai ser igual aquele que passou. Tomei uma decisão. Não sei se beirando os 64 anos alguém tem o direito, a essa altura do campeonato, de começar a torcer para um time ou não. Mas sei que em 2014 eu tenho um time em São Paulo. Sim, escolhi a Portuguesa. Vou torcer pra Portuguesa. O campeonato começou domingo passado e logo no primeiro jogo nós perdemos – já trato a Portuguesa assim: “nós perdemos” - para o  Corinthians por dois a um. Três dias depois jogou com o Ituano e não passou do zero a zero. Pelo visto, não vai ser fácil. Vida de sofredor é assim mesmo.

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