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Verdades indelicadas

por Jamie Doward — publicado 13/08/2010 11h19, última modificação 13/08/2010 11h20
Tony Judt, um historiador alheio à aceitação pública

Tony judt, o escritor, historiador e professor britânico descrito recentemente como o dono da “mente mais vigorosa de Nova York”, morreu depois de dois anos de luta contra uma doença neuromotora. Judt relatou-a em palestras públicas e ensaios, e o registro lhe conquistou quase tanto respeito quanto a volumosa obra histórica e política. Ele nasceu em 1948 e cresceu no sul de Londres. Os pais de sua mãe tinham emigrado da Rússia. Seu pai era belga, descendente de rabinos lituanos. A carreira acadêmica começou com a graduação e o PhD em História, em Cambridge, que o levou à Universidade de Nova York, onde foi renomado professor de estudos europeus. Tem-se por sua melhor obra Pós-guerra: Uma História da Europa depois de 1945, publicada em 2005.

A disposição de Judt a manifestar “verdades indelicadas”, como colocou recentemente o New York Times, provocou ataques de colegas intelectuais. Foi chamado de irascível, o que provavelmente recebeu como uma condecoração. Sua crítica a Israel – especialmente um ensaio de 2006 no qual declarou que “hoje Israel é ruim para os judeus” – o situou no centro de uma tormenta intelectual. Não que ele parecesse se importar com o que os outros pensavam. “Fora da Universidade de Nova York sou considerado um esquerdista de desenho animado, um judeu comunista que odeia a si próprio. Dentro da universidade, um típico e antiquado branco liberal elitista”, disse recentemente. “Gosto disso. Estou no limite de ambos, me sinto confortável.”

Em um ensaio recente, discutiu a condição que o havia deixado tetraplégico, incapaz de realizar sem ajuda quase toda ação muscular, incluindo respirar. “Lá estou eu deitado, amarrado, míope e imóvel como uma múmia moderna, sozinho em minha prisão corpórea, acompanhado pelo resto da noite somente por meus pensamentos.” As palavras, para Judt, eram um modo de dar sentido à vida.

O diagnóstico da doença veio em 2008. Ele, que se considerava um “saudável, muito capaz, muito independente, viajante e esportivo”, viu seu corpo devastado. Logo perdeu o movimento das mãos e pensou na eutanásia. “É preciso planejá-la porque a trajetória provável é que você perca a capacidade de se expressar muito antes de morrer.” Em uma correspondência por e-mail publicada na revista Prospect em julho, Judt relatou como, deitado em vigília à noite, preso em seu corpo, passava em revista a própria vida e se preparava para ditar ensaios pessoais, publicados na New York Review of Books pouco antes de sua morte. O processo era catártico. “Não acho que desfrutei a vida tanto quanto deveria, pensando nisso o tempo todo. Por isso, agora desfruto pensando sobre ela (que é outro tipo de pensamento) e chegando tão perto de desfrutá-la no momento quanto permite a memória resgatada.”