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Resenha

Vaporpunk: o retorno da nuvem negra

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 09/11/2010 16h48, última modificação 09/11/2010 17h01
Coletânia de contos de fantasia e ficção científica traz oito noveletas que se propõem como steampunk e histórias alternativas ao mesmo tempo

Uma nova coletânea de fantasia e ficção científica da Editora Draco, Vaporpunk – relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (R$ 49,90), chega um ano depois do lançamento de Steampunk – histórias de um passado extraordinário da Tarja Editorial para retomar o subgênero e seus temas dentro de um modelo diferente.

Enquanto a coletânea da Tarja foi formada por nove contos steampunk em 184 páginas, a da Draco é formada por um conto e sete noveletas num total de 312 páginas, que se propõem como steampunk e histórias alternativas ao mesmo tempo. O que isso significa?

Muitos contos steampunks implicam alguma espécie de história alternativa. Supõem que no século XIX tornou-se realidade alguma invenção ou descoberta importante que não existiu de fato nessa época e que isso transforma profundamente a sociedade, ou que a política, a economia e a cultura tomaram rumos diferentes – fazendo do Brasil de D. Pedro II uma potência industrial, digamos. Mas isso não é obrigatório: a narrativa pode girar em torno de uma invenção isolada e sem maiores consequências sociais ou de uma aventura envolvendo engenhocas a vapor sem supor mudanças significativas na história e sociedade da época. A alma do steampunk está no jogo com clichês, pensamentos e valores do século XIX, mais do que em cenários detalhados que sejam histórica e cientificamente plausíveis. Eventos sobrenaturais, personagens literários e equipamentos impossíveis caem bem, se estiverem de acordo com concepções da época.

Uma história alternativa, por outro lado, pode passar-se no século XIX ou em outro qualquer, mas enfatiza possibilidades não realizadas de desenvolvimentos políticos, históricos e sociais, mais do que máquinas e aventuras. Em estado puro, não admite magia, invenções que a ciência moderna considere impossíveis ou a intervenção de famosos personagens de ficção. Por estranho que o cenário pareça, deve ser racionalmente justificado a partir de um “se”, um “ponto de divergência”, algo que não aconteceu, mas poderia ter acontecido, tal como a construção da máquina diferencial de Charles Babbage no século XIX ou a vitória do nazismo na II Guerra Mundial.

Uma história alternativa bem feita exige mais explicações e desenvolvimento do que um incidente pontual que pode servir de base a um conto. Procura esboçar um processo histórico e um mundo plausível. Um conto de tamanho regular pode até ter uma história alternativa implícita, mas precisa deixá-la à imaginação do leitor. Destrinchá-la com suficiente clareza exige mais espaço – daí a opção preferencial por “noveletas”, que as convenções da ficção especulativa definem como textos com 7,5 mil a 17,5 mil palavras.

Em suma, a coletânea da Draco pretende ser mais densa e complexa que a precursora da Tarja. É uma faca de dois gumes, pois isso oferece possibilidades de maiores voos criativos, mas também de maiores tropeços. Mesmo que estes sejam evitados – em geral, o foram – resultam em textos mais interessantes para um aficcionado por esses temas, mas provavelmente difíceis ou cansativos para o leitor casual ou principiante.

E poucas das noveletas respeitaram os cânones racionais da história alternativa ou da ficção científica no sentido estrito. A maioria delas contêm elementos fantásticos: magia, poderes psíquicos, personagens da literatura tornados reais, leis naturais alternativas, máquinas impossíveis, entidades sobrenaturais como deuses e lobisomens. Não são ficções científicas ou histórias alternativas da era do vapor no mundo real e sim noveletas de fantasia em cenários steampunk aos quais se tentou conferir certa densidade (pseudo)-histórica e geopolítica, às vezes de maneira forçada. Não é um juízo de valor, pois o fantástico pode ser tão interessante quanto a especulação racional, mas é de notar o desvio em relação à ideia original.

Muitas destas noveletas são de tom mais que sombrio. Em 2009, a coletânea da Tarja chamou a atenção do crítico estadunidense Larry Nolen pela percepção comum à maioria de seus contos (rara nos equivalentes anglófonos, segundo ele) de que a tecnologia e a ascensão das classes ociosas não melhoravam a vida das demais classes sociais tanto quanto deveria. Viu em vários daqueles contos uma “nuvem negra” a ameaçar com mudanças destruidoras por seu caminho. Pois elas mais parecem uma nevoazinha inofensiva em comparação com o tufão anunciado pelas noveletas de Vaporpunk, anunciando catástrofes para seus protagonistas e para a humanidade. Curioso é que, embora os brasileiros sejam tidos como alegres e os portugueses como melancólicos, foi destes que vieram os contos relativamente mais otimistas – em um caso, até exageradamente ensolarado.

A primeira história, A Fazenda-Relógio, do designer carioca Octavio Aragão, foi a única a se restringir às dimensões do conto tradicional. Abre mão de uma explicação razoável do cenário para centrar-se na ação, mas nem por isso é menos satisfatória. Em 1886, uma fazenda de café perto de Jundiaí substitui todos os escravos, de uma vez, por um sistema importado de autômatos a vapor. Os libertos, inicialmente felizes, logo descobrem que não tem para onde ir nem onde conseguir sustento. Assim como os ludditas ingleses, rebelam-se então contra o processo que os oprime, mas com mais inteligência, usando as máquinas a seu favor contra os antigos senhores e o próprio Conde d’Eu.

Como fantasia e metáfora sobre a história (ou sobre como ela deveria ter sido), é instigante, mas como história alternativa faz coçar a cabeça: o salto da escravidão para uma automação total mais avançada do que é possível em 2010 é mais improvável que um desembarque de extraterrestres. Também não leva em conta que, em 1886, as alforrias eram frequentes, a maioria das fazendas (salvo no vale do Paraíba) já trabalhava com mão-de-obra imigrante e a escravatura era um sistema em avançada decomposição, combatido ativamente por abolicionistas e enfrentando rebeliões e fugas diárias. Em Jundiaí, em particular, as alforrias foram aceleradas pela construção da estrada de ferro para Santos e a incorporação dos negros à sociedade civil foi pouco traumática. A cidade conta, aliás, com o mais antigo clube negro em atividade no Estado, o “28 de Setembro”, fundado em 1897, cujo nome alude à Lei do Ventre Livre de 1871. Teria sido mais coerente ambientar a história antes dessa lei, da Santos-Jundiaí e da guerra do Paraguai, já que, impossível por impossível, robôs em 1860 não soam muito mais fantasiosos que em 1880.

Os oito nomes do deus sem nome, do programador e publicitário português Yves Robert, é uma história mais complexa, com um exótico pano de fundo metafísico e geopolítico: nos últimos anos do século XIX, as três potências europeias dominantes são o Reino Unido, a França e... Portugal, que ameaça sobrepujar ambos. O Reino Unido é uma potência fundada na indústria e na máquina a vapor, como na história real, mas com maiores avanços, incluindo computadores e barcos a jato. A França afirmou-se, por sua vez, com o desenvolvimento de habilidades parapsicológicas como clarividência, telepatia e telecinese. A noveleta é sobre espiões que tentam descobrir o segredo do poderio português e seria frustrante adiantar os detalhes, mas é óbvio desde o início que envolve feitiçaria africana. A narrativa segue o modelo dos folhetins oitocentistas, enfatizando os diálogos e o mistério sobre a ação e terminando em uma cena impressionante. Satisfatório para quem aprecia o estilo, embora esteja mais para terror fantástico que para ficção científica.

Os primeiros aztecas na Lua, do médico mineiro Flávio Medeiros, é tão estranho quanto o título sugere. Gira em torno de uma operação de espionagem francesa de planos britânicos e envolve uma complicada história e geopolítica alternativas, mas o autor não foi hábil em apresentá-las. As explicações do protagonista e de outros personagens são apresentadas de maneira professoral, pouco natural, com detalhes desnecessários e nem sempre coerentes. Por exemplo, os ingleses possuem um império colonial ainda maior do que na história real, mas supostamente lhes falta um lugar adequado ao sul do paralelo 28 para instalar um “canhão lunar” à Júlio Verne. Que foi da Índia, a mais importante das colônias britânicas na história real, para não falar de outros vastos domínios tropicais?

Outro problema é o excesso de citações da ficção do século XIX: além dos próprios H. G. Wells e Verne, como ministros das ciências das duas potências rivais, comparecem Axel Lidenbrock (da Viagem ao Centro da Terra), Michel Ardan (Da Terra à Lua), o professor Aronnax (20 Mil Léguas Submarinas), o detetive Dupin (Assassinatos da Rua Morgue), Edward Prendick, o doutor Moreau e o homem invisível (dos romances de H. G. Wells), Mycroft Holmes e inspetor Lestrade (das histórias de Sherlock Holmes), a máquina do tempo e a cavorita de Wells, o submarino de Nemo e por aí vai. O fantástico, neste caso, fica por conta das invenções inviáveis, como a máquina do tempo oitocentista e balas de canhão que servem como meio de transporte sem triturar seus ocupantes. Por outro lado, é decisivo para a trama que Verne considere a cavorita impossível e a invisibilidade de Griffin torna-se apenas uma metáfora. A colagem de detalhes e referências, nem todas bem aproveitadas, é excessiva para as dimensões da noveleta: acaba por deixá-la desconjuntada. Sufoca o enredo e confunde o leitor com premissas arbitrárias e contraditórias.

Consciência de Ébano é do físico carioca Gerson Lodi-Ribeiro, um dos organizadores da coletânea – o outro é o português Luís Filipe Silva, que não contribuiu com textos próprios. A história é compreensível em si mesma, mas pede uma releitura dos seus outros contos e noveletas do “ciclo palmarino” publicadas na antologia Outros Brasis (Unicórnio Azul, 2006). Trata-se de uma história alternativa na qual o Brasil se divide em três: a colônia holandesa no Recife, o Brasil português e um Quilombo de Palmares que se torna uma grande nação negra independente. A peculiaridade fantástica (mesmo se justificada em termos de ficção científica) é que o Quilombo tem como arma secreta um vampiro capturado no tempo de Ganga Zumba, que serve fielmente aos planos dos líderes negros. Nesta noveleta, ambientada em um século XIX alternativo, um agente palmarino quase branco, descendente de João Fernandes e Chica da Silva, se horroriza ao descobrir a existência do vampiro e se dispõe a trair seus superiores negros eliminando o que vê como um foco de maldade e corrupção, com consequências trágicas. É a noveleta menos steampunk – tecnologia e máquinas a vapor têm nela pouca importância – e a mais sombria, com doses abundantes de crueldade, violência e tortura. Também é uma das mais bem ambientadas, graças à invenção consistente da cultura, dos costumes e dos modos de falar peculiares aos palmarinos. Fraqueja nos motivos do agente João Anduro, não suficientemente desenvolvidos para justificar a atitude drástica que o leva à desgraça.

Depois de tanto pessimismo, Unidade em Chamas, do tradutor e escritor português Jorge Candeias, soa como uma bem-vinda lufada de esperança. Ambienta-se em um período anterior às demais, no tempo dos irmãos Alexandre e Bartolomeu de Gusmão, século XVIII. Na história real, Bartolomeu fez em 1709 experiências com pequenos balões a ar quente não tripulados (como os depois lançados nas festas juninas), mas nesta história alternativa estes tomam as características da legendária “Passarola” imaginada pela fantasia de um desenhista da época como um navio com bico de ave, provido de asas, foles e misteriosos equipamentos elétricos e magnéticos. Para os fins da noveleta, as passarolas são racionalizadas como dirigíveis a gás e ar quente, movidos por remos aéreos, que conferem ao Portugal setecentista a primeira Força Aérea do mundo.

Não há elementos mágicos, mas a descrição detalhada das estranhas aeronaves e de seu funcionamento é tão onírica e cativante quanto a de um dragão de histórias de fantasia. O estilo quase oral da narrativa e a combinação do maravilhoso com o realismo popular, sujo de suor e carvão fazem desta uma das melhores noveletas e lembram José Saramago, que também deu à Passarola de Gusmão um papel importante em seu Memorial do Convento. Candeias não imita, porém, a pontuação peculiar do finado mestre.

O protagonista é um minorca (baixinho, em gíria lusitana), camponês humilde do interior de Portugal que, depois de recrutado à força e treinado junto com muitos outros para tripular as passarolas da Armada de El-Rei, é surpreendido às vésperas da guerra pela existência de um segundo corpo de aeronautas, treinado em segredo nas colônias, formado por negros e mulatos africanos e brasileiros. Sem aviso prévio, os comandantes decidem fundir os dois corpos em um só e misturar as tripulações (um passo administrativamente improvável, mas justificável com licença poética) o que desperta o preconceito racial e gera as tensões e conflitos que conduzem o enredo daí em diante. Há violência, mortes e sofrimento, mas ao menos para o protagonista, a convivência acaba por ser construtiva e um aprendizado de solidariedade e de confiança e aponta para a superação da xenofobia.

Com A Extinção das Espécies, do jornalista paulista Carlos Orsi, retornam as nuvens do mais sombrio desespero. Estamos nos anos 1830 e o narrador é um naturalista não nomeado que claramente é Charles Darwin: a noveleta cita longos trechos de O Diário do Beagle. Mas atenção: trata-se do jovem Darwin de uma realidade alternativa, não só do ponto de vista histórico, como também do físico. Neste universo, o élan ou “força vital” dos pensadores do século XIX e início do XX realmente existe e de alguma maneira deriva da vis viva (termo inventado por Leibnitz e usado nos séculos XVII e XVIII para o que hoje chamamos energia cinética), que pode ser obtida da luz solar. Suas aplicações foram desenvolvidas a partir de um “efeito Waldman-Ingolstadt” (ou seja, descoberto pelo mestre do doutor Frankenstein), tornando possível purificar água, mover navios, atuar autômatos e outras coisas que se lerá.

Um misterioso “Fabricante de Autômatos” alemão (seria o Spalanzani do conto “O Homem de Areia”, de E. T. A. Hoffmann?) demonstra a Darwin uma espécie de proto-nanotecnologia que permite criar máquinas capazes de se reproduzir. Ao viajar do Rio de Janeiro a Bahía Blanca no Beagle, o narrador encontra o doutor Charcot (alusão a um psiquiatra francês do século XIX, pioneiro no estudo científico da hipnose) e um correspondente do Fabricante chamado Luís Adolfo Morel, cujo nome combina os do personagem-título do romance argentino de ficção científica A Invenção de Morel (fonte de inspiração óbvia para a série Lost) com o de seu autor Adolfo Bioy Casares e seu prefaciador Jorge Luís Borges. Os dois sábios estão a serviço do general Juan Manuel de Rosas que inicia a conquista da Patagônia argentina aos araucanos ou mapuches. Com ajuda da combinação das criações do Fabricante e de Morel (cuja invenção aqui é de outra natureza), o massacre dos indígenas se torna ainda mais assustador e cruel do que na história real, de uma maneira que faz o narrador duvidar do futuro da espécie humana.

O Dia da Besta, do tradutor e escritor carioca Eric Novello, é um conto comparativamente bem-humorado, para quem gosta de humor negro. Passa-se em um Brasil dos anos 1860 bem mais industrializado e desenvolvido que o da história real, capaz de produzir tecnologia de ponta, inclusive cavalos-robôs. A princesa Isabel adolescente é uma aviadora colecionadora de amantes, cujos voos orientam uma equipe de piratas. Napoleão III tenta enviar uma arma secreta ao ditador paraguaio Solano López que é de alguma maneira interceptada por ingleses comandados pelo embaixador Christie. Mas o navio naufraga e a arma acidentalmente libertada pelos piratas de Isabel – um lobisomem da Tasmânia, nada menos – cria o caos no Rio de Janeiro, até ser capturada e levada a um laboratório no Jardim Botânico. Um ingênuo D. Pedro II é mantido em piedosa ignorância de tudo que se passa, mas a guerra se aproxima. O cenário histórico e a intriga política são improváveis e confusos e deixam muitas pontas soltas. São apenas pretextos para a ação e o humor, que são os verdadeiros focos da noveleta e estão bem cuidados.

O Sol é que alegra o dia... do professor de engenharia mecânica português João Ventura, dá a impressão de ter sido escolhido para fechar o livro como o raio de sol que consola o náufrago que sobreviveu a uma tempestade aterradora, mas exagera na dose. A trama se baseia em um personagem real: o padre português Manuel António Gomes, apelidado "padre Himalaya" por sua elevada estatura, que em 1900 de fato desenvolveu um invento chamado “pyrheliophero” – um forno aquecido por espelhos e luz solar, capaz de fundir aço –, que foi apresentado e premiado na Feira Mundial de St. Louis, em 1904.

Não foi a primeira tentativa de aproveitamento da energia solar: desde 1861, o francês Augustin Mouchot patenteou várias invenções com o mesmo objetivo, incluindo fogões, máquinas a vapor, geradores de energia elétrica. Também nos EUA do século XIX, houve experiências nesse sentido. Mas na noveleta de João Ventura, é a invenção do padre Himalaya que deflagra uma revolução industrial baseada na energia solar. Ao se combinar com o motor Stirling, inventado por um pastor presbiteriano escocês em 1816, torna dispensáveis o carvão e o petróleo e origina uma sociedade ecológica e livre de poluição. Carros e dirigíveis solares logo entram em uso. Para que nada falte à utopia ecológica, iluminista e social, a tecnologia do padre Himalaya vai também possibilitar a prosperidade econômica da “Comuna da Luz”, criada na história real pelo anarquista português António Gonçalves Correa em 1916 e dois anos depois destruída pela repressão. Mas nessa história alternativa tudo é harmonia e António Salazar um inofensivo professor em Coimbra.

O tom eufórico, celebratório e panfletário da noveleta – à qual não falta nem um longo discurso à “Academia de Sciências” proferido pelo próprio Manuel Himalaya – é apenas pontuado por leves contratempos. O padre precisa visitar os netos dos irmãos Stirling e lhes pedir que autorizem o uso de sua invenção (aliás, seria desnecessário, pois a patente já teria vencido em seu tempo), mas isso se faz sem óbices. Uma “Associação Americana dos Produtores de Energia”, defensora de interesses carvoeiros e petrolíferos, tenta assassiná-lo, mas sequer consegue feri-lo. Sabota o pyrheliophero, mas não o faz a tempo. Quer destruir os carros solares, mas a trama é facilmente desbaratada pelo incipiente FBI, que oferece sua proteção ao padre português antes mesmo que ele a peça, resolve o problema sem que o inventor precise mover um dedo e não tem dificuldades em prender e levar à cadeia o mais poderoso plutocrata dos EUA (um “Paul Schroeder” à imagem e semelhança de John D. Rockefeller) sem mais provas que um telefonema ouvido apenas por dois agentes. A comuna anarquista não sofre qualquer tipo de oposição e só desperta admiração dos jornais e das elites políticas.

É demasiado sol, luz e iluminismo. Um pouco mais de sombra não teria feito mal à noveleta. Por minimizar artificialmente os conflitos que seriam politicamente inevitáveis, sua trama acaba por se mostrar a mais fraca e menos convincente do conjunto – mesmo se também é a mais próxima do ideal da “história alternativa”, ao dispensar elementos de fantasia e partir de invenções teoricamente possíveis e tecnologias de fato acessíveis à época da divergência postulada. É uma comprovação interessante de que plausibilidade científica e tecnológica não basta para conferir verossimilhança literária.

Tramas com muito conflito e violência, mas alguma abertura para possibilidades positivas, como as de Jorge Candeias e Octavio Aragão, demonstraram um meio-termo mais bem-sucedido. Outras, apesar de abusar do terror, do fantástico e do pessimismo, também acabam por ser mais satisfatórias, ao menos como entretenimento. Aparentemente, o forte da especulação brasileira está mesmo na percepção da “nuvem negra” de Larry Nolen. É curioso, pois essa mesma percepção estava bem clara em The Difference Engine, o romance de William Gibson e Bruce Sterling que definiu o steampunk como gênero. Serão os autores brasileiros mais fiéis ao seu espírito que britânicos e estadunidenses?