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Cultura

Crônica do Villas

Vale a pena ser poeta

por Alberto Villas publicado 14/03/2013 10h37, última modificação 14/03/2013 10h37
Ainda gosto de poesia e me sinto meio solitário nesse mundo de Twitter. Tenho a impressão de que ninguém mais tem paciência ou saco pra ler

Sempre que acabo de ler um livro de poesia, como agora acabei o Toda Poesia de Paulo Leminski, eu me lembro que um dia também fui poeta. Sim, poeta publicado inúmeras vezes no Suplemento Literário do Minas Gerais, no Versus, no Vapor. Hoje, essas páginas amareladas e cheirando a mofo estão escondidas a sete chaves num baú de madeira pra ninguém ler.

Escrevia poesias concretas ou não. Umas tinham até gostinho de samba tipo Martinho da Vila.

Todos os amores

Que passaram por meu corpo

Deixaram cicatrizes profundas

Oriundas

De noites de orgia e loucura

Noites puras

Que deixaram essas marcas

Mas fecharam as feridas

Da minha alma

Imunda

 

Ainda gosto de poesia e me sinto meio solitário nesse mundo de Twitter. Tenho a impressão de que ninguém mais tem paciência ou saco pra ler poesia. Adoro reler Drummond, Augusto dos Anjos, João Cabral, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Cora Coralina. Adoro também os hai-kais, poesias curtas como Tatame-o ou Deite-o que redescobri no livro do meu caro Lema.

 

De colchão em colchão

Chego à conclusão

Meu lar é no chão

Ou então aquela que indaga simplesmente:

Saber é pouco

Como é que a água do mar

Entra dentro do coco?

 

Gosto de poesias recicladas que resultaram em canções belíssimas como fizeram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, isso que eu me lembro agora.

Nos anos 70, Caetano foi buscar lá no nordeste de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, nos versos de Paraíba, sua inspiração para compor Terra. O que era:

 

Hoje eu mando um abraço

Pra ti pequenina

Paraíba masculina

Muié macho sim sinhô

 

Virou:

 

Na vertigem do cinema
Mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba

 

Também nos anos 70, Gilberto Gil foi buscar no Banho de Lua dos anos 60, na voz de Cely Campelo, sua inspiração para Retiros Espirituais. O que era:

 

Tomo um banho de lua, fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
É tão bom sonhar contigo, oh! Luar tão cândido

 

Virou:

 

Retirar tudo o que eu disse, reticenciar que eu juro
Censurar ninguém se atreve
É tão bom sonhar contigo, oh, luar tão cândido

 

Nos anos 2000, Tom Zé viajou até a Inglaterra dos Beatles para compor o seu Roquenrol. O que era:

 

Obladi, oblada,
Life goes on, bra
La la how the life goes on
Obladi, oblada
Life goes on, bra
La la how the life goes on

 

Virou:

 

Um roquenrol, obladi,
bem roquenrol, obladá
balada e soul, obladi,
tal como eu sou, obladá.

Pois é, só hoje de manhã ouvindo Dolores Duran que percebi aqueles versos de Qualquer Coisa do Caetano...

 

Não se avexe não
Baião de dois
Deixe de manha, deixe de manha, pois
Sem essa aranha! Sem essa aranha!
Sem essa, aranha!...

 

Veio lá dos anos 50 de uma canção de Chico Anisio e Haidée Paula:

 

Chega mais um bucadinho
Larga de me olhar
Encrenca num vai dá,
Somo di maió
Podi nem dar confusão
num se avexe, não
Casquinha é bom de se tirá
Embora aproveitar
A melodia do baião

 

Nesses tempos de braços decepados, dedos de silicone, aparelhos de respiração desligados, essa semana resolvi fazer um  passeio pela poesia para aliviar um pouco a dor. Lembrei-me então do velho e bom Jards Macalé da Rua Real Grandeza que, com sua voz rouca, garantia:

 

Ah Vale A Pena Ser Poeta
Escutar Você Torcer De Volta a Chave
Na Fechadura Da Porta
Abra Volte Veja
Sou Um Cara Sem Saída.