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Uma São Paulo chamada Libertà

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 20/06/2016 10h13
Romance de fantasia explora uma Pauliceia muito mais desvairada do que aquela que conhecemos

Autores como Neil Gaiman e China Miéville popularizam internacionalmente a fantasia urbana, gênero no qual o fantástico e o sobrenatural se enredam com a vida real em cidades modernas, ora reais, ora imaginárias, ora um meio-termo dessas duas possibilidades. Um interessante espécime brasileiro deste último caso é Exorcismos, amores e uma dose de blues de Eric Novello, publicado pela Editora Gutenberg (R$ 37,90, 336 páginas).

A obra pode ser lida como um exemplo sui generis de romance policial noir, com uma espécie de detetive como protagonista. Em uma São Paulo alternativa de nome Libertà, seres mágicos conhecidos como oníricos e feéricos convivem no dia-a-dia com humanos e tecnologia moderna, de maneira nem sempre pacífica. 

Uma organização de exorcistas, o Conselho de Hórus, investiga e policia os abusos e Tiago Boanerges foi um deles. Afastado da organização após um caso no qual se comprometeu de forma indevida e quase foi morto e em dificuldades financeiras, é convidado pelo ex-chefe a participar de uma investigação extraoficial que envolve sua antiga nêmesis, uma poderosa criatura sobrenatural conhecida como “musa” pela qual ele nutre emoções mais do que ambivalentes.

A descrição de Libertà é especialmente fascinante para quem vive na capital paulista. Os endereços, as ruas e a vida noturna são reconhecíveis, mas estão drasticamente transformados pela presença do sobrenatural.

Na esquina da Consolação com a Tietê da São Paulo real, há apenas um banal Bar Brejinho, mas na versão de Libertà existe uma Drinqueria Blues onde magos e salvaxes (lobisomens-guarás) bebem e dançam enquanto o gerente consulta seu laptop.

Nas vizinhanças da Praça da República, os usuários de crack foram substituídos por viciados em “cinedrona”, uma droga imaginária usada em combinação com realidades virtuais e nos hoteizinhos de prostitutas da zona, há a casa La Sombra, onde se paga por sexo com mulheres possuídas por entidades oníricas chamadas efrites.

A saída de emergência do Cine Lótus, versão local do prosaico Cine Belas Artes, leva a um portal para o Entremundos, um misto de limbo e País Através do Espelho que conecta diferentes planos da realidade. Mas talvez o mais fantástico seja que no lugar dos fedorentos esgotos a céu aberto conhecidos como Tietê e Pinheiros existam belas hidrovias cercadas de parques e navegadas por iates e catamarãs.

Nem só de mistérios e ambientes intrigantes vive o enredo. A história de vida, os amores e as amizades compõem um retrato convincente e às vezes comovente do frágil, corajoso e simpático Tiago Boanerges em sua luta para sustentar sua decência em meio a um mar de corrupção e de perigos físicos e sobrenaturais.

Tem como ajudante e pupila uma jovem necromante nipo-brasileira chamada Julia Yagami e para quebrar um clichê comum em enredos do gênero, ela é uma aliada, amiga e parceira a toda prova, mas não uma amante. Não que Tiago seja um adepto da castidade. Bissexual, protagoniza uma escaldante cena erótica a três com a vocalista e o guitarrista de sua banda favorita.

O maior reparo a fazer ao romance está na conclusão. O percurso é fantástico, os personagens cativantes, mas o final fica aquém da expectativa. O confronto definitivo é mais artificial e menos interessante que a maioria dos conflitos secundários que o precedem e a etérea antagonista se mostra bem menos poderosa e instigante do que se anunciava.

Entretanto, para quem sabe que mais importante do que a chegada é o caminhar, a experiência de conhecer esse duplo da Pauliceia Desvairada e seus incríveis habitantes é recompensa suficiente.

Leia um trecho:

Na porta de entrada, a pintura colorida de um crânio – com sóis no lugar dos olhos e um falcão de asas estendidas no centro da testa – o encarava como um guardião. Batizada de “absentia”, levava a assinatura de uma velha amiga da família. Era uma imagem simbólica, que lhe dizia muito, e por isso podia usá-la como uma aegis, uma proteção.

O exorcista espalmou os sóis e se concentrou nas defesas criadas por ele simultaneamente às pinceladas dadas sobre a madeira, verificando se ainda estavam íntegras. Aquele cômodo era seu refúgio psicológico e físico, um bunker em caso de um confronto com oníricos que não pudesse lidar.

Assim que entrou na sala e acendeu as luzes, ouviu um miado manhoso. Ori vinha pelo corredor como um gato normal, pé ante pé, em sua direção. Sentia-se atraído pelo lugar, curioso para desvendar a parte da casa que lhe era proibida, já que a magia de proteção impedia a sua passagem e a de qualquer outro habitante do mundo dos sonhos.

“Sinto muito, rapaz. Os brinquedos aqui são caros demais para você jogar no chão”.

Ori interrompeu o passeio e se sentou, olhos fixos no dono. Tiago esperou um miado de reclamação que não veio. Fez shhh mandando-o voltar, mas, em vez disso, o gato desapareceu. Se tivesse de apostar, diria que ele estava ali, no mesmo lugar, mirando-o com seus olhos negros.

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