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Uma odisseia marxista

por Orlando Margarido — publicado 01/08/2011 13h33, última modificação 05/08/2011 13h43
A ambiciosa proposta do cineasta russo Sergei Eisenstein de filmar O Capital é retomada pelo alemão Alexander Kluge em um documentário de nove horas, lançado no Brasil pela Versátil. Por Orlando Margarido
Uma odisseia marxista

A ambiciosa proposta do cineasta russo Sergei Eisenstein de filmar O Capital é retomada pelo alemão Alexander Kluge em um documentário de nove horas, lançado no Brasil pela Versátil. Por Orlando Margarido

Numa preciosa entrevista que Jean-Luc Godard concede a Alexander Kluge no curta-metragem Amor Cego (2001), este o questiona sobre qual seu filme mais curto e qual o mais longo. Sobre o primeiro formato, o cineasta francês faz graça, diz que seria o pior e que poderia cortá-lo tanto quanto possível. No que diz respeito ao segundo formato, Godard cita que é sempre o mais recente, pois não se consegue parar, não se consegue terminá-lo. “Como a segunda parte vem após a primeira, de fato o filme apenas termina ali onde começou. Como já começara uma hora antes, então volta ao início, à moda dos contos de Borges.” Decerto o escritor argentino apreciaria a noção cíclica de Godard, seguida por Kluge. O diretor alemão realizou, sete anos depois daquele encontro, Notícias de Antiguidades Arqueo-lógicas – Marx, Eisenstein, O Capital (Versátil, R$ 72,80), uma produção documental de nove horas e meia que é prova legítima da crença cega de um pensador por um tema que deseja esgotar. Neste caso, o de duas- -crenças, uma embutida na outra.

Como é possível deduzir do subtítulo do filme, agora lançado em DVD na versão integral pela Versátil, a pretensão não se mostra modesta. A tríade ali representada responde pela proposta de Kluge, um dos nomes renovadores do cinema alemão nos anos 60, de retomar a ambiciosa ideia do cineasta russo Sergei Eisenstein de filmar O Capital. O autor de clássicos como O Encouraçado Potemkin (1925) e Outubro (1927), por sua vez, não sustentava o desejo numa estrutura narrativa, digamos, convencional, já que a ousadia cinematográfica ele já dominava. Queria formatar sua adaptação do que o tempo sugeriu ser inadaptável ao cinema à luz de outro clássico, agora literário, o Ulisses, de James Joyce. Se este adotou o contexto épico de Homero para contar, num fluxo de consciência, um único dia na vida do personagem Leopold Bloom, Eisenstein faria o mesmo renovando o protagonista por um casal de operários metido no turbilhão da era industrial. Com mais evidência na mulher do que na figura masculina.

O mesmo processo de reordenação faz Kluge em seu filme, conferindo-lhe ares atuais. Seu princípio, quando da realização em 2008, partiu da impactante crise econômica daquele ano, alimentada pelo estouro do sistema de especulação do crédito e bancária. Esse momento, para ele, seria tão emblemático quanto o operado por situações como a Revolução Industrial e a quebra de 1929 na Bolsa nova-iorquina. Não só para ele, como para Eisenstein, este sim uma testemunha desse último episódio definidor para que o projeto de filmar O Capital não conquistasse nenhum interesse, seja de produtores franceses, seja de soviéticos. Ao alinhavar esses dois períodos, Kluge espelha o próprio interesse pela obra capital da filosofia econômica no sonho não realizado pelo russo em filmá-la.

*Leia a matéria na íntegra na de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 5