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Cultura

Crônica do Villas

Uma mensagem no celular

por Alberto Villas publicado 18/04/2013 14h14, última modificação 18/04/2013 14h14
Recebi uma mensagem ppor engano: a moça pedia perdão. Avisei que era engano. Até hoje espero sua resposta
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Foto: Ministerio TIC Colombia/Flickr

Nos anos 1940 o meu pai deu a maior pisada de bola da sua vida. Um dia ele escreveu duas cartas, uma para a namorada firme, quase noiva, que virou minha mãe, e uma para Dolores, a ficante, que na época era chamada de “a outra”. Eram cartas apaixonadas, perfumadas, cheias de juras de amor, escritas em papel de seda destacadas cuidadosamente de um bloco Aviador.

O pecado do meu pai foi colocar as cartas em envelopes trocados. A da minha mãe foi endereçada a Dolores e a da Dolores acabou nas mãos de minha mãe. Fico imaginando a cara que minha mãe deve ter feito ao abrir o envelope e começar a ler a carta do meu pai endereçada a querida e formosa Dolores.

De Dolores nunca mais se teve notícias, mas de Maria Elisa sim. Viveu feliz para sempre com o marido, teve com ele cinco filhos e passou a vida contando pra Deus e o mundo – e com graça – essa trapalhada do meu pai. Uma história que virou folclore na família, motivo de boas gargalhadas sempre.

Cartas não existem mais. Ontem piscou aqui no meu celular uma longa mensagem que transcrevo a seguir, respeitando a ortografia de mensagens pelo celular, aliás, msg pelo cel. A ausência de acentos, vírgulas fora do lugar, falta de pontos finais, todas essas coisas foram mantidas:

“Ô lindo, desculpa ñ to entendendo m/n, eu apenas respondi c/liberdade que temos de que tava tarde e tenho dentista amanha cedo, fui sincera sem dor, mas agora pelo s/ tom de voz fiquei preocupada, vc tem algo serio p/me falar, achei que era só p/esticarmos a noite de papo, mas faz assim, vamos tomar um café lá pelas 17ou hora que quiser! Poxa, ñ fale assim, esse é o seu jeito, mudei muito depois de nos separarmos, não fique c/ imagem boba de mim não? Se vc tiver baladinha com a turma amanha podemos até jantar só nos 2 se quiser. É do fundo do coração, ñ sei o que te fiz ou falei! Perdão m/n. Puxa tenho mto amor e respeito por vc, se tem algo engasgado, temos que conversar! Tudo bem amanhã. Tudo bem amanha? Bjinhos e vá já pra casa dormir! Beijos.”

O meu coração ficou mole, quase partiu quando acabei de ler a mensagem ainda iluminada no celular. Imediatamente recuperei o telefone da remetente e mandei o seguinte recado:

“VC MANDOU MSG POR ENGANO PARA O MEU CEL. BOA SORTE.”

Instalou-se silêncio.

Não tive mais notícias e a história por enquanto ficou nisso, parou por aqui. Espero que ela tenha reenviado o recado para ele atualizando dia, hora e local de um possível encontro para um papo, um olho no olho, quem sabe uma volta? Mas confesso que ainda estou aqui curioso esperando um sinal de vida dela e torcendo para que os dois sejam felizes para sempre. Juntos ou não.