Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Uma integração jovial

Cultura

Bravo!

Uma integração jovial

por Redação Carta Capital — publicado 20/03/2012 14h55, última modificação 20/03/2012 14h55
Saiba tudo sobre o novo CD de Marina de La Riva e também sobre 'Minha Formação', livro de Joaquim Nabuco
idilio

Idílio, novo disco da cantora Marina de La Riva, estabelece relações da música brasileira com a latinidade

Tal como o Mercosul anda aos tropeços, não são fluidas as relações com a latinidade musical no País, mais afeito ao sotaque anglo-americano do rock, funk e rap. Carioca, filha de mineira e cubano exilado, a cantora Marina de la Riva protagoniza uma espécie de elo entre as culturas apartadas desde o disco de estreia, em 2007. Intitulado com uma palavra comum aos dois idiomas, Idilio, cinco anos depois, prossegue neste viés integracionista, mas sem didatismo. São nove faixas em espanhol e cinco em português, com saudável assimetria nas escolhas e abordagens. Como o rock Estúpido Cupido, de Neil Sedaka, estouro da pioneira Celly Campelo, num delicioso figurino rumbeiro, providenciado pelo pianista e arranjador cubano, radicado em São Paulo, Pepe Cisneros. Ausência, esquecido samba de Maria Medalha e Vinicius de Moraes, de 1972, vira bolero. E a síncopa da bossa vinca Como Duele Perder-te, êxito da salseira pop Gloria Stefan.

Cubano premiado com o Grammy no ano passado, Amaury Gutierrez fornece a bailarina Voy a Tatuarme.

O tres cubano de Papi Oviedo e o baixo de Fabián Garcia formado na orquestra de Enrique Jorrin, papa do chachacha, encordoam a candente Canción de las Simples Cosas, gravada em Havana, em 2009, no Festival de Boleros de Oro.

O lado brasileiro de Marina palpita num arrebatado Assum Preto, marco de Luiz Gonzaga, e na repescagem de antigos sambas como Deixe Que Amanheça (Oswaldo Santiago), êxito de Emilinha Borba, de 1949, e Juracy (Antonio Almeida/ Cyro de Souza), gravado por Roberto Silva, em 1958. Épocas e distâncias encurtadas pela cálida e jovial Marina de la Riva. – TÁRIK DE SOUZA

 

 

 

 

 

LIVRO

Abolição e monarquia

MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
34, 288 págs., R$ 46

O mais progressista entre os intelectuais provenientes das elites agrárias do Brasil na segunda metade do século XIX, o pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910), também o mais importante entre os abolicionistas, sonhava que o Brasil se tornasse uma monarquia semelhante à britânica, federativa e democrática. Segundo revela em Minha Formação, obra agora republicada com apresentação de Alfredo Bosi, uma de suas principais influências foi o legendário economista, escritor e jornalista inglês Walter Bagehot (1826-1877), dono e iretor da revista The Economist de 1860 até sua morte, e deu as feições que esse prestigioso semanário tem até agora.

Nabuco, um dos poucos elementos das elites nacionais de que se pode falar com orgulho de sermos seus compatriotas, começa o livro falando de sua formação política como adulto, seguindo as regras do liberalismo político. Repentinamente, relata a colorida infância em meio aos escravos do Engenho Massangana, em páginas evocativas e algo melancólicas, ensolaradas e doces. Logo focaliza sua atuação contra o escravismo, o qual em sua visão marcaria ainda o Brasil durante muitas décadas depois da Abolição, o que ainda procede. Mas permanece a pergunta: por que tantos abolicionistas brancos, como Nabuco, e negros, como André Rebouças, eram monarquistas e se deram mal com a proclamação da República? – RENATO POMPEU

 

 

LIVRO

Salvo pelo humor

AS COISAS
Georges Perec
Companhia das Letras,
120 págs., R$ 32

G

eorges Perec, integrante do movimento literário Oulipo, cuja biblioteca é medonha, foi salvo por uma energia involuntária, seu senso de humor. Com exceção de W, sobre a vida em campos de concentração, sua obra é marcada pelo humor constrangido.

Pegue-se As Coisas, de 1965: era para ser um estudo da alienação de um casal diante da voragem capitalista dos anos 1960. O que As Coisas é: uma comédia em que um casal compra objetos para se integrar ao mundo, mas se aliena no processo.

O humor nasce do fato de que Perec leva sua intenção de crítica ao capitalismo a sério (o livro termina com uma citação de Marx), mas os objetos, símbolos opressivos, tornam-se humanos e vivazes. A Vida – Modo de usar é a história de um apartamento,  A Coleção Particular, de um quadro. Maio de 1968 traria a irreverência estética que, caso Perec não houvesse se revelado tão precoce, teria feito genial sua obra geniosa. – VINICIUS JATOBÁ

 

registrado em: