Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Uma fórmula de sucesso

Cultura

Sócio Capital

Uma fórmula de sucesso

por Coluna do Leitor — publicado 22/11/2010 09h58, última modificação 06/06/2015 17h28
O leitor Christian Gilioti escreve sobre tradição, fascínio e publicidade no novo filme de José Padilha o "Tropa de Elite 2"

Por Christian Gilioti

Tradição, Fascínio e Publicidade em "Tropa de Elite 2"

Entre as causas óbvias do recorde de bilheteria de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (em 15 de novembro, atingiu a marca de 9,6 milhões de espectadores) está o fato da esmagadora maioria do público, enfaticamente, considerá-lo superior ao primeiro Tropa de Elite. É curioso no entanto que tal convicção se apóie, em parte, na ideia simplista de que por ser aparentemente menos violento, o novo filme garantiria qualidade de mais crítico e inteligente.

Levando-se em conta o caráter genérico e superficial – embora convicto – dessa avaliação, pode-se dizer que ela se assemelha um pouco a certos tipos paradoxais de pensamento. Por exemplo, aquela crença “científica” de que a Coca-Cola Zero é melhor e mais saudável que a original: o sabor seria quase o mesmo, enquanto as consequências advindas pelo consumo mudariam de acordo com o produto...

O exemplo, um tanto inadequado, faz pensar sobre a distância entre o que se acha e o que realmente se sabe. É bem provável que as vendas da Coca-Cola “verdadeira” sejam infinitamente maiores que as da versão light. Talvez seja essa uma das principais diferenças entre o filme e o refrigerante. De resto, fica a impressão de que Tropa de Elite 2 consolida de maneira espetacular uma fórmula de sucesso. E essa magia merece alguma reflexão.

A Marca do Nome

Após o lançamento do filme, sobraram aparições de Wagner Moura e José Padilha pela mídia (seja impressa, radiofônica, televisiva ou virtual). Em tese isso seria positivo; a exposição intensiva supostamente ampliaria, cada vez mais, a troca de ideias sobre o filme e seus possíveis caminhos de interpretação. Não foi, todavia, o que ocorreu. Mais do que o artista (seja o ator ou o roteirista e diretor), quem decisivamente marcou presença, em ambos os casos, foi a figura do produtor.

É bom frisar que circunstâncias como estas, em que o marketing vence a reflexão, não constituem nenhuma novidade. O filósofo alemão Theodor Adorno chamava atenção para este fenômeno já nos fins da década 40 quando, junto a Max Horkheimer, substituía o termo “cultura de massa” por indústria cultural. Na época, tratava-se de reconhecer o caráter nada espontâneo, hierarquizado e altamente dirigido da produção em larga escala de valores culturais – sejam eles de repercussão estética, moral ou política – que, devidamente mobilizados, transformavam as massas em consumidores manipuláveis e potencialmente lucrativos: “Quanto mais firmes se tornam as posições da indústria cultural, mais sumariamente ela pode proceder com as necessidades dos consumidores, produzindo-as, dirigindo-as, disciplinando-as e, inclusive, suspendendo a diversão: nenhuma barreira se eleva contra o progresso cultural”. É claro que, na visão dos filósofos, a expressão “progresso cultural” é apenas uma ironização da verdadeira alma do negócio: o lucro. Nesse campo, publicidade, mídia e cinema, em atividade orquestrada, constituíam uma importante frente de mobilização.

Levando-se em conta que, passados mais de sessenta anos, as coisas não apenas não mudaram como, definitivamente, “progrediram”, é inevitável que movimentações próprias da indústria cultural repercutam ou sejam reconhecidas intensamente em Tropa de Elite 2. O debate foi substituído pela promoção, destrutiva de toda possibilidade de discussão artística – além de desfigurar por completo a função pública da imprensa como meio de comunicação. A singela aparição em determinados espaços da mídia (muitos deles especializados em transformar pedra em ouro) fazem de Wagner Moura e José Padilha produtos muito maiores do que a mente humana é capaz de imaginar. Para sobreviver ao processo, torna-se inevitável “adoçar” a mídia que, em contrapartida, retribui o gesto. Tanta “doçura” chega a lambuzar, pois na realidade, não interessa muito o quê é dito ou como é dito, mas apenas o simples fato de estar dizendo. Quanto mais o nome do produto circular na mídia, melhor.

Se é esta a regra do jogo, Tropa de Elite 2 foi hors concour. Enquanto fenômeno midiático atingiu patamares nunca antes vistos. Graças à notoriedade conquistada pelo filme – e simbioticamente, por seus produtores – tornou-se quase impossível ponderar sobre o mesmo. E desde já, é importante compreendermos que este fascínio não apenas se restringe a recepção fanática do público (e de boa parte da crítica especializada). Basta um pouco mais de atenção e nota-se que há um profundo estado delirante se realizando em todas as esferas que compõe o filme enquanto produto cinematográfico – por assim dizer, dominando de ponta a ponta, desde a verdadeira mega-operação de segurança “anti-sequestro” (dos rolos do filme!), até, especialmente, a forma estética do mesmo.

Quase ninguém duvida da extraordinária capacidade do ator e da comprovada competência do roteirista e diretor. Todavia, o que explica a febre coletiva em torno do filme? E mais: a boa atuação de Wagner Moura, o fato de dominarem a mídia – e neste caso, pouco importa se é o ator, o diretor ou o slogan –, o sucesso de bilheteria, ou a somatória de todos estes fatores, bastam para tornar Tropa de Elite 2 uma grande obra de arte?

Em se tratando de um novo filme, cuja trama, supostamente, amadurece a visão sobre a realidade das favelas cariocas e o problema da segurança pública, por sua vez, atrelada à corrupção política em sociedade com as milícias; enfim, se o inimigo agora é outro, por que o título é o mesmo? Insistir na expressão Tropa de Elite, acrescida do número dois, escancaradamente não realiza, já no nome, o típico clichê dos filmes americanos? Falta de criatividade, crença “científica” no poder da marca, ou as duas coisas?

Há indícios no próprio título de que talvez o projeto não fora, predominantemente, artístico. E encontra-se aí, quem sabe, um importante ingrediente da fantástica fórmula de Tropa de Elite 2: trata-se do trabalho hard e full time de seus produtores, o corpo-a-corpo com o público e a mídia que, somados à alguns 4 milhões de reais – investidos apenas no lançamento – constituem parte do que se poderia chamar de preço do sucesso. Talvez por ironia do destino – talvez não – a estratégia empresarial guarda, ainda que discretamente, alguma afinidade com o Bope (no caso, o real, não o cinematográfico): na dúvida atira-se para todos os lados, afinal, o nome da marca precisa estar em todos os lugares...

Em que pese as significativas transformações pelas quais o país atravessa, ainda há quem encontre resquícios do legendário complexo de “vira-lata” nacional. Em vias de superação – ou não – o fato é que Tropa de Elite 2, para muitos críticos e estudiosos do cinema, arrebentou de uma vez por todas o velho paradigma que desde sempre assombrava os cineastas brasileiros: a pecha de cinema amador e economicamente inviável. Nunca antes na história desse país, de modo tão avassalador, nascera um cinema tão crítico e profissional, de ampla repercussão e com cifras de porte estrangeiro?

No que se refere ao profissionalismo, à repercussão e às cifras, sim. Quanto ao aspecto crítico, depende da avaliação. Se a sétima arte cede muito à publicidade, é por que o país ainda claudica na formação de um público massivo que legitime seus artistas?  Exagerando na dose, tal conduta não deixa de explicitar uma grave intenção que subestima a inteligência do público – reduzido à condição de mero consumidor. Provavelmente os produtores já sabiam que, aos montes, a massa invadiria os shoppings centers em direção às salas de cinema com a mesma prontidão de um cão adestrado, inteiramente condicionado, quando obedece ao chamado do dono que lhe ordena: “junto”!

Caveira

Dimensionar totalmente os resultados da bilheteria de Tropa de Elite 2 a partir do inédito – e vultuoso – empenho de seus produtores é tão reducionista quanto costuma ser o “cientificismo” mágico dos gurus do marketing. Existem outros importantes elementos que compõem a fantástica fórmula de sucesso, dentre os quais – provavelmente o principal – destaca-se a forma estética.

Há pouco, foi mencionado certo delírio na condição de princípio formal do filme. Trata-se da perspectiva narrativa dominante. Quem viu Tropa de Elite 2 certamente se recorda que a história começa, “para valer”, na hora da morte. Nascimento, depois de deixar o hospital, tem seu carro cravejado de balas por um considerável número de algozes não identificados. Esse registro é paralisado e predomina durante boa parte do filme, visto que a partir desse instante os fatos resgatados do passado serão enfileirados, um a um, até o momento derradeiro.

Quase toda a trama é conduzida pela rememoração de Nascimento, espécie de fio condutor limítrofe entre a vida e a morte. Estabelecido o pólo de tensão inicial, a história volta ao passado, reconstitui os fatos, e embora cíclica, corre linear, em clima de guerra e conspiração. Configurada pela montagem – e não pelo roteiro em si – a experiência é intensivamente automática. As cenas vão surgindo e desaparecendo em tomadas curtas e “grossas”, frenéticas, impondo uma espécie de transe, como bem descreve o renomado cineasta Eduardo Escorel, em belo artigo sobre o filme intitulado A pausa que diverte.

Esse modelo – um pouco vídeo-clipe, um pouco bang-bang – se legitima pelo ritmo acelerado, convencional e pragmático das imagens, dos enquadramentos, da trilha sonora... Nesse aspecto, o filme é uma reprodução moderna e bem sucedida do bom e velho action movie hollywoodiano. Entretanto, há também outro recurso, a “consciência” de Nascimento, materializada na voz da personagem. Em off, ela comenta sistematicamente cada desenvolvimento da trama, dirige o espectador, orientando sua percepção sem deixar margem para interpretações livres; um bombardeio de ideias prontas, rasas, declaradamente vulgares, recheadas de preconceito e ressentimento. È nessa vala que descansam equações como: direitos humanos servem apenas aos bandidos; intelectual de esquerda é igual a maconheiro de classe média defensor de bandido; não há pior humilhação a um pai que ver seu filho seguindo os passos do padrasto; policial honesto é “caveira” (do Bope) – e só “caveira”! – entre outras.

Mas não se deve esquecer que o perfil extremista da personagem resulta de uma decisão do diretor (roteirista e produtor). Embora consciente, é provável que a escolha tenha surgido menos como proposta artística e mais como efeito de uma série de expedientes de outra ordem. O próprio Escorel sugere que, talvez, para evitar possíveis riscos de perda de empatia com o público, “Tropa de Elite 2 escolheu jogar para a platéia e foi amplamente recompensado”. Criação artística ou concessão ao gosto do freguês, o fato é que o maniqueísmo moral de Nascimento é parte constitutiva da narrativa, e portanto, do ponto de vista da análise formal, não deve ser subestimado.

A fusão do pragmatismo da filmagem mais o dirigismo moralizante presente na consciência narrativa contribui sobremaneira para o aprisionamento do espectador que, de um lado, acompanha em transe a aventura hollywoodiana e, de outro, a todo instante se vê pressionado a interpretá-la com os olhos, o coração e a razão da personagem principal. Nascimento, com essa combinação, tem sua supremacia duplicada sobre o espectador, e o efeito é uma permanente inquietação que – segundo as palavras do próprio José Padilha – não pode ser interrompida durante o filme, até porque o mesmo fora propositalmente construído sem pausas para reflexões ou inferências morais. No limite, o curto-circuito estaria no antagonismo produzido pela promessa de raciocínio – tácita nas intervenções em off e “reflexivas” de Nascimento – a todo momento frustrada pelo ritmo violento e acelerado das imagens (ação) que exigem adesão absoluta por parte do espectador. Assim, o olhar produzido pelo filme, em última instância, é necessariamente um olhar submisso e vidrado.

Poder-se-ia argumentar que para além desses recursos, há também as informações e signos encarnados nas outras personagens, na dinâmica da trama e, raramente, em metáforas visuais. Supostamente realistas, e por vezes alegóricas, agiriam como distensoras do ponto de vista hegemônico e parcial de Nascimento. Seria o caso da divulgação dos dados estatísticos sobre a evolução do número de presos no Brasil, das incontáveis “indiretas” aos seres habitantes do mundo real carioca, incluindo figurões da política, da mídia, do tráfico e das milícias, ou mesmo da panorâmica final sobre o Palácio do Planalto. De acordo com essa perspectiva, o tom irônico presente no filme seria o responsável por conferir-lhe um lado mais “cabeça” ou “provocador”.

Tal hipótese é equivocada, por dois motivos: primeiro, porque desloca o periférico para a posição central; segundo, porque toma os temas abordados como valores em si, desconectados da forma – isto é, do ponto de vista, da maneira pela qual foram abordados. Embora repetitivo, vale ressaltar que é na montagem, muito mais que no roteiro, que o cinema se realiza. E, ao que tudo indica, o produto final de Tropa de Elite 2 foi um transe automatizado que muito pouco – ou quase nada – beneficia ao exercício da reflexão por parte do espectador.

Contudo, há nesta forma certa coerência estrutural que implica uma única lógica aplicada em três níveis: 1) as atitudes de Nascimento prevalecem porque extrapolam todos os limites – em especial, o medo da morte; 2) isso explicaria o fato de sua consciência, privilegiada porque absolutamente senhora de si mesma, legitimar-se sobre a do espectador – este sim, temente à morte; 3) além da voz off, essa legitimidade se instaura na montagem alucinadamente mecânica que mimetiza a formação física e subjetiva de Nascimento, Tenente-Coronel do Bope, treinado para suportar situações-limite exatamente como uma máquina. A lógica, portanto, é a da superação fetichizada e tecnocrática da morte: excepcionalmente sedutora e sobrehumana, ela hipnotiza o espectador e, durante o transe, faz nele o que bem entende.

Ressurreição

De boas intenções o inferno está cheio. O dito popular reproduz perfeitamente a contradição de Nascimento: cristalino nos princípios, o comandante permanece errante no turvo caminho de suas ações. As consequências oscilam das brandas às irreversíveis. Como exemplos, bastam o divórcio, a rejeição do filho ou a própria morte de Matias; direta ou indiretamente, todos podem ser vistos como efeitos das atitudes do protagonista. Não por acaso, e em todos os momentos, há sempre um sentimento de culpa que, mesmo difuso, o acompanha como um fiel escudeiro.

Além disso, a perspectiva redutora que atira no mesmo saco política, mídia, polícia, milícia e tráfico, no limite, acaba por revelar um ceticismo caricatural. Contudo, observando com mais cuidado, nota-se que ao invés de criar distância, esse rancor tende a produzir simpatia. A existência de Nascimento está em completo desajuste com o curso do mundo. Os laços familiares em ruínas coroam a total ausência de sentido na vida. Até o Bope perde sua aura sacrificial e messiânica aos olhos da personagem. E essa condição deslocada, na medida em que se mostra incapaz de entortar a retidão moral da personagem, transforma-se em poderoso elemento heróico, diferenciando-a de tudo e de todos, conferindo-lhe brio e firmeza insuperáveis.

Embora contingente, o movimento que leva Nascimento à condição de Subsecretário de Segurança Pública, inicialmente, parece até encantar. Mas as aparências enganam. Pouco tempo é necessário para que, de dentro da parafernália tecnocrática e paranóide da Secretaria de Segurança do Estado, vendo tudo de cima e registrando tudo por baixo, ele receba o derradeiro sinal de confirmação daquilo que soubera desde sempre: a vida é refém do mundo, e este, uma imensa máquina de mentiras e frustrações.

Neste caso, de fato, a culpa é do sistema; mas não somente o exterior, que organiza a malha das relações sociais, econômicas e políticas, como também o interior, que define a subjetividade esfacelada de Nascimento e o transforma em autômato. Sua percepção é codificada em padrões imutáveis e inquestionáveis. E o que já fazia parte do “sistema perverso” de sua consciência torna-se ainda mais agudo depois da experiência nos meandros da tecnocracia estatal – em meio a toda sorte de grampos e arapongagens.

Juntando o que foi dito à (ir)realidade absoluta dos efeitos especiais e das aptidões fantásticas que caracterizam a personagem, por sinal, dignas de um Capitão América nos tempos áureos do gibi, temos o terceiro ingrediente da eficaz fórmula do sucesso de Tropa de Elite 2: a construção de Nascimento como o herói que espelha e nivela “para cima” os fracassos e os anseios da platéia – em larga escala, consumidora e ao mesmo tempo zeladora daquilo que Escorel, no artigo já citado, define como “valores arraigados de classe média que formam o caldo de cultura de regimes ditatoriais”.

Aqui se faz necessária uma ponderação sobre a história. E se é verdade que ela se repete em tragédia ou farsa, como Marx acreditava, os estudos de Walter Benjamin sobre a literatura alemã, logo após a 1ª Guerra Mundial, constituem importante testemunho. Pouco antes de Hitler assumir o poder, Benjamin já antevia a marcha fascista avançando em passos largos e penetrando no interior da cultura. Em ensaio intitulado Teorias do Fascismo Alemão, no ano de 1930, ele analisa a construção ficcional e idealizada de um tipo heróico recém-nascido na literatura alemã. Mais especificamente na coletânea Guerra e Guerreiros, organizada por Ernest Jünger, e que em síntese consistia num apanhado de relatos mirabolantes que descreviam os sangrentos combates travados durante a Grande Guerra.

Banhadas por uma espécie de “misticismo bélico”, as histórias resgatavam e ao mesmo tempo modernizavam o antigo guerreiro germânico; substituíam a tradição pela máquina, e não por acaso, identificavam o herói não apenas ao avanço técnico e industrial, mas sobretudo ao operário alemão – fundindo a figura do trabalhador com a do soldado. As consequências são diversas, sendo a mais destacada, o processo de preparação das massas para o totalitarismo que estava por vir.

Guardadas as devidas proporções e feitos alguns ajustes, é patente a afinidade entre o herói bélico de Jünger e o Tenente-Coronel Nascimento. Milimetricamente talhado nos fartos brainstormers das coberturas do Leblon, o novo líder nacional, quando projetado na tela, se transforma imediatamente em alter ego. Ele coagula todo ressentimento e angústia que atravessa o traumatizado inconsciente das camadas médias brasileiras – por natureza, inseguras e vacilantes. Repleta de espinhos, a pressão vem tanto de baixo como de cima, do alto da indiferença das elites assim como do baixio cruel, ruidoso e aterrorizador do mundo do crime. Mas o herói jamais abandonaria sua classe sangrando na guerra. Em chave hipnótica, cicatriza as feridas, promete vingança e, se não a cumpre em toda a sua plenitude, pelo menos realiza alguma desforra – sem exigir o menor esforço da platéia, que se diverte.

Não restam dúvidas de que a guinada de Tropa de Elite 2 contribui para ressuscitar uma parcela do tradicional conservadorismo brasileiro que há algum tempo parecia (ou fingia?) descansar em paz. Nascimento é o simétrico oposto do clássico anti-herói tupiniquim; ele encarna a Lei, figura como uma espécie de implante norte-americano que promete ordem e eficiência – talvez, um pouco à maneira como os militares tomaram o poder em 64.

Aliás, impossível resistir à tentação de mencionar a cena em que o herói depõe e discursa na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Associada à última tomada do filme que, placidamente, sobrevoa Brasília, temos mais uma manifestação atualíssima e enigmática de um paradoxo cada vez mais recorrente: a violenta desqualificação da democracia brasileira no exato instante em que, pela primeira vez, ela persevera por cinco pleitos consecutivos sem golpe, morte ou impeachment.

Quem sabe o infinito mal-estar de Nascimento, assim como de parte dos conservadores nacionais, tenha suas raízes em convicções ingênuas? Por exemplo, a completa ignorância de que, do ponto de vista econômico, atualmente pouco importa se no âmbito do Estado as coisas acontecem com corrupção ou lisura, autoritarismo ou pluralidade. Como diz Bauman, “as políticas do Estado capitalista, ‘ditatorial’ ou ‘democrático’, são construídas no interesse e não contra o interesse dos mercados; seu efeito principal (e intencional, embora não abertamente declarado) é avalizar/permitir/garantir a segurança e a longevidade do domínio do mercado” ; ponto final.

A convicção absoluta de estar ciente de “tudo” pode, no entanto, descambar em preconceito, fúria e expiação. Nascimento é exemplo ficcional disso, e é bom relembrar que o herói e suas mazelas não configuram exatamente um Outro, em distância razoável.

Talvez seja o momento de tê-lo então como um tipo diverso de espelho: não o narcísico, revelador de encantos e virtudes, mas o crítico que, impiedoso, destaca todos os detalhes sem abrir concessões. Independente da consideração que temos pelo herói enquanto expressão coletiva – e em menor grau, artística – bem sucedida, é provável que muito do que se encontra assustadoramente explicito nele, de fato, esteja crescendo em investidas sorrateiras dentro de nós mesmos. E essa constatação, embora não sendo ingênua nem absoluta, tampouco é reconfortante.

C.G.

ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max; A Indústria Cultural: o Esclarecimento como Mistificação das Massas. In: Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 135.

ESCOREL, Eduardo. A pausa que diverte. In: Revista Piauí, nº50, edição de novembro de 2010. p.71.

Ibidem.

BENJAMIN, Walter. Teorias do fascismo alemão. Sobre a coletânea Guerra e Guerreiros, editada por Ernst Jünger. In: Obras escolhidas. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985a. p. 61-72. v. 1.

BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo Parasitário: e outros temas contemporâneos. Trad. Eliana Aguiar.– Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010, p.31.