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Uma antologia brasileira de futurismo conservador

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 28/07/2010 17h43, última modificação 28/07/2010 17h43
Mais conhecido como escritor de livros infanto-juvenis, Ivanir Calado também tem sido autor ocasional de contos de ficção científica

Mais conhecido como escritor de livros infanto-juvenis, romances de terror e do romance histórico A Imperatriz no Fim do Mundo (que inspirou a minissérie de tevê O quinto dos infernos), Ivanir Calado também tem sido autor ocasional de contos de ficção científica e fantasia. A antologia Anjos, Mutantes e Dragões (Devir, 292 págs., R$ 34,50) reuniu toda a sua produção nesses gêneros, originalmente publicada, de 1991 a 2000 em diferentes revistas e coletâneas.

Os contos variam quanto a temas, cenários, grau de maturidade e seriedade, embora sejam em média de boa qualidade. Todos mostram competência no uso da linguagem. Alguns poucos têm o ar de autoparódia que é comum encontrar em autores de outros gêneros que se aventuram na ficção científica, mas parecem ter o receio de parecerem menores se a levarem a sério. Outros mostram mais respeito pelo gênero e por seus leitores. O que mais faz falta é ousadia na especulação: na maioria dos casos, o fantástico apenas reafirma o senso comum (quando não os preconceitos) da classe média urbana.

O breve Paradoxo de Narciso, primeiro conto da antologia e o mais antigo (1991) é, nesse aspecto, a exceção mais interessante. Um inventor recebe a visita de si mesmo doze anos mais velho, pois no futuro conseguiu criar a máquina do tempo que apenas começava a intuir. Essa não era uma situação inédita na ficção científica, mas neste caso levou a um complicado caso de amor do protagonista por si mesmo e a uma solução inusitada do paradoxo.

O Refém, por outro lado, é um exemplo de conto preso demais ao imediato aparente para interessar como ficção especulativa. No início, parece um conto de ficção científica pulp no cenário de Star Trek ou Star Wars, mas logo se revela como fuga para o imaginário de Zeca, um adolescente de classe média. Capturado como refém em seu apartamento por dois assaltantes, adolescentes como ele, fantasia-se como um heroico Zack Mooner, capitão capturado em sua nave estelar por inimigos alienígenas. É de 1994, mas quase prefigura o orgulho nerd de anos mais recentes quando as fantasias do garoto acabam por lhe surgerir ideias mais ou menos praticáveis no mundo real. O problema é que o sequestro é narrado à maneira de um Datena, de maneira tão unilateral e sensacionalista que o leitor mais atento acaba por torcer para os bandidos (e, por tabela, para os alienígenas) para equilibrar o viés da narrativa.

Tia Moira é uma fantasia original. Uma senhora aparentemente cada vez mais obcecada por novelas a ponto de se desconfiar de sua sanidade demonstra uma estranha capacidade de prever seus lances em detalhes – e a novela, por sua vez, prefigura a vida do sobrinho favorito, cujo destino se vê cada vez mais reduzido a personagem da trama fiada e tecida pela tia solteirona. Quando decide enviá-la a um asilo, é tarde demais.

O Anjo reafirma o viés conservador do autor. Conta a história de um megaempresário, “Dr. Antônio Carlos Vieira”, que chega a ser homem mais rico e poderoso do Rio de Janeiro depois de vários traumas dolorosos ao longo da infância e juventude, incluindo a morte do irmão caçula, dos pais e do sócio dos pais, sempre precedidos pela aparição de um estranho “anjo”. Por sua influência, o Rio vem a ser, em 2023, “um jardim onde se podia andar com segurança, onde a natureza voltara a ser o personagem principal. Até mesmo os pobres agradeciam sua iniciativa. O aumento substancial da renda, proporcionado pelo turismo, tinha financiado a urbanização de áreas vazias no interior do Estado. O Rio de Janeiro passara a ser, na verdade, um conjunto de núcleos urbanos semi-independentes e com economia própria, permitindo que cada pessoa trabalhasse e se divertisse perto de casa, liberando o centro e a zona sul para os turistas de alto poder aquisitivo e algumas empresas privilegiadas. Os opositores diziam que ele havia segregado a população desfavorecida economicamente, transformando a cidade em currais incomunicáveis. Mas, como a maioria tinha melhorado de vida, a oposição era considerada uma pulga impertinente” (os grifos são meus).

Uma utopia antipopular – um Rio sem povo, parque temático para turistas e privilegiados. Os pobres continuam pobres, mas supostamente melhoraram de vida e estão gratos por serem enviados ao interior ou segregados em currais incomunicáveis.

A trama fica mais interessante quando o empresário descobre ser seu próprio “anjo”: um inventor por ele patrocinado cria uma máquina do tempo e ele, ao experimentá-la, sente-se compelido a manipular a si mesmo para assassinar irmão, pais e sócios de maneira a antecipar e concentrar a herança em suas mãos, tornando possível sua vasta fortuna e brilhante carreira. Ao saber a verdade, sente vontade de jogar o aparelho pela janela do escritório no 63º andar de sua torre de vidro na Gávea, mas hesita: se fizesse isso, “o Rio talvez fosse um inferno de lixo e violência, como Los Angeles. E as pessoas continuariam procurando novos governantes com perfil de mágico e caráter de vampiro”. O aparelho “parecia zombar de suas dúvidas”.

O conto foi escrito em 1994, quando os agudos problemas sociais de Los Angeles estavam na ordem do dia, devido ao auge da criminalidade associada ao crack e aos distúrbios raciais que se seguiram ao espancamento do negro Rodney King pela polícia local. Também foi o ano no qual Leonel Brizola deixou o governo do Estado do Rio a seu vice para se candidatar à presidência (, após enfurecer a classe média da Zona Sul com linhas de ônibus que facilitaram o acesso das massas da Zona Norte a suas praias.

É impossível não se chocar com as implicações. Até o parricídio é considerado aceitável contra o “populismo”. Será o caso de agradecer ao Dr. ACV? Pelo jeito, no fim das contas ele decidiu jogar a máquina pela janela, salvou sua família e deixou o Rio seguir um caminho menos perigoso. Calado não viu que nada há mais parecido com o que imaginava para o Rio de Janeiro que a Los Angeles, cujos condomínios fechados e bairros autônomos dispersos por uma ampla área da Califórnia geram problemas sociais e ambientais.

Seguem-se sete contos alusivos aos sete pecados capitais, escritos para uma coleção da Ediouro sobre esse tema, publicada em 1995. A maioria deles é de tom humorístico e acaba por fazer do pecado uma virtude, ou quase.

Em Operação Lobo (a Gula), ex-espiões de diferentes países se reúnem em um restaurante em Tânger (cidade do Marrocos, apesar de o autor escrever que fica na Argélia) para se lembrar do tempo da Guerra Fria e o britânico recorda o resgate de um cientista dissidente na Romênia, num período de fome no país, usando um saco de mantimentos. Parte dos alimentos era destinada a subornos, mas alguns deviam ser levados ao cientista na prisão. Os agentes, esfomeados, comem quase tudo sem saber que havia um truque neles embutido. O escatológico resultado é digno de um episódio de Agente 86.

Bobo (a Ira), conta a história de um bobo da corte em um planeta governado por um "txar" que engana seu povo justificando sua opressão com uma guerra forjada, mas também o diverte com espetáculos proporcionados por seus bobos da corte. Um dia, um deles expõe ao povo, na forma de piada, a farsa em torno da guerra. É executado pelo soberano e o povo, irado, derruba o regime dos txares. É uma fábula pouco inspirada e o precário verniz de ficção científica não a melhorou, muito pelo contrário. Como em alguns outros contos dessa série, os personagens pertencem a uma espécie humanoide cujos corpos são facilmente moldados (neste caso, para criar bobos deformados com efeitos cômicos) e têm nomes pseudo-escoceses (o narrador é "Aldo McMint"). Deve haver aí alguma piada interna que o autor não compartilha com o leitor.

O Dia do Dragão (Preguiça) é outra fábula em cenário clichê de fantasia medieval disfarçada em ficção científica. Uma aldeia paga impostos e entrega periodicamente um casal de jovens ao dragão Stinx pela "proteção" que ele dispensa à aldeia. Um rapaz, escolhido para ser devorado por ser preguiçoso e contribuir pouco para a arrecadação decide enfrentar a fera. A ficção científica? Está em que isso se passa, supostamente, em uma colônia humana em outro planeta, que regrediu tecnologicamente e foi dominada pelos dragões nativos.

Com Kilumbo (o Orgulho), volta-se ao mundo de Aldo McMint, que conta a origem de sua "raça" em um asteroide onde trabalhavam como escravos, até que o orgulhoso rei McZomb (zombaria com Zumbi), levado para lá junto com seus súditos e inconformado com sua humilhação, lidera uma revolta e organiza a fuga para a liberdade. A história, que teria funcionado melhor se não fosse apresentada como uma fábula de um passado distante, força a ligação com o conto anterior: o narrador menciona a "montanha de Stinx" nas imediações, apesar de tom e cenários serem pouco compatíveis.

Não é por inveja (Inveja) é o melhor da série dos sete pecados. Um cientista acredita que seu parceiro numa pesquisa revolucionária quer lhe roubar todo o mérito pela descoberta e planeja assassiná-lo "por uma questão de justiça", mas é surpreendido no final. O conto de tom realista descreve o trabalho científico e o clima de rivalidade acadêmica de maneira mais convincente que a maioria dos autores de ficção científica brasileiros, que frequentemente tendem a idealizar ou caricaturar ingenuamente a vida dos cientistas.

A Volta do Dragão (Avareza) retorna a Aldo McMint e ao clichê de O Dia do Dragão. Os antigos dragões foram extintos, mas um avarento faz-se transformar em dragão por meio de engenharia genética e tenta restaurar os antigos costumes. É vencido, porém, recorrendo-se a um truque algo trivial baseado na mesma engenharia genética.

Avthar (Luxúria) é a história de um garoto com poderes extraordinários de cura, que ao exercê-los sente prazer. Os monges julgam que seu poder é impuro e que ele não pode exercê-lo se não dominar suas paixões. O garoto cresce e envelhece no mosteiro, praticando jejuns e autoflagelação para dominar seus impulsos sem ajudar ninguém. Quando atinge o objetivo, está velho e impotente, inclusive para realizar milagres. É uma fábula mais original, mas o clima de repressão sexual cristã combina mal com o ambiente pseudo-indiano.

Encerrado o ciclo dos pecados, seguem-se duas ficções em ambientes históricos, ambas de boa qualidade e tom paradidático. Foram escritas em 2000, no contexto das comemorações dos 500 anos do Descobrimento.

Foi assim (talvez) conta a história de uma aldeia de construtores de sambaquis, povo que viveu no litoral brasileiro até perto do início da chamada era cristã e conta sua luta final contra os tupi-guaranis que mais tarde ocuparam a região. Uma boa ficção (pré)histórica, à qual se acrescenta um toque de fantasia e ficção científica quando o pajé prevê que os tupis, um dia no futuro, serão desalojados por povos vindos do outro lado do mar e estes, por sua vez, sobrepujados por um povo vindo do espaço.

A carta do filho da puta é a história de um pobre marinheiro da frota de Cabral que é o primeiro a avistar o monte Pascoal e nos conta a história do Descobrimento do Brasil. Também uma narrativa agradável e didaticamente eficiente. Um senão é que a trama se apoia em um pormenor pouco verossímil. O marinheiro é infernizado por seu contramestre, que o espanca e ameaça matá-lo porque, há muitos anos, o rapaz lhe deixou uma cicatriz no rosto ao usar uma faca para defender a mãe prostituta de sua agressão. Mas como teria reconhecido no adulto um menino de onze anos que nunca voltara a ver?

No final, a antologia volta ao futuro com dois contos de sabor distópico, certamente influenciados pela onda cyberpunk inaugurada por William Gibson e Bruce Sterling nos anos 80.

Eleanor Rigby, inédito de 1991, homenageia a canção homônima de John Lennon e Paul McCartney com um futuro no qual as pessoas podem comprar um rosto e literalmente guardá-lo numa jarra (de nutrientes) junto à porta. A personagem-título é uma "tropgueixa" do Rio de Janeiro, uma prostituta com um falso rosto oriental a serviço de uma empresa ou quadrilha japonesa que mora em uma cápsula ou gaveta semelhante às hoje oferecidas por certos hotéis do Japão. Um dia ela compra outro rosto falso, tem um caso de amor com um homem enquanto o usa e vai-se casar com ele, mas é assassinada na igreja por um agente japonês. Uma história curiosa, mas desnecessariamente melodramática e contaminada pela xenofobia antijaponesa dos EUA dos anos 80. Além de desconsiderar que as verdadeiras gueixas não são prostitutas, ao contrário do que supõe as fantasias ocidentais.

O Altar dos Nossos Corações, de 1993, fecha a antologia com outra história sobre um Rio decadente e dominado pelo crime. Em um futuro no qual os bairros de classe média do centro e sul do Rio de Janeiro foram (ao que parece, inutilmente) separados do resto da cidade por uma muralha e a ponte Rio-Niterói transformada na pior das favelas, o governador Pereira Couto faz-se sequestrar pelo Comando Vermelho para dividir com os criminosos o dinheiro do resgate, arrecadado do povo e ainda garantir a reeleição, mobilizando as massas com seu pretenso sofrimento. O governador aproveita o suposto cativeiro para fazer um implante no cérebro que recupera e incrementa sua potência sexual, mas mostra servir também aos criminosos para controlá-lo à distância.

No final, julgando ter sobrepujado a chantagem, o governador anuncia o que ele (e aparentemente também o autor) pensa ser a solução para os problemas da cidade: além de evacuar e demolir a favela da ponte, anuncia "a transferência das outras favelas da cidade para o interior do estado. O Rio precisa voltar a ser um polo de turismo e, como nosso programa, poderá novamente vir a ser chamada de Cidade Maravilhosa". Mas o líder do Comando Vermelho se mostra mais esperto do que o governador imaginava.