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Um verdadeiro intercâmbio cultural

por Overmundo — publicado 12/08/2010 15h12, última modificação 12/08/2010 23h07
Foram três dias de experimentações. Três dias de mistura, de música, de dança, de circo, de arte no sentido “mais literal” da palavra. Três dias de Tangolomango

Foram três dias de experimentações. Três dias de mistura, de música, de dança, de circo, de arte no sentido “mais literal” da palavra. Três dias de Tangolomango

por Isabela Bosi, de Fortaleza

Em todas as edições, o festival conta com a participação de artistas de outros países latino-americanos e nesse ano não poderia ter sido diferente. El Circo del Mundo, do Chile, e Legatto 7, da Colômbia, não trouxeram ao Tangolomango somente o sotaque espanhol e a vontade de aprender e ensinar, mas também uma energia positiva que contagiou os outros participantes e, ontem à noite, os espectadores. 

Às oito horas e trinta minutos da noite de sábado, com o Anfiteatro do Dragão do Mar lotado, Legatto 7 abriu o espetáculo com a canção “La Vida Es Un Carnaval”, acompanhada da animação e das palmas do público. O grupo colombiano conquistou rapidamente a platéia.

Se alguém apenas escutar Legatto 7, poderá facilmente pensar que é uma banda com instrumentos comuns que toca da música tradicional colombiana ao pop. Mas para os afortunados que puderam assistir ao seu show, fica claro que o único som que sai do palco é o de suas vozes. 

Há treze anos, Pacho, Manolo, Luz D, Monica, Gustavo e Yolmer se dedicam à exploração dos recursos da voz. “A nossa idéia não era fazer uma música oral tradicional, mas sim investigar a voz para chegar à identificação de instrumentos”, disse Pacho. 

Hoje, o grupo está trabalhando para lançar seu segundo disco, que ainda está em fase de finalização, e está viajando por diversos países, como Espanha, México e, agora, pela segunda vez, Brasil. Legatto 7 leva várias cópias de seu primeiro álbum – “Ser” – para seus shows e sempre volta para casa com a mala mais leve e com novos admiradores.

Quando perguntei se eles haviam se inspirado em algum grupo específico para formar a banda, Manolo foi direto: “Inspirações? Muitas e poucas ao mesmo tempo”, disse, sorrindo. Segundo ele, bandas como Vocal Sampling (Cuba), Take 6 (EUA) e The King Singers (Londres) são apenas algumas das grandes influências de Legatto7.

A maioria das canções da banda são composições próprias e apenas algumas são de outros compositores colombianos, mas todas repletas de características da música tradicional do país, cheia de influências africanas e espanholas. 

Segundo eles, na Colômbia há, ainda hoje, poucos grupos vocais à capela, sendo o Legatto 7 o pioneiro deles. Segundo Pacho, o que falta para que esse número aumente é formação profissional. “Todos somos músicos profissionais, especializados em diferentes instrumentos”, diz ele, referindo-se aos integrantes da banda. 

Pela primeira vez participando do Tangolomango, o grupo se interessou pelo festival, principalmente, por causa da “possibilidade de intercâmbio artístico e pela diversidade de culturas, sendo um espaço onde não há somente música, mas também dança, teatro, circo”, disse Manolo.

Para ele, qualquer músico que participe do festival vai voltar "fortalecido" para seu país. 

Os seis integrantes, que no primeiro dia estavam com ar meio de “perdidos” e um pouco tímidos, no final desse sábado já arranhavam no portunhol e criavam coreografias no palco com animação e alegria. 

“Foi muito melhor do que imaginávamos. Que energia!”, disse Manolo, com um sorriso largo e o suor da festa ainda escorrendo pelo rosto, após a apresentação, que terminou com um “bis” improvisado da banda.

Outro grupo internacional que marcou presença no Tangolomango 2010 foi El Circo del Mundo. Esse ano, o Circo trouxe a Fortaleza três alunos recém formados, que nunca haviam participado do festival: José Luiz Cordova, Valentina Jara e Rony Oliva. “É a minha primeira vez no Brasil e estou adorando a experiência”, disse Rony, no intervalo do ensaio de sexta-feira.

El Circo del Mundo nasceu, em 1995, por iniciativa do Cirque du Soleil, na cidade de Santiago, capital do Chile. Ele é o único circo do país que funciona de uma maneira “mais contemporânea”, pois a maioria dos circos chilenos é tradicional, ou seja, de família, com animais e um apresentador, segundo Francisco Alvarado. 

Alvarado é coordenador da área de extensão e produção do Circo e veio ao festival acompanhando os três artistas. Ele me explicou que o Circo conta, hoje, com três áreas de atuação: uma social; outra de ensino, que funciona com a escola de circo; e, por último, uma de extensão e produção.

O Circo surgiu apenas com a área social. De acordo com Francisco, o Circo del Mundo nasceu como um “projeto de prevenção e não de reabilitação”, que busca estimular o uso da criatividade e aumentar a auto-estima dos jovens que o freqüentam.

O espaço – duas lonas de circo – funciona de manhã até cinco horas da tarde e tem alunos de classes sociais distintas, o que gera, segundo Alvarado, “uma maior diversidade na composição da escola”. 

São cerca de três anos e meio de curso e muitos dos jovens que se formam passam a dar aulas – no próprio Circo ou em algum dos cursos de arte das universidades de Santiago -, a fazer parte do staff do grupo ou da área de extensão e produção, que é onde se colhe recursos para os espetáculos e para a manutenção do Circo. 

Esse ano, o Circo del Mundo está comemorando 15 anos de existência com o projeto “15 anos de novo Circo em 200 anos de História”, que funciona como uma oportunidade para que surjam mais espaços circenses em Santiago. Além da possibilidade de juntar dois âmbitos: o circo tradicional e o circo contemporâneo, comemorando, assim, a arte circense como parte do patrimônio cultural chileno.

Contentes por mostrarem sua cultura e, ao mesmo tempo, entrarem em contato com a cultura de outros lugares, os três jovens foram uns dos artistas que mais interagiram e se mostraram abertos às possibilidades de troca cultural durante os três dias.

Na noite de sábado, José e Valentina encantaram o público, logo após Legatto 7. Ela na corda (similar ao tecido acrobático) e ele na escada. Ambos voando pelo palco ao som de Di Freitas e recebendo aplausos e gritos de satisfação da platéia. Depois foi a vez de José subir ao palco com suas claves, fazendo malabarismos e acrobacias com a pequena Valentina. 

Segundo Francisco, o Circo del Mundo enxerga o Tangolomango como uma oportunidade para “romper com a arte circense, mesclando a dança e a música”. “É um ‘plus cultural’ poder participar de um festival como esse e entrar em contato com grupos e culturas de vários lugares do mundo. Um verdadeiro intercâmbio cultural”, disse ele. 

E eu não tenho como discordar do Francisco. Assistir aos colombianos do Legatto 7 cantando com o Mestre Zé Pio ou aos chilenos do Circo del Mundo dançando hip-hop com os meninos da Cia. Urbana de Dança tornou bastante claro para mim que a arte, de fato, tem o poder de integrar e movimentar pessoas em qualquer lugar do mundo. 

O Tangolomango 2010 foi mais uma prova de que esse “poder” existe. “Um verdadeiro intercâmbio cultural” aplaudido de pé por todos os que estiveram presentes na noite estrelada desse sábado de agosto.