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Um show de sofrimento

por Redação Carta Capital — publicado 30/01/2013 13h54, última modificação 30/01/2013 13h54
Socióloga lança livro sobre a lógica cruel dos reality shows e diz que público está 'anestesiado' com as dores dos participantes

 

Por Paloma Rodrigues

Quatro pessoas em volta de um carro, dentro de uma sala apertada, com equipamentos que provocam mudanças súbitas de temperatura e condição ambiente. Tudo manipulado pelo público, que vota na internet a intensidade da chuva, vento, luminosidade e temperatura.

A cena pode ser familiar para muitos: foi ao ar durante uma edição do reality show mais popular do Brasil, o Big Brother. A prova, que valia a liderança no jogo por uma semana no BBB10, foi estudada pela socióloga Silvia Viana em seu livro Rituais de Sofrimento, junto com mais um apanhado de histórias que dissecam a estrutura desse tipo de programa. O livro será lançado no próximo dia 6, às 19h, no Espaço Serralheria, na Lapa, em São Paulo.

Em 2007, quando começava as pesquisas para seu mestrado, a pesquisadora percebeu que Big Brother se encaixava, de alguma forma, em sua linha de pesquisa sobre ideologia e indústria cultural. “Talvez pelo fato de eu nunca ter assistido antes, aquilo tenha me chocado mais. Eu senti que era uma mudança na forma de organização da indústria cultural”, conta Viana em entrevista a CartaCapital.

Segundo ela, os brothers são espécies de “trabalhadores informais” do mercado. Fazem de tudo para se manter vivos em um ambiente inóspito e hostil. Batalham, portanto, “para não serem demitidos por déficit de empreendedorismo entretenedor”, escreve ela em um capítulo denominado “As regras”. São as regras do jogo e quem entra lá sabe disso.

Seguindo uma linha Frankfurtiana, com base na obra de Theodor Adorno, Viana mostra como esta indústria passou a agregar funções ao chamar o telespectador a participar ativamente da realidade em construção daqueles programas – seja votando, seja desejando ser também um participante no futuro.

É ai que entra o sofrimento. Ser eliminado, dentro do universo do Big Brother, corresponde à morte. Em uma árdua tentativa de sobrevivência, eles tentam ser os melhores em tudo: os mais divertidos, os mais engraçados e os mais pró-ativos, mas nem sempre (ou quase nunca) conseguem.

Apenas um participante se sagra vencedor, enquanto outros 15 saem sem receber nada - ao menos, nenhuma congratulação do jogo, com pequenas exceções para os prêmios, que na verdade são estratégias publicitárias pelas quais o verdadeiro ganhador é o próprio reality show, que fatura milhões pagando apenas com o próprio produto os seus “garotos-propaganda”.  Isso, segundo a pesquisadora, faz do BBB um jogo de quem perde e não de quem ganha.

Ela lembra que, a todo o momento, os participantes são expostos a situações cujo objetivo claro é criar o conflito. Provas que não valem nada dentro da dinâmica do jogo – que não são disputas pela liderança ou pela imunidade, por exemplo – são criadas para dispor uns contra os outros. O jogo, afinal, é para quem se impõe e se sobressai. Pessoas com postura “passiva” são demitidas, paredão a paredão. As regras exigem que os participantes se voltem uns contra os outros, mesmo quando um vínculo se cria entre eles. Não raro ouvimos coisas do tipo “gosto muito dele, mas são as regras do jogo, eu preciso votar”.

As provas de resistência fazem a socióloga classificar os realities shows como “jogos de terror”. Um terror assumido, lembra ela, pelo diretor do programa, Boninho, a quem Viana diz ter uma “duvidosa sanidade moral”. Para ela, o programa não é cultura, mas um jogo cruel sobre quem o telespectador pretende eliminar.

“Não sou eu que afirmo que aquilo é um jogo cruel, é o Boninho. Não fui eu que inventei a comparação do reality show com o filme Jogos Mortais, foi um participante”, diz a socióloga.

Ela diz que o livro não busca entender o princípio violento do jogo, mas por que esse princípio, apesar de conhecido, continua a ser aplicado e consagrado.  “Eu não acho que as pessoas [o público] gostem de ver esse processo de sofrimento, mas acho que elas passam por um processo de ‘anestesiamento’, que não é gerado pela TV, mas por toda a sociedade que vê o mal como uma coisa corriqueira.”

Os limites impostos pelas provas sempre exigem resistência do competidor, seja física, mental ou – na maioria dos casos – física e mental. Por vezes, afirma a socióloga, esses limites não se relacionam com as características que definem aquele profissional e que poderiam evidenciar suas facilidades ou dificuldades no exercício de seu cargo. “O aprendiz do [Roberto] Justus deve saber fazer tudo o que for pressuposto, mesmo que não tenha absolutamente nada a ver com o trabalho que lhe será oferecido ou na sua formação, como uma prova de rapel, por exemplo.”

A reflexão proposta, e que perdura mesmo depois do fim do livro, é: o que estamos nos exigindo dentro dessa sociedade que nunca se dá por satisfeita?

Ela exemplifica: quando o reality show Top Chef elabora uma prova na qual os chefs têm de cozinhar com as mãos amarradas, a quem estamos querendo testar? Para Silvia Viana, o pesar e o sofrer vêm desse desejo de querer acertar e fazer o melhor, mas sem nunca conseguir. “É isso que você aprende de uma sociedade que diz o tempo todo que você deve ser forte e deve superar desafios.”

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