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Um sambista do Brás

por Araújo Lopes — publicado 06/10/2010 11h47, última modificação 06/10/2010 11h47
O pianista Vadico, nascido em São Paulo há cem anos, tornou ainda melhores as canções do carioca Noel
Um sambista do Brás

Dedicatória de Katherine Dunham à mãe do pianista Vadico

O pianista Vadico, nascido em São Paulo há cem anos, tornou ainda melhores as canções do carioca Noel

As composições de Noel Rosa, o Poeta da Vila, cujo centenário de nascimento é lembrado neste ano, são perfeitas. Em todos os gêneros, impressiona o talento do compositor para aliar a música de alta qualidade e seu violão a versos precisos, inovadores e debochadamente românticos. Mas nem o sambista carioca sabia que o muito bom poderia ficar melhor. E isso aconteceu quando Noel conheceu um dos mais talentosos pianistas do Brasil, o paulista Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico, que também teria comemorado 100 anos de vida em 2010, e se reuniu a ele, no início do século passado, com o objetivo de compor.
Para Noel Rosa, Vadico significou a sofisticação harmônica e melódica que talvez faltasse em suas canções de letras muito inspiradas. O encontro entre os dois aconteceu, como se dizia no século passado, por um “capricho do destino”. Em uma das salas da gravadora Odeon, no Rio de Janeiro de 1932, os dois foram apresentados por Eduardo Souto, outro maestro e compositor de mão-cheia, então diretor artístico da gravadora. Contratado como maestro e arranjador, Vadico tinha lhe mostrado ao piano uma música que havia composto. Souto ficou impressionado com a beleza da melodia. Foi à sala ao lado, chamou Noel, fez as apresentações e o compositor do Rio ficou ali ouvindo, entusiasmado, a música de Vadico.

Incentivado por Eduardo Souto, Noel- animou-se a escrever. Pegou um lápis e redigiu um “monstro”, uma letra provisória, apenas para que as sílabas se encaixassem na linha melódica de Vadico. Depois, voltou com os versos definitivos: “Quem acha vive se perdendo/Por isso agora eu vou me defendendo...”. Era Feitio de Oração, um dos maiores clássicos da dupla e da música brasileira, gravada por Francisco Alves e Castro Barbosa em 1933. Seria a primeira das composições dos dois. Vadico criou a linha do piano para as letras mais interessantes e sofisticadas de Noel. Contudo, jamais alcançou a fama de seu parceiro.
 Oswaldo de Almeida Gogliano, paulista do Brás, nasceu no Dia de São João, 24 de junho de 1910, numa família de músicos. Trabalhou como datilógrafo quando jovem, mas a gravação de seu samba Arranjei Outra por Francisco Alves, em 1930, deu-lhe coragem para arriscar a sorte na então capital federal. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde a música popular acontecia, ecoando para o resto do Brasil.
Noel e Vadico fizeram dez músicas juntos, entre elas Conversa de Botequim, Feitiço da Vila, Tarzan, O Filho do Alfaiate, Para Que Mentir, além de uma composição publicitária. E aqui vai uma explicação. Nos anos 30, a novidade no rádio era o anúncio, ou o reclame, mensagem comercial que tornava possível a vida profissional do artista. A autorização para a venda e vei-culação de propaganda, partida do presidente Getúlio Vargas, foi bem aproveitada pela Rádio Roquette Pinto, que, plena de anunciantes, contratou as maiores estrelas da época. Se, antes, os artistas cantavam no rádio apenas para divulgar seus discos em 78 RPM, agora trabalhavam por cachê. O próprio Noel Rosa ganhava dinheiro como cantor e contrarregra do Programa Casé, o pioneiro em introduzir o pagamento aos artistas e as mensagens patrocinadas no rádio. O disco, ainda incipiente, rendia pouco ao compositor.

Pois foi com Noel que Vadico compôs a única peça publicitária da dupla, a Marcha do Dragão. A letra, premiada em concurso, dizia:
Você é mais conhecido/Do que níquel de tostão/Mas não pode ficar mais popular/Do que o Dragão. A marcha da dupla fazia referência à loja de artigos domésticos Dragão, no centro do Rio. Um dos principais anunciantes do Programa Casé, o estabelecimento era carinhosamente apelidado de A Fera da Rua Larga, pois ficava na Avenida Marechal Floriano, de notáveis pistas e calçadas largas. O automóvel de Casé era o único no Brasil dos anos 30 a ter um rádio.
O sucesso progressivo de Noel Rosa como compositor popular o distanciou da publicidade. E ele adorava trabalhar com parceiros musicais. Teve mais de 50, mas, com Vadico, alguma qualidade diferente parecia ser adicionada à canção. “Ele foi o melhor parceiro de Noel, musicalmente falando”, afirma o crítico musical e bió-grafo de Noel Rosa, João Máximo. “Foi o que melhor soube criar melodias para as letras do compositor. Em alguns casos, a gente nota que Noel trabalhava com a melodia já pronta e fazia versos que se encaixavam perfeitamente ali. Ele era moderno para a sua época”, diz. Vadico torna-se ainda mais importante nessa equação quando se pensa que Noel não desconhecia seu ofício. Pelo contrário, era excelente músico e procurava artistas capazes de lhe dar reais contribuições.
Autodidata, o músico paulista era excelente violonista. Basta dizer que, no início da carreira, havia sido o segundo violão do Bando de Tangarás, lendário conjunto formado por Almirante, Braguinha, Noel Rosa, Henrique Brito e Alvinho. E fazia o segundo violão porque o primeiro era de Brito, até hoje uma lenda entre os violonistas brasileiros.
Para alguns, Vadico não experimentou o mesmo sucesso de Noel por algumas razões. A primeira residiria no fato de ele ter-se dedicado aos bastidores da indústria da música, regendo e compondo, e se mantendo distante dos palcos e da mídia. Outra razão teria sido a morte prematura de -Noel, em 1937, o que impediu novas composições por parte de uma dupla que se entendia bem. E uma terceira razão, talvez a mais importante, teria sido a partida de Vadico para os Estados Unidos, no fim dos anos 30, com a orquestra de Romeu Silva, permanecendo no país por quase 15 anos.

“Quando Vadico voltou , seu mundo musical tinha se modificado muito”, diz Carlos Didier, historiador e coautor da biografia de Noel com João Máximo. Mas, como outros excepcionais instrumentistas brasileiros, Vadico colecionou êxitos com as plateias americanas. Trabalhou com Carmen Miranda e o Bando da Lua em várias de suas- formações, em shows apenas como pianista, atuando como arranjador, tomando parte em filmes de Hollywood. Segundo conta o jornalista Ruy Castro no livro Carmen – uma Biografia, como a formação do grupo era grande demais e muitas vezes o local da apresentação não comportava um piano, Vadico se apresentava com o Bando da Lua tocando pandeiro. O piano ficava para as gravações em estúdio e arranjos. Vadico trabalhou para alguns dos melhores estúdios de cinema americanos. Participou do lendário longa-metragem de animação da Disney Alô, Amigos, de 1943, no qual foi apresentado ao público o personagem Zé Carioca.
Gogliano não compôs apenas sucessos populares. Era músico com base teó-rica sólida e tinha um senso estético para a arte que fugia ao medíocre. Escreveu ao menos dez obras eruditas e mais de 80 sucessos populares. Os parceiros famosos foram muitos, além de Noel Rosa, entre eles Aloysio de Oliveira, Marino Pinto, Vinicius de Moraes e David Nasser. Todos forneceram, para seus tons, letras magistrais. A música que Vadico tinha por obra-prima, Prece,- foi feita com letra de Marino Pinto.
“Vadico tornou-se importante para a música ao participar da consolidação do samba moderno, que se distanciava do maxixe, marcante nos anos 20. Ele trouxe melodias e harmonias mais complexas a esse gênero”, explica Rafael dos Santos, pesquisador de música e professor da Unicamp. Prosseguindo em sua carreira de arranjador e maestro nos Estados Unidos e na Europa, Vadico tomou aulas de orquestração com o maestro italiano Mario Castelnuovo-Tedesco. Depois, integrou ainda a mundialmente famosa companhia da bailarina negra Katherine Dunham, participando de excursões pela Europa.
No início dos anos 1950, voltou ao Brasil, onde continuou seu trabalho como arranjador na gravadora Continental e na Rádio Mayrink Veiga. Aqui tocou em casas noturnas e viu-se responsável pela área musical da TV Rio. Mais uma vez, por outro “capricho do destino”, Vadico ficou de fora da turma da bossa nova, que começava a trabalhar no Rio dos anos 50.

Vinicius de Moraes, que apreciava a obra do pianista, pensou primeiro nele quando imaginou um artista moderno para compor as músicas de seu Orfeu da Conceição. Entretanto, em uma noite no histórico bar Villariño, no centro do Rio, o crítico, jornalista e musicólogo Lúcio Rangel, que também gostava de Vadico, disse a Vinicius que ele talvez devesse se aproximar de alguém igualmente capaz de realizar o trabalho, um jovem maestro chamado Antonio Carlos Jobim, a quem o poeta conhecia da noite do Rio. O encontro entre Tom e Vinicius deixou Vadico, que já se mostrava hesitante em aceitar o trabalho (grandioso demais, a seu ver), ausente da obra e do estilo que conquistariam o Brasil e o mundo.
 Vadico trabalhou até o fim da vida. Morreu de ataque cardíaco no estúdio da gravadora Columbia, em 1962, no Rio de Janeiro. “O mais importante é que ele deixou sua marca. Quando escutamos uma música do Noel Rosa com a sua melodia, percebemos os dedos dele nas teclas. Esta é a glória de Vadico”, acredita o crítico e biógrafo Carlos Didier. •