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Um romance, uma antologia e a lei de Sturgeon

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 12/03/2010 17h48, última modificação 08/09/2010 17h51
Roberto Causo, escritor de fantasia e ficção científica, lançou um novo romance: Anjo de Dor (Devir, 212 págs. R$ 25), que poderia ser classificado como um "policial paranormal"

Roberto Causo, escritor de fantasia e ficção científica, lançou um novo romance: Anjo de Dor (Devir, 212 págs. R$ 25), que poderia ser classificado como um "policial paranormal", assim como A Corrida do Rinoceronte, obra de 2006 do mesmo autor (Devir, 160 págs., R$ 21), resenhado em CartaCapital por ocasião do lançamento.

Nos dois casos, a estrutura é semelhante: uma aparição sobrenatural induz o protagonista a lutar contra uma trama criminosa. O interesse do anterior estava na análise cuidadosa do cenário, que explorou com realismo e verossimilhança o cenário californiano e as relações entre racismo, tráfico de drogas, crime digital e histórias pessoais e familiares. Mas a entidade sobrenatural – um rinoceronte fantasma – foi uma ousadia que a narrativa não conseguiu tornar instigante ou convincente e sua intervenção fez do protagonista, um imigrante brasileiro, uma marionete cujas atitudes se tornaram pouco convincentes, prejudicando a empatia com o leitor e a plausibilidade da trama.

O novo romance se esforça menos por ser original ou por fazer análises sociais bem embasadas, mas investe em uma trama mais satisfatória. A entidade sobrenatural ainda surge de maneira um tanto arbitrária, mas é de natureza a se encaixar melhor nos medos, desejos, crenças e fantasias da raça humana em geral e da cultura brasileira em especial. Além de soar mais plausível, ou pelo menos mais emocionante, sua relação com o protagonista faz mais sentido e se integra melhor na história. O herói não é simplesmente teleguiado pela aparição, sente medo e desejo, tem iniciativa e vontade, age e reage de maneira carível.

A partir do momento que surge o elemento sobrenatural e a história mostra a que realmente veio, o livro se torna (ao menos para este leitor), o que se costuma chamar de pageturner, um livro difícil de largar. O suspense funciona bem e o final não decepciona. Diga-se de passagem que o conselho da esposa do autor sobre o final, que ele cita nos agradecimentos, foi acertado: seria muito difícil criar outra resolução que não soasse como um anticlímax.

A maior ressalva é que a história demora um pouco a engrenar. Os primeiros 30% do livro soam um tanto arrastados. Descrevem o cenário – Sumaré, uma cidade do interior de São Paulo –, sem chegar a criar o clima para a ação propriamente dita: parece pelo contrário ressaltar o que tem de trivial e semelhante a qualquer outra cidade do interior. Além disso, o início do romance apresenta e descreve o “herói” e a “mocinha”, que também não cativam à primeira vista.

Esta é um tanto estereotipada, com uma história não muito bem talhada (quais as chances de uma loira natural, de olhos claros, ter nascido numa favela carioca dos anos 50?). Aquele é excêntrico de uma forma original, mas sua solidão soa exagerada ou mal explicada – e o fato de ele, a certa altura (e sem ser artista profissional) pintar um quadro colorido de corpo inteiro que "parece foto" em poucas horas é mais difícil de acreditar que os eventos sobrenaturais.

De maneira mais geral, perdeu-se a oportunidade, nesse início de história, de tornar o cenário mais interessante e de aprofundar com mais originalidade e franqueza as idiossincrasias dos personagens, tornando-os menos esquemáticos e mais consistentes. O que o protagonista, vegetariano, realmente sente em relação a comer carne? Quais suas verdadeiras razões de não ter amigos íntimos? Do que tem medo? O que a heroína fantasia em relação aos homens? Como se sente em relação às suas peculiaridades sexuais? Para captar o leitor desde o início, faltou um mergulho mais profundo e ousado nas mentes dos personagens e na vida secreta de uma cidade do interior. Apesar do narrador ter acesso ao íntimo dos personagens, faz quase uma apresentação formal, de recepção em festa da firma...

Mas não se deve exagerar a importância desses problemas: o desenrolar da trama propriamente dita, da ação e do suspense, capta a atenção por si mesma, independentemente do que se deixa a desejar na construção dos personagens.

Deve-se ressalvar que um pormenor que permanece um pouco incômodo até o final é a grafia dos diálogos. Procurou-se reproduzir o sotaque interiorano paulista da maioria dos personagens e o carioca de alguns outros, mas de maneira um tanto inábil. O texto ficou sobrecarregado de apóstrofos sem conseguir transmitir pecularidades fonéticas e gramaticais com fidelidade e naturalidade. Ouvido e senso comum não bastaram: teria sido preciso um pouco mais de linguística para conseguir o efeito desejado.

Roberto Causo também é organizador de uma coletânea de ficção científica publicada pela Editora Terracota, Contos Imediatos (R$ 26, 160 págs.) que saiu menos satisfatória que o romance. Embora alguns contos sejam bons, outros estão abaixo do que se espera de uma antologia profissional.

Problemas no Paraíso, do veterano Jorge Luiz Calife, traz de novo sua personagem favorita, a demasiado idealizada heroína Angela Duncan. Tão bela e invencível quanto Barbarella, é empurrada por um acidente a uma aventura amorosa. Um conto de fadas em um futuro já um tanto datado – o universo da space opera dos anos 60 e 70 –, com um pouco de pimenta e muito açúcar. Bem contado, mas deixa a desejar para um leitor maduro.

Dejà-vu, de Luis Brás – pseudônimo do jornalista Luís Antonio Giron como autor de literatura juvenil e ficção científica – é interessante pelo uso do fluxo de consciência como técnica literária. Mas em termos de conteúdo conta uma história um tanto batida em termos de ficção científica, sem nada de particularmente criativo ou engenhoso: um assalto militar para a conquista de um portal do tempo de importância estratégica, defendido por monstros.

Netúnia e Libra Quatro, de Ataíde Tartari, é uma história sobre um adolescente com uma oportunidade única para mudar o rumo de sua vida, num mundo que só uma vez em duzentos anos se aproxima do Sistema Solar interior o suficiente para permitir o contato direto. O pretexto para a existência dessa colônia peculiar – trazer gelo do Sistema Solar exterior para fornecer água para outros mundos habitados – não é convincente: há uma abundância inesgotável de gelo em luas e asteroides muito mais próximos. E de maneira demasiado conveniente, a namorada virtual que por fim conhece em carne e osso é afilhada do homem que pode lhe abrir o caminho para a carreira que deseja.

Cibermetarrealidade, de Tibor Moricz, é um dos melhores contos do livro. Torna-se especialmente memorável ao combinar familiar e insólito em um mundo totalmente cibernético e mecânico que desde o primeiro parágrafo impressiona e parece consistente. Há um festival de neologismos, mas compreensíveis e com razão de ser. O senão é que a lógica interna do conto não se sustenta sozinha: o desenrolar (seguindo certo modelo já tradicional de distopia) e sua conclusão fazem pouco sentido nos próprios termos. Somos levados a reler a história como mera metáfora, e isso a enfraquece.

Rejeição, do roteirista de quadrinhos Chico Pascoal, é um dos contos mais fracos. Uma história mal contada em um cenário mal concebido e mal descrito. A exposição dos fatos e da realidade é completamente amadora e o autor não se dá ao trabalho de dar coerência à história, ao personagem ou ao universo. Não importa que, segundo ele mesmo, serviço de valetes seja incomum em sua realidade: um sujeito oferece-se ao protagonista para estacionar o carro e ele o entrega. Importa menos ainda que bares tenham sido proibidos por decreto: a história se passa em um canto a cidade onde são permitidos, para que os clichês usuais possam ser usados. Pura preguiça de inventar uma maneira mais interessante de avançar a história. Inventa-se nomes pseudo-futuristas para objetos que se comportam de maneira exatamente igual ao que conhecemos: o “monocelular” é apenas um celular e o “autocarro” um carro como qualquer outro. Para completar, o “vilão” faz uma inverossímil confissão pública em tribunal e a história desemboca em um final fácil e piegas.

O olho que tudo vê, é de Ademir Pascale, crítico de cinema e autor de contos de terror. Como também o é este texto, no qual a ficção científica é aplicada como uma tênue e descuidada demão de verniz. Um alienígena vindo do nada, feito de clichês ufológicos de Arquivo X, implanta no protagonista um olho de propriedades mágicas e o herói encontra explicação para suas agruras num “livro antigo” sobre um mito egípcio. Para forçar um pouco a inserção no gênero da coletânea faz-se do protagonista um fã de Robert Heinlein e seu Um Estranho em uma Terra Estranha, mas o transbordamento de adjetivos como “perverso” e “demoníaca” mostra o espírito do conto, diametralmente oposto ao objetivismo sarcástico do estadunidense. A história seria mais coerente se dispensasse os adereços pseudocientíficos, trocasse o extraterrestre por um mago ou demônio e se assumisse como terror kitsch.

(Nota de rodapé: o alienígena é descrito com pernas “longas e magras”, mas com um bem respeitável “diâmetro de vinte centímetros”.)

Camarões do espaço, de Miguel Carqueija, é uma história de aventura espacial razoavelmente interessante. Seria mais verossímil com a providência simples de localizá-la em outro sistema estelar, visto que no nosso Sistema Solar os fenômenos descritos no conto não poderiam existir sem terem sido detectados há muito tempo. Falta uma melhor noção de grandezas astronômicas: o conto descreve uma velocidade de 11 mil quilômetros por hora como grande para o foguete, quando o mínimo para se escapar do campo de gravidade terrestre é 40 mil e a velocidade da Terra em sua órbita de translação é 107 mil. Além disso, o conflito surge de maneira gratuita e forçada. Ainda assim, a ideia fundamental é suficientemente original e engenhosa para justificar a leitura.

(Nota de rodapé: os protagonistas se felicitam ao calcular a “porcentagem de segurança” da empreitada em 97,58%: “um helicarro no Rio de Janeiro não apresenta tamanha segurança”. Você entraria num veículo se o risco de morrer fosse 1 em 41 viagens? Embarcar duas vezes por dia resultaria em 50% de chances de morrer em duas semanas.)

Acesso Negado, da escritora e professora de letras Tatiana Alves, é uma distopia lamurienta sobre um regime autoritário que aboliu os comerciais de tevê, vende apenas uma marca de refrigerante e um tipo de carne (e só sem gordura, vejam que absurdo) e, ah sim, aboliu aulas de história e filosofia e controla mentes por meio de condicionamento com choques elétricos. O leitor acha que já se escreveram coisas parecidas em demasia? Tem razão.

Singularis Veritas, do empresário e químico Mustafá Ali Kanso, sobre um arqueólogo que propõe procurar um mítico continente desaparecido e uma cidade submersa e é ridicularizado e desancado pelo reitor. Aos poucos se percebe que a história não se passa no presente, mas nem por isso deixa de ser ingênua e preferir os lugares-comuns e as teorias conspiratórias a especular com inteligência a partir do que historiadores e arqueólogos realmente fazem e pensam ou de ideias atualizadas e relevantes.

Pindorama, do jornalista Sindomar de Castro, vem arejar esses bafos de mesmice com um sopro de engenho criativo. Lembra-se da canção “Um Índio”, de Caetano Veloso? "Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante / De uma estrela que virá numa velocidade estonteante... Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias” Pois o conto dá a essa cena surreal uma prequela que faz sentido e é verossímil pelos padrões da ficção científica, enquanto descreve a cultura e o ponto de vista do índio tupi de maneira respeitosa, sem deixar de ser antropologicamente convincente. Está entre os três ou quatro contos que justificam a existência da coletânea.

Noite, do cineasta e romancista João Batista Melo, é um conto melancólico sobre o fim do planeta Terra e um homem que vem de um planetoide distante para presenciá-lo. Um tema muito batido pela ficção científica desde os anos 1930, ao qual o autor não traz nada de novo. Pior, retoma especulações obsoletas há décadas sobre a possibilidade de o sol explodir como supernova.

Pensamento, do veteraníssimo André Carneiro, permite que a série de contos termine de forma menos deprimente. Mais uma vez, repete-se a fórmula usual do autor: relações eróticas complicadas pela interferência do paranormal – mas com o toque inusitado é que um dos elementos do quadrângulo amoroso é um cérebro humano clonado e criado num “aquário”, que se comunica por telepatia. O conto funciona e surpreende, apesar do seu sabor retrô. O tema do “cérebro numa cuba” foi comum na ficção dos anos 40 aos 60, para ser sucedido em tempos mais recentes pela ideia da mente “escaneada” e gravada em um circuitos eletrônicos, mas Carneiro a pôs em um contexto original.

Seria um final satisfatório, mas segue-se Um Gênero, Diferentes Olhares, ensaio de Ramiro Giroldo que não chega a dizer a que veio. As duas primeiras partes são um breve apanhado sobre teorias da ficção científica e um resumo da história da ficção científica brasileira que não dizem nada que já não tenha sido dito em outros lugares com mais minúcia e profundidade. A terceira é ainda mais supérflua: uma resenha nada crítica do próprio livro, que a essa altura o leitor já leu e sobre o qual já tem sua opinião. Difícil imaginar um final mais desnecessário.

Quando se reclama de má qualidade, fãs e escritores são rápidos em lembrar a chamada “lei de Sturgeon”, formulada pelo escritor de ficção cientifica Thomas Sturgeon, autor de obras como Vênus maisX e Além do Humano: “Noventa por cento de tudo é lixo”. É verdade, tanto nesse gênero quanto em relação a qualquer forma de arte ou literatura. Mas o objetivo de uma coletânea não deveria ser fornecer uma amostra aleatória e fiel dos altos e baixos da produção do momento. De uma edição profissional, o leitor tem o direito de esperar que procure filtrar apenas o que vale a pena ser lido.