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Um raro docu­mentar

por Orlando Margarido — publicado 04/04/2011 09h12, última modificação 04/04/2011 09h12
Prestes a ser publicada nos Estados Unidos, a autobiografia de Richard Leacock tem o subtítulo de "O Sentimento de Estar Lá"

Prestes a ser publicada nos Estados Unidos, a autobiografia de Richard Leacock tem o subtítulo de O Sentimento de Estar Lá. Não se trata de uma frase de impacto ou mera retórica, mas o ideal que acompanhou durante toda a carreira esse influente documentarista nascido inglês e morto no dia 23 de março, aos 89 anos.

A expressão explica o sentido com o qual o cinema lhe surgiu, adolescente, quando descobre a câmera leve e pequena para chegar perto de seu objeto de interesse. Em 1935, ele realizou Canary Island Bananas, sobre o cultivo de banana nas Ilhas Canárias, onde sua família se estabeleceu como proprietária. Esse olhar interrogativo sobre o cotidiano se expandiria mais tarde, quando já estudante em Harvard. A partir daí, a América se tornaria seu maior cenário em filmes pioneiros na técnica do chamado cinema verdade, tais como Primary (1960), sobre o embate eleitoral nas primárias entre John F. Kennedy e Hubert Humphrey, ou 1 P.M. (1972), uma conturbada colaboração com Godard.

Como neste, a parceria foi frequente e decisiva na trajetória de Leacock, a começar com Robert Drew, editor de fotografia da Time-Life. Primary foi realizado nesse contexto de colaboração também com Albert Maysles e D. A. Pennebaker, nomes que chegaram a ter mais destaque que Leacock no período. Com Pennebaker, ele participou de Monterey Pop, um registro do concerto que empregava técnicas inovadoras para o gênero.

Mas foi também por saber se associar a outros profissionais para aprender que o diretor construiu seu talento. Quando deixou o Exército, ainda jovem, procurou outro grande nome do documentário, Robert Flaherty, e foi contratado por ele para ser câmera em The Louisiana Story, sobre um garoto da região e o impacto na família deste com a chegada da exploração de petróleo. Sua contribuição a uma nova e realista forma de cinema, como elogiou certa vez Henri Langlois, não falava a todos. Por seus temas engajados, como em Chair, visão da luta de um advogado para livrar seu cliente da pena de morte, o crítico francês Jean Tulard dizia que não passava de um cinema de bons sentimentos.