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Refogado

Um pulinho aqui do lado

por Marcio Alemão publicado 05/02/2011 13h04, última modificação 05/02/2011 13h04
Fui provar a comida argentina na terra deles. Trocaria a crise deles por nossa opulência sem pestanejar. Por Marcio Alemão

Fui provar a comida argentina na terra deles. Trocaria a crise deles por nossa opulência sem pestanejar

Estive na argentina... Grande coisa, quem não esteve? E você, na próxima vez que por lá passar, anote: Nemo. Peixes e frutos do mar e só. Fica em Palermo. “Qual Palermo?”, perguntei. A moça que nos serviu não deixou dúvida nem abertura: “Palermo e punto”. E falou isso sem colocar, sequer, um risquinho de riso nos lábios.
A saber: hoje o bairro foi “subdividido” em Palermo Viejo, Palermo Hollywood e Palermo Soho, entre outras alcunhas igualmente não muito criativas.

A rua se chama Cabello e o número é o 3.672. O Nemo nos foi recomendado por um habitante da cidade. Sim, sim. Buenos Aires, a exemplo de outras metrópoles lotadas de turistas, também oferece comida de muito baixo nível aos incautos. Sério mesmo? Alguém ainda cai no conto do Mané que fica na porta do restaurante dizendo alguma baboseira para convencer o passante de que lá está a melhor comida da cidade?

Um deles perguntou, na Recoleta: “American?” Fazer o quê? Tenho jeitão de gringo. Ou seja, poderia ter passado reto, mas meu colega, em dia de descabida simpatia, respondeu: “Brasileiros!” E aí, meu caro leitor e minha cara leitora, ficou praticamente impossível resistir ao convite para entrar e provar a melhor comida de Buenos Aires.

O Mané, quase sem sotaque, nos disse: “Aqui o bicho pêga!” Pensei comigo: que danados! Devem ter recebido instruções de um marqueteiro brasileiro, alguém que conhece a alma de nosso povo e como tocá-la. “Aqui o bicho pêga!” Quem não fica maluco para comer a comida de um lugar onde o bicho pega? Senti o que, imagino, Ulisses deve ter sentido ao ouvir o canto das sereias. E tal qual o herói de Homero, resisti e segui adiante.

No restaurante Nemo, a cozinha é simples, poucas invenções e muito respeito à matéria-prima. Comemos muito bem e pagamos quase nada. Como é bom sentir que uma boa matéria-prima foi respeitada e todo o esforço caminhou em uma única direção, extrair dela o máximo de sabor. Terminei o jantar com um creme de zabaione raro, nem um pouco enjoativo.

Vou ser quase repetitivo, ou melhor, enfático. Como é bom quando damos de cara com matérias-primas espetaculares que foram bem tratadas! Nomeie de modernas maneiras se isso ajudá-lo a se sentir inserido no sofisticado mundo da gastronomia, mas o fato é simples e singelo. Está na moda fazer isso, extrair o máximo de sabor daquilo que Deus nos dá. E como é difícil dar cabo dessa aparentemente simples façanha.

Sobre preços: há mais de dois anos falo sozinho nesta revista sobre os ridículos preços praticados nos restaurantes de São Paulo. Agora me parece que os demais veículos começaram a acordar. O crime foi assunto de capa de O Estado de S.Paulo e de mais três páginas no caderno de economia. Fiquei feliz, mas teria ficado ainda mais se o assunto tivesse ocupado as páginas policiais.

Por conta não só disso, foram muitos os momentos em que invejei profundamente a crise argentina. Trocaria aqueles dias de “paupérie” pelos nossos de opulência, sem pestanejar.

Estava a trabalho e, portanto, não posso lhes oferecer muito mais sobre o momento gastronômico portenho. Tenho apenas mais um. Jantei no Osaka, no momento um dos queridinhos da cidade. Serve uma comida nipo-peruana. Coisa minha: como me são desagradáveis os restaurantes da moda em qualquer lugar do planeta... Cheios demais, ruidosos demais e arrogantes, com maior ou menor intensidade, com menos ou mais razões.

Pedimos uma degustação, considerando o cardápio extenso e nossa pouca intimidade com ele. Um sashimi de polvo com sabores diferentes ao longo da fatia e uma colher com camarões quentes, muito saborosos em um molho vermelho, cobertos com alho-poró e umas bolinhas crocantes que lembravam Mandiopã. Só esses dois pratos me interessaram. Nem me lembro dos demais. Fui dando uma mordida cá e lá e deixando no prato. Os rolls, dois ou três que nos foram servidos, pesavam como a letra de um velho tango.

Na saída, o maître me perguntou o que havíamos achado.

Respondi: “Aqui o bicho pêga!”