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Um prazer enciclopédico

por Rosane Pavam publicado 15/11/2011 10h15, última modificação 15/11/2011 10h15
A editora Cosacnaify lança no Brasil cinco volumes da coleção francesa de fotografias bolso que deu um novo status para a arte

O termo “enciclopédia fotográfica” talvez não fizesse qualquer sentido até 1982, quando Robert Delpire criou a sua para o Centro Nacional de Fotografia da França. O editor decidira não somente catalogar a produção dos mestres, como apresentá-la em invólucro sofisticado a um grande público, no formato de coleção de bolso. A inovação de Delpire também residia em providenciar uma abordagem artística à fotografia, já que o público até então, em sua maioria, apenas a enxergava como resultado de técnica. A coleção surpreendia, ainda, ao apresentar individualmente o trabalho dos artistas fotográficos após uma apresentação crítica. Cada foto, além de publicada sem cortes, em excelente impressão, surgia identificada com a data de produção e o título que o autor lhe dera. As páginas ímpares de cada volume vinham ocupadas por uma única imagem, e se seguiam às legendas situadas nas páginas pares.

O sucesso dessa empreitada que nem todos, de início, perceberam inovadora, não foi somente francês. Editada em diversos países por três décadas, a coleção recebeu variações de apresentação editorial, a começar pelas cores da capa: ela era vermelho-cereja na Itália, prata no Japão, verde na Espanha e havia cores diferentes para cada livro na Inglaterra. Nos anos 80 daquele século XX, contudo, existiam disponíveis no Brasil apenas os pequenos exemplares franceses em fundo preto, que se tornariam joias importadas acessíveis para quem amava a arte, até que a editora Cosacnaify apresentasse um projeto de edição gradativa desses volumes no País.

A partir de agora, portanto, será cada vez menos preciso correr aos sites e livrarias franceses para obter um item precioso entre os 150 da coleção Photo Poche, originalmente editada pela Actes Sud. A editora brasileira lançará inicialmente cinco grandes fotógrafos em um formato de caixa negra, a 159 reais, mas poderá vender as unidades separadamente, a 34 reais. Os volumes relativos a cada fotógrafo terão tiragens diferentes: serão 5 mil exemplares para Helmut Newton e Elliott Erwitt, e 7 mil para Sebastião Salgado, Man Ray e Henri Cartier-Bresson. O compromisso da Cosacnaify, segundo o diretor editorial Cassiano Elek Machado, é o de lançar no mínimo quatro novos títulos anualmente. Mas, em 2012, a editora já planeja encher as prateleiras das livrarias com entre oito e dez novos livros da coleção.

E eles serão necessários. Nesta primeira caixa da editora brasileira está uma mostra pequena e aleatória, ainda que valiosa, daquilo que a Photo Poche produziu. Embora editar o volume de Cartier-Bresson seja quase uma obrigação para quem apresenta a fotografia de maneira enciclopédica, a decisão de brindar o leitor com Helmut Newton em lugar de André Kertész, Robert Doisneau ou dos artistas americanos dos anos 30, em uma primeira tacada, possa parecer discutível. Segundo o diretor editorial da Cosacnaify, contudo, Newton foi lançado antes daqueles mestres por representar a ação fotográfica no campo da moda, área na qual a editora atua há mais de dez anos.

Os primeiros autores apresentados nesta caixa não primam pela similitude, o que pode, ao fim, realçar a qualidade desta seleção. Cada um dos artistas tem, aqui, sua marca delineada. Man Ray, o norte-americano, é o primeiro a exemplificar o prazer da fotografia pela diferença, presente, por exemplo, em sua imagem Preto e Branco, de 1926. A foto está verticalizada demais para a aceitação do leitor, como se o desafiasse, representando um jogo entre o que é afinal a aparência humana, o que constitui sua máscara e o alcance da arte ao representá-las. Desafios eram essenciais a Ray, que iniciara a carreira como pintor, tendo atuado também como desenhista, decorador e artesão. Aliado do surrealismo, essencialmente provocador, ele acreditava que a pintura era ultrapassada em relação à fotografia. E contava ter percebido o alcance da nova maneira de expressão ao fotografar suas telas em preto e branco. No excelente ensaio À Escuta da Luz, que inicia o volume, Merry A. Foresta demonstra como Man Ray usou a fotografia para revitalizar a arte visual. “No contexto do modernismo, ele julgou tão importante apoiar-se na objetividade da câmera como demonstrar suas faculdades poéticas”, diz.

A partir de Ray, Cartier-Bresson faria não da arte de estúdio, mas da fotografia de rua o passo artístico adiante. E é bem verdade que o fotógrafo francês, morto em 2004 aos 96 anos, ultrapassou o registro documental do instante para alcançar aquela dimensão poética pretendida por Man Ray. A seleção da Photo Poche para Bresson é estupenda, porque considera os picos de sua produção, unindo o trabalho jornalístico na Índia, México ou China aos instantes fortuitos da rua, todos medidos nas circunstâncias de sua célebre geometria, e à espetacular arte de contextualizar personalidades, visível, por exemplo, no retrato que fez de Henri Matisse em Vence. O pintor segura uma pomba nas mãos, para desenhá-la, e ambos, pomba e pintor, contrastam-se em sua prisão com outras três aves em primeiro plano, pousadas voluntariamente sobre a gaiola.

O ensaio que precede Bresson é ele mesmo excepcional, de autoria do francês Jean Clair. O crítico de arte começa por lembrar Charles Baudelaire. O poeta que teorizava a modernidade detestava a fotografia, diz o crítico, por entendê-la como simples copiadora da frágil realidade e profanadora da pintura, que julgava transcendente. Mas isto representava uma contradição, porque o mesmo Baudelaire não se cansava de pregar o efêmero na arte. E o que poderia ser mais efêmero do que a fotografia, a nos “mostrar as coisas como se tivessem desaparecido e as criaturas, como se estivessem mortas”? O que confere aura à fotografia e a distingue do documento é o fato de a intenção de seu autor não ficar gravada nela, sentenciou Jean Clair, que diz, sobre Bresson: “Ele almeja o dia a dia, a vitrine da vida, não o que se distingue, mas o que se assemelha. Poeta do idêntico, não do diferente”.

Talvez seja a receita para o grande fotógrafo tudo aquilo que Elliott Erwitt, nascido em Paris de pais russos imigrantes, também lhe dá. Ainda muito ativo, hoje aos 83 anos, escreve ele mesmo sua apresentação, A Vida de Cão de um Fotógrafo. Entre divertidos casos em torno do uso da buzina como recurso para surpreender e obter a melhor expressão de seu fotografado, Erwitt desenha um credo de exaltação à vida. “Uma de minhas mulheres achava que eu me projetava nas fotografias de cães. Achava que eu me identificava com eles. Talvez, talvez”, ele escreve. “Costumo imitar os latidos dos cães. É por isso que o cãozinho de uma de minhas fotografias está pulando nos ares. Muita gente me indaga como consegui aquilo. Pois bem, eu latia, ele pulava, eu latia, ele pulava...” Um dia, conta o fotógrafo, uma senhora chutou seu cão por achar que o bicho se manifestara em hora errada. Mas não era o cão por trás do ato indiscreto, era Erwitt. “Acho que tínhamos o mesmo latido”, ele diz.

Humor e poesia. Esses ingredientes que engrandeceram Erwitt tanto quanto Cartier-Bresson ou Man Ray por vezes parecem ausentes de Sebastião Salgado, reivindicado como bastião ético por Christian Caujolle, que escreve o ensaio À Luz da História. “A câmera fotográfica será o instrumento dessa consciência, dessa vontade militante que fará de Salgado um fotógrafo ‘preo-cupado’ e engajado”, escreve sobre seu trabalho. Sempre presente nas situações extremas, o brasileiro parece indiferente ao mandamento de Bresson, segundo o qual o olhar lateral ao acontecimento torna o fotógrafo transcendente e humano. Salgado, pelo contrário, trabalha sobre o impacto, sobre a notícia de escândalo, em lugar de procurar a sutileza do olhar de quem observa, invariável em suas imagens, mas surpreendente na vida. Seu pecado é a ostensiva presença, segundo a sentença de Jean Clair. Será Salgado, então, muito semelhante na ação e no raciocínio àquele Helmut Newton do universo da moda, desnudando-o com toda a evidência, plastificando-o com exaltação. O estilista Karl Lagerfeld, autor do ensaio Nordfleisch (Carne do Norte), perfila Newton como um homem “em transe” e intitula seus objetos fotográficos como “vítimas”. Quem suspeitaria haver em Lagerfeld um pensador sobre o trabalho de muitos fotógrafos e a qualidade de tantas fotografias?