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Cultura

Refogado

Um outro mundo

por Marcio Alemão publicado 12/10/2010 15h11, última modificação 12/10/2010 15h11
Por que não aceitar as diferenças no universo gastronômico e fora dele?

Por que não aceitar as diferenças no universo gastronômico e fora dele?

A semana passada, estive em um restaurante novo e fui convidado a provar uma bisteca de porco. Aceitei o convite, provei-a e vou dizer: estava bem diferente. Uma boa bistequinha, isso de acordo com minha memória, deve ter alguma suculência. E vamos combinar que aí está um desafio da pesada. O truque da carne de vaca não se aplica. O truque na verdade não é truque. Basta deixar a carne não passar do ponto. Sendo a matéria-prima de boa qualidade, está feito o serviço. Carne de porco, infelizmente, tem de estar sempre bem passada. Por isso a dificuldade de se conseguir suculência, umidade em alguns cortes. Mas é possível. Mas talvez não seja importante, afinal de contas.

Sim. Na semana que passou, um amigo chamou minha atenção. Disse que eu andava muito mal-humorado. Decidi ponderar sobre o comentário e concluí que, sim, eu posso ver o mundo com outros olhos. Este mundo maravilhoso onde lagartas se transformam em borboletas e sabiás gorjeiam durante toda a madrugada não nos deixando dormir (concordam que seria um pecado dormir enquanto canta o sabiá?) é um lugar muito mágico que merece meu eterno sorriso e gratidão.

E ungido – ou dentro do meu assunto seria melhor dizer untado? – por essa nova inspiração, direi que as bistecas do tal novo restaurante estavam, como já as adjetivei lá nas primeiras linhas, diferentes. Secas, quase poeirentas, bem diferentes mesmo.
E não faz muito tempo que estive em um mui reputado estabelecimento comercial que vende comida pronta para quem estiver disposto a pagar o preço alto praticado por lá. Em palavras simples: estive em um restaurante caro e metido onde me serviram um feijão bem diferentão.

Imagine você que cometi o pecado, isso até a semana passada, de levar comigo lembranças gastronômicas. Como fui tolo! Quanto isso obnubilou e cegou meu paladar – como talvez dissesse o mago sinestésico Manoel de Barros. Privei-me do novo. E por quê? Deixei de perceber, durante décadas, a sutileza que pulsa submersa em um feijão aguado, ralo. E quando ele chega meio quebradinho com essa água escurinha? Diziam-me que isso é feijão velho, de má qualidade.

Bacana que seja. Acredito que até os feijões da terceira idade merecem fazer parte desse processo de inclusão. Se você é um feijão e está lendo essa coluna, me desculpe; na verdade eu queria dizer feijões da MELHOR IDADE.

A Bienal está aí, gente! Melhor momento para rever nossos velhos conceitos não há. É o momento de perceber quão diferente pode ser uma obra de arte. Idosos feijões quebradiços boiando em turva água. Poeirentas bistecas ruidosas rangendo em meus dantes severos dentes. Essa fusão do novo comer com um novo olhar não chega a ter um sabor de instalação?

Vou por essa nova trilha. Sorrindo, tentando ver e sentir o que meu velho e antiquado paladar não deixou. Vou descobrir o que um serviço desatento está querendo me mostrar. Vou tentar elaborar melhor a descrição de um prato, de uma comida que carece de sabor. Será, certo estou, simples notar que o novo sabor pode ser a ausência dele. Quanta vezes – que idiota tenho sido! – reclamo de pratos que chegam à mesa em estranhas temperaturas.

Um bacalhau em um distinto restaurante chegou em uma cumbuca de barro e não pode ser tocado por 20 minutos. Por que me enchi de raiva e não aproveitei esse tempo para meditar, para reler a obra de Paulo Coelho com atenção? Pratos que chegam frios também devem nos levar a pensar em possibilidades outras que não a reclamação. O sabor de uma comida não muito quente é diferente. Repito: reclamar só vai me privar do novo.

Ah! Como quero abraçar essa nova trilha da alegria que só a aceitação das diferenças pode me dar. Esteja comigo nessa nova caminhada. O que não falta nesse mundo é gente diferente fazendo coisas diferentes.