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Cultura

Ditadura argentina

Um longo pesadelo

por Emiliano José — publicado 16/03/2010 19h28, última modificação 24/08/2010 19h34
Purgatório, livro do argentino Tomás Eloy Martínez (Companhia das Letras) é um romance em torno do drama argentino sob a ditadura,

Purgatório, livro do argentino Tomás Eloy Martínez (Companhia das Letras) é um romance em torno do drama argentino sob a ditadura, que agiu como a brasileira: matou, torturou, sequestrou, fez desaparecer pessoas. Em número muito maior: algo em torno de 30 mil mortos, não sei quantos desaparecidos. É esse o tema de Martinez.

Emília Dupuy, trinta anos depois, reencontra em Nova Jersey o marido, desaparecido político, e nota que ele não envelheceu. Está exatamente como era quando o casal fora preso em Tucumán. Ela foi solta, e ele sumira nos porões do inferno argentino de então. É este o ponto de partida do autor, o núcleo que nos leva a viver a noite que se abateu sobre a Argentina.

Um extraordinário romance. E que não incorre em qualquer tentação panfletária, apesar do tema. Os personagens são construídos com extrema sensibilidade. Para além dos desaparecidos, dos presos, do comportamento dos torturadores, do seqüestro de crianças, da cumplicidade da Igreja Católica, há a impressionante relação entre Emília e o pai, o doutor Dupuy, um misto de jornalista e intelectual, se é possível separar as duas condições, a serviço dos militares.

O doutor Dupuy tinha relação íntima com as altas esferas militares, inclusive com a Enguia, como é denominado no livro o ditador argentino Rafael Videla. Emília viveu durante largo tempo a tensão entre acreditar no pai, que nunca admitira que o marido dela havia sido morto, ou nas informações que o davam como assassinado pela ditadura. Como se contrapor às verdades do pai?

Vivia o clima de exortação da ditadura dentro de casa, as diatribes contra os subversivos e terroristas, o perigo que eles representavam para a família argentina, e para a família dela em particular, como o pai procurava demonstrar sempre, incansavelmente.

Algumas pessoas, parentes de vítimas, inopinadamente, e de modo clandestino, em aparições rápidas, ou por telefonemas, informaram-lhe que o marido havia sido morto pela ditadura, e davam detalhes.

Ela dizia que não era possível, que o pai havia garantido que não. Seu pai é uma merda – disse-lhe uma delas. Como podia dizer uma coisa dessas? Ninguém questionava a integridade do doutor Dupuy, pensava Emília.

Demorou até que o pai se revelasse, ou que ela compreendesse a natureza dele. Nem dá para dizer que o consegue inteiramente. Não é fácil reconhecer o monstro no pai, em nenhum pai.

Bem mais tarde, já derrotada a ditadura, avalia tudo e sente-se cúmplice de todo aquele terror. O pai a incomodava, desde menina, quando carícias disfarçadas dele a faziam se sentir impura. E mais tarde, quando as monstruosidades foram reveladas, sente simultaneamente pena e nojo dele.

Quando ela conta uma ligação que recebera a respeito do marido desaparecido, o pai fica possesso:como você consegue ser tão ingênua? Não entende que estamos numa guerra? Que sua família pode ser atacada a qualquer momento pelos subversivos? Iam preparar uma armadilha para você. Queriam tirar informações, entrar nesta casa. Iam cortar a cabeça de todos nós.

Inocente, ela pergunta ao pai:

-Como devo agir, então, se essa mulher me ligar novamente?

Não vai ligar de novo. Localizaram-na num café perto do seu apartamento. Estava armada, espionando você. Foi cercada por uma patrulha e, quando pediram que entregasse a arma, quis resistir. Iam prendê-la, mas ela mesma se matou.

O pai tinha noções claras: se a tortura era necessária para purificar a nação, qual a dúvida? E mesmo que os justos pagassem pelos pecadores, qual o problema? Era inevitável nas guerras, e a Argentina vivia uma guerra contra os subversivos.

Ele pensava igual ao Enguia, que durante uma entrevista a jornalistas japoneses sobre a epidemia de desaparecimentos, disse que o desaparecido “é uma incógnita, não tem identidade, não está vivo nem morto, simplesmente não está. É um desaparecido”. O cinismo e a crueldade juntavam-se em Dupuy e na Enguia. E Dupuy em casa sempre dizia que sabia o que era melhor para a família: a irmã Chela, a mãe Ethel e ela própria, Emília.

O ápice da crueldade do pai com Emília se verá ao final, quando ele a encerra no closet cheio de espelhos porque ela se equivocara e pegara, numa recepção, a pelerine da rainha de Espanha que com o rei visitava a Argentina. O pai sabia do medo da filha de ser trancada ali, e sabia que aquilo seria uma forma sutil e não tão conhecida de tortura.

Quando a mãe, agora num asilo, a convidava, criança ainda, para entrar no closet, ela reagia ferozmente. O pai testemunhara isso várias vezes. Neste momento, ao trancá-la ali felicitou-se por não ter desmontado o closet. Ela iria pagar caro pelo crime de ter-lhe causado aquela vergonha. Pensou que os espelhos, que aquela tortura a domariam para sempre e “se ele tivesse sorte, a transformariam em um vegetal como a mãe”. Carne e unha, o pai e a ditadura. E para defender-se, ele não se incomodava em torturar os seus.
O purgatório é uma espera da qual não se conhece o fim. É uma metáfora religiosa que aparece no romance. Verdadeira para a Argentina, que ainda cura suas dores. Verdadeira para cada família que sentiu na pele e no espírito, sob os mais variados ângulos, o impacto de uma ditadura.

Verdadeira também para o Brasil, cujo governo está neste momento acossado pela direita para não implantar a Comissão da Verdade. Para aconselhar a que se leia o romance eu ia escrever que essa é outra história, mas não é. É a mesma. A leitura vale a pena por isso. Porque o purgatório ainda persiste.