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Cultura

Fix-up

Um inferninho da cor do céu

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 10/09/2010 10h50, última modificação 10/09/2010 10h50
Antonio Luiz M. C. Costa resenha o lançamento "Neon Azul", de Eric Novello, que se apresenta como um romance "fix-up" da literatura de fantasia

Ainda no campo da literatura de fantasia, mas tão afastado dos lugares-comuns do gênero quanto possível, está nas livrarias o Neon Azul de Eric Novello (Editora Draco, R$ 31,90, 168 páginas), que se apresenta como romance fix-up. Antes de mais nada, o que é isso?

Fix-up significa, ao pé da letra, algo como “conserto”, “gambiarra”, “guaribada”. O termo surgiu da ficção científica dos EUA que, inicialmente publicada nesse país quase que só na forma de contos e seriados em revistas pulp, começou nos anos 50 a contar com um mercado para livros de maior fôlego. Muitos autores resolveram reunir contos já publicados, que aproveitavam o mesmo universo e alguns dos mesmos personagens, em histórias maiores, com as devidas adaptações. Entre os exemplos mais importantes, incluem-se Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, Duna, de Frank Herbert, Fundação e Eu, Robô, de Isaac Asimov, Um Cântico para Leibowitz, de Walter Miller e Missão Interplanetária de Van Vogt (Voyage of the Space Beagle, no original).

A prática, naturalmente, é anterior à cunhagem do termo e mesmo à ficção científica. As Mil e uma noites, por exemplo, poderia ser considerada um fix-up do folclore árabe, com a história de Xerazade servindo para enquadrar o resto. As Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, é um fix-up de contos infantis originalmente independentes. Os Quatro Grandes, de Agatha Christie, é um fix-up de contos policiais inseridos em uma história mais ampla.

No caso desta obra de Novello, trata-se de uma articulação de contos mais fantásticos que propriamente de fantasia – a maior parte do tempo oscilam em um limbo entre realismo e fantasia, permitindo ambas as interpretações – que se passam em um mesmo cenário, a boate do título e são costurados entre si por citações cruzadas e por temas e personagens recorrentes, principalmente o misterioso Homem de terno branco da capa.
Nem todos são igualmente bons, a revisão (principalmente de pontuação) tropeça vez por outra e encontra-se aqui e ali alguma palavra mal empregada. Embora a música erudita e MPB pareçam (curiosamente) ser mais ouvidas nessa casa noturna, a imagem que vem à mente não é de uma peça clássica de perfeição irretocável, que esconde do ouvinte os rascunhos e ensaios, mas de uma jam session, ou improvisação de jazz, com algumas hesitações e acordes desafinados que acabam por conduzir a momentos gloriosos. É o prazer de acompanhar uma experiência criativa original que, no fim das contas, é recompensadora. Pode-se torcer o nariz em algumas passagens, mas é difícil não se levantar para aplaudir ao final.

O primeiro conto ou capítulo, Invisibilidade, talvez seja o mais desajeitado. A história do mendigo que dorme e pede esmolas na porta do inferninho poderia ser uma boa ideia, mas a situação e o personagem não combinam. Que executivo próspero e bem-sucedido, sem dever nada à Justiça, se deixaria passivamente expulsar de casa e jogar numa sarjeta por uma esposa infiel e um filho assassino, seus dependentes?

Soa como um personagem de A Praça É Nossa perdido em um drama de Nélson Rodrigues. Neste caso, a intervenção do fantástico “Homem”, em vez de dar sentido a essa implausibilidade psicológica e social, serve como resolução desnecessariamente forçada para um conflito que, na vida real, se resolveria com recursos mais mundanos. As citações mitológicas equivocadas que abrem o conto também não ajudam (não foi Marte que lutou com o Minotauro e sim Teseu). Destoa do resto do livro, em brilho e em caráter.
O leitor pouco estimulado pelo começo pode ficar seguro, porém, de que o espetáculo melhora à medida que o artista se empolga. Nos contos seguintes, a qualidade e o interesse crescem.

O segundo conto-capítulo, Noites de insônia, propõe uma situação talvez mais estranha, a de um homem explorado e abusado por sua incapacidade de dormir, mas o conduz de maneira mais natural e lhe dá um final satisfatório, ainda que pouco espetacular.

O terceiro, O boneco na garrafa, segue na mesma direção, com a intervenção fantástica da estranha peça de decoração do escritório de um advogado – um “cramulhão na garrafa” – para, bem, acabar com as fantasias de uma certa situação, aparentemente agindo da maneira oposta à que se espera de um diabrete. A título de amostra do estilo elíptico e descuidadamente coloquial, mas expressivo, vai aqui um trecho desse capítulo:

“Catei dinheiro na carteira e pedi que Karina se vestisse, era hora de ir embora. Seu silêncio valia mais do que seu sexo. Por um breve instante, me perguntei se o boneco só tinha uma queda por canários ou se gostaria de experimentar outros sabores. Deixei escapar uma risada, dessas que não se controla. Só a língua, meu caro, só a língua e você já fará um favor para a humanidade”.

Os dois lados continua o movimento em crescendo ao seguir de maneira o ponto de vista de um frequentador do Neon Azul que acontece ser também um sociopata e assassino serial, sem deixar de transmitir o horror de seus atos. Uma façanha que a princípio parece mais difícil que a do primeiro conto-capítulo, mas é executada com maestria muitíssimo superior.

A quarta parede inicia um novo ciclo, no qual o tema é o próprio processo de criação. É contada com uma peça em três atos, em ordem invertida. Parece um erro tático, pois o ato mais surpreendente e interessante é o terceiro, o começo, representado como uma peça propriamente dita. Os que o precedem no tempo e o seguem no texto são comparativamente banais, até dispensáveis. Não deixam de ter uma função, porém: a de deixar explícito ao leitor ingênuo um jogo de quebras e inversões da sequência temporal que se repete ao longo dos contos-capítulos de Neon Azul e proporciona boas surpresas e desafios.

Em A última nota, a história do pianista contratado pelo cabaré parece a do autor, mais uma vez tateando e experimentando a inspiração. O resultado não é espetacular, mas é harmonioso e sincero. Invasão de privacidade retorna ao mesmo tema, desta vez na pele de um escritor que tenta escrever algo sobre o Neon Azul num papel que resiste a aceitá-lo: o tema se torna mais explícito.

Só tinha que ser com você, além de homenagear Tom Jobim, dá a impressão de mudar de rumo ao contar a história de uma devota evangélica, mas sua ligação com a casa noturna, com personagens e capítulos anteriores e com o final fazem desta uma das passagens mais cruciais do livro.

O ponteiro dos segundos é uma mera introdução ao personagem central de A dançarina e o sexo, um editor com papéis menores, mas recorrentes, em capítulos anteriores, que agora tem sua vez no primeiro plano. Além de editar o escritor de Invasão de privacidade, mostra talento também para editar vidas, como é o caso da garota de programa que começa frustrada – ser chamada de “puta” pelo cliente levou-a, como “o escritor” a “meditar sobre a verdadeira origem de seu trabalho e se a real importância deste não se perdeu no arrastar dos séculos” – e parece reencontrar a dignidade ao longo da noite com o personagem. Ficamos também sabendo que o editor recebeu a proposta de editar a própria vida e a recusou e por quê – e por fim o significado do misterioso “Homem”, antes apenas sugerido, se esclarece sem deixar dúvidas.