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Um herói civilizador

por Orlando Margarido — publicado 23/03/2011 16h37, última modificação 23/03/2011 16h52
Filho de escrava, o engenheiro Theodoro Sampaio ajudou a planejar um Brasil que, nos sertões e nas cidades, pretendia ser republicano e moderno

Se o empreendedorismo pode ser medido pelo número de façanhas e pelas condições propícias para quem as efetivou, o caso do baiano Theodoro Fernandes Sampaio (1855-1937) merece figurar no panteão nacional como heroico. Mulato, filho de mãe escrava e possível pai da aristocracia branca local, criado por um padre presumivelmente culto e esclarecido o suficiente para encaminhá-lo aos estudos, este engenheiro, geógrafo, cartógrafo, historiador, linguista, empresário e talvez urbanista, quando a designação ainda não se aplicava, é aquele que conhecemos de nome de ruas, túneis, bairros e cidades do Brasil. Mas por certo uma informação modesta, dada a considerável dimensão de seus feitos, como tornar viável a instalação do complexo hospitalar das Clínicas, onde hoje desponta a via com seu nome, na zona oeste de São Paulo, cidade onde ainda contribuiu de forma decisiva para a melhora sanitária. Ou criar o primeiro bairro planejado de Salvador, a Cidade Luz, futura Pituba. Legado de um precursor que agora é esmiuçado em consonância com a determinação e caráter ambicioso do personagem no livro Theodoro Sampaio – Nos sertões e na cidade (Versal Editores, 392 págs. R$ 190). Projeto de pesquisa de Ademir Pereira dos Santos, o volume mereceu o Prêmio Clarival do Prado Valladares, na edição de 2008, iniciativa da Odebrecht para edições dedicadas à história do Brasil.

Neste levantamento de vida pessoal conflituosa e obras influentes assinado pelo professor e arquiteto paranaense vemos a conjunção de um esforço pessoal e o cenário de desenvolvimento de um país que requeria figuras de múltiplas habilidades. Era o período do segundo reinado de dom Pedro II, governo inclinado a conhecer mais profundamente o território nacional e mapeá-lo, conforme salienta a historiadora Maria Alice Rezende de Carvalho em texto de introdução no livro. “Por vocação, tradição e afinidade, o tema urbano será uma das grandes marcas da engenharia imperial”, diz, lembrando que a profissão de engenheiro tinha origem associada aos cursos de artilharia e construções defensivas militares. Theodoro Sampaio se preparava para ser um protagonista emblemático na execução desse planejamento.
Já instalado no Rio de Janeiro, depois de deixar a pequena Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo Baiano, onde nasceu, não se prestava ao papel por acaso. Em 1876, estava formado como engenheiro civil na Escola Politécnica carioca, justamente a extinta Escola Central, de cunho militar. Aos 21 anos, lecionava para se manter e era desenhista do Museu Nacional, onde teve um encontro decisivo com o geólogo e geógrafo americano Orville Derby. Integrante de expedições no Brasil que ali estava para organizar o acervo da instituição, Derby propiciou os primeiros passos na carreira do jovem colega. Este o auxiliou na viagem da chamada Comissão Hidráulica do Império, para a qual Theodoro foi nomeado três anos depois de sua formatura, pelo Rio São Francisco e pelo sertão baiano. A iniciativa foi criada com a intenção de executar melhorias de navegação em rios e desenvolver os portos marítimos, experiência que conduzirá o jovem engenheiro para as áreas de geografia, geologia e cartografia. Ainda uma década depois ele estará ao lado de Derby na Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo.
A região do São Francisco será cenário do primeiro grande projeto de Theodoro, não apenas relacionado à questão fluvial, mas à ferroviária, quando passa a liderar o grupo de engenheiros responsáveis pelo prolongamento da estrada de ferro que liga a Bahia ao Rio. Além do evidente desenvolvimento que traz à região, a linha ganha mais tarde um conceito simbólico por meio da literatura, pois esse trecho possibilitaria a Euclides da Cunha chegar até Canudos para narrar os acontecimentos históricos ali ocorridos na sua obra Os Sertões. No clássico, constam detalhes da viagem pela ferrovia. Mas, principalmente, a nova ocupação permite a Theodoro retornar ao estado natal, o que causa ao menos um fato importante em sua crônica pessoal, o casamento, em 1882, com Capitolina Moreira Maia. Com ela ficaria por 38 anos, apesar de seu estado de demência, o que o leva a conviver com uma segunda mulher. A essa altura, o impacto maior em relação ao universo familiar já havia ocorrido, quando o jovem universitário voltou mais de uma década depois para rever a mãe e três irmãos e, acredita-se, teria comprado a liberdade de todos.

No que diz respeito à trajetória particular do personagem, o livro alimenta-se de outras fontes para justificar a pouca informação deixada por Theodoro sobre sua vida. Exemplo é um dos primeiros biógrafos e amigo Arnaldo Pimenta da Cunha, que em 1942 escreveu Theodoro Íntimo. Provavelmente marcado por traumas e contrariedades, o protagonista se cala sobre seu destino pessoal, diferente do âmbito profissional detalhado com frequência em cadernetas de anotações, esboços e desenhos. Uma dessas passagens pouco claras refere-se justamente à questão da alforria de sua família. Há fontes que indicam sua mãe Domingas já livre quando ele nasceu, enquanto outras questionam se foi ele a libertá-la. Mais concreta é a negociação em favor dos irmãos, feita com o proprietário, o Visconde de Aramaré. Este não é outro que um dos possíveis pais de Theodoro, Manoel Lopes da Costa Pinto, que dividia com o irmão, Francisco Antônio da Costa Pinto, a provável incumbência da paternidade. Na dúvida que afligia a tradicional família dona de engenho nas imediações de Santo Amaro da Purificação, o recém-nascido passou para as mãos do capelão Manuel Fernandes Sampaio, que registrou a criança em seu nome e, para alguns estudiosos, candidatou-se também ao posto de pai verdadeiro.
O drama de tom folhetinesco cumpre, claro, papel preponderante na formação do futuro engenheiro. Apesar da incerteza quanto ao laço paterno, Theodoro recebe tratamento diferenciado entre as crianças do engenho e é enviado para uma escola na cidade. Mais tarde segue para São Paulo e Rio de Janeiro, onde finaliza os estudos. Com o acréscimo de Santos à lista, devido ao projeto do porto que desenhou para crescer e se ordenar, esses locais, juntamente com Salvador, serão o eixo de referência profissional do especialista. A ideia de sanear as cidades que progrediam e lhes dar estrutura urbana digna era seu principal intuito, que teve no estado e na capital paulistas os maiores exemplos.

Entre 1886 e 1903, ele assume cargos-chave nessa orientação em ao menos dez iniciativas voltadas à área de água e esgoto, a exemplo da Companhia Cantareira e a Ipiranga de Tramways e Construções, além de participar de institutos de geografia e geologia. Seu ofício se alargava para regiões distantes da futura metrópole, como a do Rio Paranapanema. Em 1893, o resultado de uma expedição à Serra da Mantiqueira foi uma curiosa proposta do engenheiro de transferir a capital do País para Campos do Jordão, que nascia então planejada, ideia essa respaldada pelo apoio de determinada aristocracia progressista da região em oposição “à escolha dos longínquos sertões de Goiás, no grande planalto continental”. Do sonho sobrou apenas um relato poético de Theodoro em livro publicado no mesmo ano e reeditado pela Brasiliense em 1978. Projetos de desenvolvimento semelhantes seus ocorrerão na capital baiana, a partir de 1904, quando se instala ali a firma Theodoro Sampaio & Paes Leme, revitalizando áreas como a da Praça da Sé. Mais tarde, o escritório será tocado por um de seus dois filhos, Fructuoso Theodoro Sampaio, engenheiro formado pela Politécnica de São Paulo. Em Salvador, ainda se encontra exemplificada outra de suas habilidades, na reforma e modificação da fachada da Igreja de Nossa Senhora da Vitória.
Tantas realizações de inspiração técnica não cerceavam Theodoro Sampaio em outros campos de atuação, como o intelectual, e suas andanças pelo País suscitavam a curiosidade para costumes e culturas locais. À maneira dos exploradores viajantes estrangeiros, por quem era influenciado e sobre os quais lançou um livro, aproveitava a mesma facilidade para os mapas e desenhava paisagens e figuras humanas, escravos ou índios. Estudou seu linguajar e publicou o respeitado estudo O Tupy na Geografia Nacional. Sua bibliografia inclui ainda artigos em jornais, dicionários e perfis de personagens históricos, como João Ramalho. Até a morte no Rio de Janeiro, no entanto, sua cronologia aponta apenas uma experiência em cargo político como deputado federal pela Bahia, entre 1927 e 1929. Dado que talvez diga algo a empreendedores falaciosos de hoje. •