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Resenha

Um Esopo para o século XXI

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 01/12/2011 19h33, última modificação 13/12/2011 17h10
'Rei Rato', ambientado num submundo londrino na maior parte realista, apesar de habitado por alguns personagens surreais, tem uma trama razoavelmente orgânica
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Capa do livro 'O Rei Rato'. Foto: Divulgação

A fantasia urbana Rei Rato (Tarja Editorial, R$ 56, 400 páginas), primeira obra do escritor inglês China Miéville a ser editada no Brasil, foi em 1998 seu romance de estreia, mas talvez seja mais interessante que Perdido Street Station, obra de 2000 que inaugurou o subgênero conhecido como New Weird e pela qual é hoje mais conhecido.

 

Perdido Street é sobrecarregado por uma variedade ilimitada de seres imaginários e por uma trama exageradamente tortuosa. Tenta surpreender e chocar o leitor com a estranheza e a complexidade do mundo imaginário de Bas-Lag e da cidade de New Crobuzon, mas para isso força personagens a atitudes arbitrárias e apela a intervenções ex machina de entidades poderosas e imprevisíveis para forçar situações violentas ou comoventes. Abusa da boa vontade do leitor em aceitar o jogo do fantástico e o conjunto acaba por parecer uma colcha de retalhos de clichês de fantasia, horror e ficção científica, povoada por muitos personagens fracos, meros joguetes do acaso.

Já Rei Rato, ambientado num submundo londrino na maior parte realista, apesar de habitado por alguns personagens surreais, tem uma trama razoavelmente orgânica. Os acontecimentos e as ações dos personagens principais, por estranhos que sejam, fazem sentido. São condicionados por suas próprias metas e necessidades, não pela intervenção arbitrária de entidades externas ou pela mão pesada do escritor.

O protagonista, apesar do histórico obscuro e da sua transformação um tanto repentina demais de rapaz inseguro e apático em entidade de poderes sobrenaturais e vontade feroz, é suficientemente humano para despertar o interesse e talvez a identificação do leitor.

Saul Garamond volta de um acampamento na praia. Ao chegar a seu apartamento e ouvir o som da televisão, pensa que o pai, que estava à sua espera, dormiu ao assistir o programa e vai a seu quarto dormir. Quer evitar falar com o pai viúvo, um militante socialista e sindical com o qual se relaciona mal e vai ao quarto e dorme, em vez de acordá-lo. Mas na manhã seguinte é acordado pelos golpes da polícia na porta e brutalmente levado à delegacia. O pai foi encontrado morto, aparentemente jogado pela janela, e o filho é o primeiro suspeito.

Confuso e aflito, Saul é preso numa cela depois de interrogado, quando recebe a visita de um misterioso e fedorento personagem, que parece ser um mendigo, mas não ter dificuldade nenhuma para se infiltrar na delegacia e abrir as grades e lhe oferece ajuda para fugir. E o jovem é carregado nas costas com facilidade, através da delegacia e pelos telhados de Londres.

O estranho é o “Rei Rato”. A expressão se baseia numa lenda do folclore europeu sobre grupos de ratos entrelaçados pelas caudas que exercem autoridade sobre os demais de sua espécie, fazendo-os trazer comida e prestar outros serviços, mas neste caso é um “rato” de forma humana, dotado de força extraordinária, invisibilidade e capacidade de comer e digerir lixo sem contratempos, entre outras habilidades. Que Saul descobre possuir também, pois não é inteiramente humano e sim meio-rato.

Os primeiros capítulos são um tanto perturbados por excessos barrocos de linguagem, como se o autor tentasse compensar a relativa lentidão das primeiras cenas com metáforas inusitadas. Por exemplo, “o movimento parecia ter durado mundo, muito tempo, a porta lutando caminho adentro pelo ar subitamente glutinoso. As queixas das dobradiças, emagrecidas pela doença, se propagaram muito depois da porta ter parado de se mover”.

A partir do momento em que a trama se revela e a ação se acelera, porém, a linguagem se torna menos pretensiosa e se enche de vigor. A esquisitice da forma é substituída, com vantagem, pela do conteúdo: “Tudo isso ficava a um milhão de quilômetros de distância do mundo cafona dos truques de mágica. Sua vida era serva de outro encantamento, um poder que tinha se esgueirado para dentro de sua cela na delegacia e o possuído, uma magia suja, crua, um encanto que fedia a mijo. Aquilo era vodu urbano, sustentado pelos sacrifícios dos atropelamentos, dos gatos e pessoas morrendo na pista, um I Ching de comes e bebes derramados e roubados, uma Cabala de sinais de trânsito”.

É pena que a maior parte das conotações peculiares das gírias cockney e do mundo do drum and bass inevitavelmente se percam na boa tradução por Alexandre Mandarino e tenham de ser suplementadas por muitas notas de fim de capítulo (que seriam menos incômodas nos rodapés). Por outro lado, talvez a tradução seja mais compreensível para o leitor brasileiro médio do que para um leitor anglo-saxão que não esteja enfronhado nos meandros da malandragem londrina e da subcultura das baladas techno.

Fosse Saul filho de um rei de sangue azul ou de um deus, seria uma “Jornada do Herói” tradicional, mas neste caso o protagonista é herdeiro de um submundo de esgotos, lixo e marginalidade londrina que o autor consegue tornar mais fascinante do que qualquer reino da carochinha, ao mesmo tempo que transforma o Flautista de Hamelin do conto de fadas num arquivilão de proporções épicas. Ficamos sabendo que os ratos deixaram de confiar em seu rei desde esse incidente medieval, no qual milhões deles perderam a vida. O flautista controla homens, ratos ou qualquer outro ser vivo com sua música e tem poderes sobrenaturais que o tornam quase invencível.

Saul é a esperança do Rei Rato e de seus aliados Loplop (rei dos pássaros, baseado num personagem criado pelo surrealista Max Ernst) e Anansi (rei das aranhas, baseado no folclore africano e afro-americano) para derrotar o flautista por ser um mestiço imune tanto a feitiços para homens e para ratos. Mas é alvo da perseguição do inimigo, que sabe de sua existência e se mostra muito mais cruel e engenhoso do que imaginava. Convence Natasha, amiga de Saul e compositora e DJ de drum and bass, a gravar fitas com sua flauta, que lhe permitem, com a sobreposição de linhas melódicas, tentar magias nunca dantes imaginados. Além disso, Saul rompe com o Rei Rato ao descobrir que ele o enganara sobre sua origem e a morte dos pais e os aliados, acovardados, brigam entre si. Essa luta surda deixa em Londres uma trilha de cadáveres mortos em circunstâncias estranhas e com incrível violência, assombrando os policiais que não compreendem o que se passa.

Talvez se possa ler a história como alegoria. Os reis-animais e seus súditos seriam as forças do inconsciente, o flautista o poder da publicidade e da indústria cultural de manipular as pessoas por meio do desejo e do consumo (os enfeitiçados por ele julgam ouvir o apelo de sexo e comida) e a balada techno como a ambiguidade de uma arte que pode servir tanto à alienação quanto à solidariedade e liberdade. E o mestiço Saul como a necessidade de combinar a razão e o inconsciente para superar a submissão aos encantos da mídia. Trata-se, em parte, de uma obra política, escrita por um teórico e militante marxista. Mas ao mesmo tempo é um bom romance de fantasia e horror, ou “dark fantasy”, em seus próprios termos, o que o torna muito mais eficaz em fazer pensar do que se fosse uma fábula moralista e panfletária.